"Jogos de pai triste": como a paternidade vem se tornando o centro de narrativas nos videogames
De 'The Last of Us' a 'God of War' e 'Pragmata', entenda como a figura paterna tem ganhado espaço como protagonista emocional dos games


Vinícius Gobira
Nos últimos anos, os videogames têm se aprofundado cada vez mais nas relações humanas, e um tema que se destaca é o da paternidade. De forma crescente, títulos de grande sucesso colocam personagens paternos em jornadas emocionais de redenção, em que suas vidas são transformadas pela relação com filhos ou figuras semelhantes.
Esses jogos ganharam apelido de "jogos de pai triste". Além de conquistarem os corações dos jogadores, estes jogos fazem parte de uma tendência que reflete o amadurecimento tanto dos desenvolvedores quanto do público. Exemplos como The Last of Us, God of War e Pragmata são apenas alguns dos títulos que exploram esses laços, abordando temas de perda, amor e superação.
The Last of Us: a jornada de Joel e Ellie

Lançado em 2013, The Last of Us segue o protagonista Joel, um homem marcado pela perda de sua filha em um apocalipse. Ao ser encarregado de proteger Ellie, uma jovem com potencial para salvar a humanidade, Joel encontra uma nova razão para viver.
A relação entre os dois, que começa como uma missão de sobrevivência, evolui para um vínculo de paternidade, com Joel percebendo em Ellie a chance de se redimir e curar as feridas de seu passado.
A história de The Last of Us não só se tornou um marco na indústria dos jogos, mas também refletiu uma mudança importante na forma como os desenvolvedores tratam temas emocionais complexos, à medida que a geração que cresceu jogando também se tornava mais madura.
God of War: Kratos e Atreus, uma nova paternidade

Em 2018, God of War reimaginou a trajetória de Kratos, um personagem conhecido por sua brutalidade e sede de vingança. Agora, ele é forçado a ser pai de Atreus, seu filho, em um mundo inspirado na mitologia nórdica.
A relação entre os dois, que começa em tensões e conflitos, gradualmente evolui para uma parceria profunda, com Kratos tentando ensinar a Atreus não apenas sobre o mundo dos deuses, mas sobre o valor da humanidade.
Em entrevistas, o diretor Cory Barlog revelou que o nascimento de seu próprio filho teve um impacto direto na criação do jogo, moldando a forma como a história e a personalidade de Kratos foram retratadas. Ele comentou que este jogo não é apenas sobre Kratos ensinando Atreus a ser um deus, mas sobre Atreus ajudando seu pai a se reconectar com seu lado humano.
Pragmata: um novo tipo de paternidade no espaço

Pragmata, lançado em 2026, é um jogo da Capcom que, embora não trate de uma paternidade biológica, explora as dinâmicas de cuidado e responsabilidade. O protagonista Hugh, um engenheiro espacial, deve proteger Diana, uma androide que representa uma forma de "filha" que depende dele para sua sobrevivência.
Mesmo sem o vínculo clássico de pai e filho, o jogo traz à tona os sentimentos de proteção e afeto, característicos dessa relação. Em um cenário distópico, Pragmata se junta a outros títulos dessa tendência, ao mostrar como as figuras paternas podem ser representadas de maneiras novas e emocionais, mesmo em contextos não convencionais.
O amadurecimento dos desenvolvedores e a evolução das histórias
O fenômeno dos "jogos de pai triste" não é apenas um reflexo das preocupações dos personagens, mas também do amadurecimento dos próprios desenvolvedores. Criadores como Neil Druckmann de The Last of Us e Cory Barlog de God of War já compartilharam que suas experiências pessoais como pais influenciaram diretamente suas obras. Druckmann, por exemplo, revelou que sua filha foi uma grande inspiração para a escrita de The Last of Us, e que seu próprio amor paternal ajudou a moldar a relação entre Joel e Ellie.
Além deles, Hideo Kojima, criador de Death Stranding, também usou suas próprias experiências familiares para construir narrativas complexas sobre pais e filhos. Em Death Stranding, o protagonista Sam se vê envolvido em uma relação peculiar com o BB (um "bebê" que funciona como um equipamento), refletindo o impacto emocional que a paternidade pode ter, até mesmo em situações tão inusitadas quanto um mundo pós-apocalíptico.
O apelo emocional e o perfil dos jogadores
A crescente popularidade desses jogos pode ser atribuída não apenas à profundidade emocional de suas histórias, mas também ao amadurecimento do público gamer. A geração que cresceu jogando está agora em estágios mais avançados da vida, com muitos se tornando pais.
Esses jogos, que abordam questões universais de paternidade, perda e redenção, ressoam com os jogadores de uma maneira mais íntima. A representação da figura paterna em jogos como The Last of Us e God of War oferece uma forma de explorar sentimentos e dilemas pessoais de forma interativa, criando uma experiência que vai além do entretenimento.
A paternidade nas telas: Uma nova era nos videogames?
Os "jogos de pai triste" representam uma mudança significativa no modo como as histórias são contadas nos videogames. Esses títulos exploram profundos laços familiares, apresentando os dilemas emocionais de personagens que buscam redenção e significado nas relações com seus filhos ou figuras similares.
Ao abordar temas como paternidade, perda e a busca por reconciliação, essas narrativas oferecem a nós, jogadores, uma chance de se conectar com emoções universais e pessoais.
Essa transformação é um reflexo do quanto os jogos podem ser um espaço para explorar o que nos torna humanos.









