Eleições

Lula lidera entre católicos, mas Flávio vence em Aparecida

Flávio Bolsonaro teve 58% dos votos na cidade da santa alvo de polêmica; entenda o que o resultado revela sobre o voto católico

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Maria Fernanda Barros
Flávio Bolsonaro segurando imagem de Nossa Senhora Aparecida | Reprodução

Flávio Bolsonaro segurando imagem de Nossa Senhora Aparecida | Reprodução

Católicos estão com Lula? Em Aparecida, cidade paulista considerada símbolo do catolicismo no Brasil por abrigar a imagem de Nossa Senhora Aparecida e o Santuário Nacional, a vitória foi de Flávio Bolsonaro (PL), que teve 58,3% dos votos, enquanto o petista conseguiu 32,12%.

Em setembro, o candidato do PL esteve envolvido em polêmica envolvendo a padroeira do Brasil, devido a um projeto de lei feito em 2007 por seu conselheiro político, Victório Galli, que propunha alterações relacionadas ao feriado e ao status da santa na cultura brasileira. O texto foi rejeitado e arquivado na Câmara dos Deputados no ano seguinte.

Uma pesquisa feita pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER) mostrou que, após a polêmica, o presidente subiu de 43% para 48% das intenções de voto no primeiro turno entre católicos em uma semana.

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Ainda assim, o bolsonarismo venceu na "capital da fé" — como a própria cidade se intitula — com um percentual ainda maior do que nas eleições de 2022, quando Jair Bolsonaro teve 55,51% dos votos. Para a antropóloga Lívia Reis Santos, coordenadora de Religião e Política no ISER, a vitória bolsonarista não significa necessariamente que a polêmica envolvendo a santa não influenciou no voto dos católicos, mas sim que existe uma diversidade dos catolicismos no Brasil.

A pesquisadora explica que, assim como a religião evangélica, a católica — que identifica mais da metade da população do país, de acordo com o Censo de 2022 do IBGE — não pode ser analisada como uma variável isolada. “Dentro do catolicismo vai ter preto, branco, amarelo. É a estratificação social brasileira toda representada dentro de um grupo religioso”, afirma.

Para auxiliar na compreensão do voto católico, Lívia fala em geopolítica católica, isto é, nos conflitos ideológicos dentro da própria religião, que implicam fatores geográficos, raciais e culturais.

Isso significa que diferentes ideologias políticas podem coexistir dentro do catolicismo, que vai desde a Renovação Carismática Católica (RCC), mais conservadora nos costumes e doutrinas — e que realiza diversos eventos sediados em Aparecida —, até a Teologia da Libertação, mais progressista e fortemente ligada a campos da esquerda brasileira, principalmente durante a Ditadura Militar (1964-1985).

No caso de Aparecida, assim como a grande parte dos municípios do interior paulista, a cidade historicamente vota em políticos de direita, mantendo forças conservadoras de forma ininterrupta desde 1982. Neste ano, Aparecida também elegeu Tarcísio de Freitas com 71,61% dos votos.

Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, em Aparecida | Reprodução
Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, em Aparecida | Reprodução

Católicos votam mais em Lula?

Embora exista essa demarcação política na Igreja Católica, o levantamento do ISER mostra que, no geral, os católicos estão mais próximos do presidente do que do senador. Lula lidera a preferência dos católicos, com 48% versus 29% de Flávio. Enquanto isso, evangélicos possuem mais chances de estarem alinhados ao bolsonarismo do que a outras religiões. 46% preferem o candidato do PL, contra 27% de Lula.

Mas quando são analisados apenas os católicos que se declaram praticantes, a popularidade do petista nessa religião diminui, aponta a antropóloga. “Católicos praticantes estão mais próximos de grupos de posicionamentos ideológicos e políticos de grupos evangélicos”.

Lívia cita o exemplo de Frei Gilson, sacerdote associado à RCC e líder do ministério Som do Monte, que acumula 13,6 milhões de seguidores no Instagram: “As falas dele sobre assuntos como papéis sociais de gênero são radicalizadas, e isso acaba aproximando mais os católicos do bolsonarismo”. A pesquisadora aponta as pautas envolvendo minorias sexuais como as principais responsáveis pela rejeição tanto de católicos praticantes quanto de evangélicos à esquerda.

Segundo ela, desde os anos 2010 está em curso um movimento encampado por lideranças religiosas de reação à ampliação dos direitos de minorias, obtidos no governo de Dilma Rousseff (2010-2016) com o Plano Nacional de Educação e o Plano Nacional de Direitos Humanos.

A antropóloga destaca o momento em que o deputado federal Marco Feliciano assumiu a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados, em 2013, o que acalorou o debate sobre gênero, sexualidade e direitos LGBTQIA+ no país, gerando reações conservadoras.

Disputas religiosas

Tal proximidade ideológica entre determinados nichos de ambas religiões não elimina as disputas culturais entre elas, ressalta a pesquisadora, e são a partir dessas tensões que irrompem projetos de lei polêmicos como aquele criado por Victório Galli.

Isso porque os evangélicos desejam ampliar o próprio espaço dentro do imaginário cultural brasileiro — hoje ainda predominantemente ocupado pela religião católica, que embrionou grande parte dos feriados nacionais e patrimônios culturais.

Lívia menciona que, só na legislatura atual, existem 257 projetos relacionados à temática de patrimônio, calendário oficial e heróis da nação, e 60 deles foram propostos por evangélicos. “Eles [os evangélicos] também querem se inserir nessa narrativa sobre o nacional. Desde que eles ingressaram na política, eles também disputam uma narrativa de nação”, diz.

Em agosto deste ano, Flávio Bolsonaro declarou que, caso eleito, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. A coordenadora do ISER explica que a fala pode ser relacionada com um acirramento dessas disputas, ainda mais se somada ao crescimento das religiões protestantes no Brasil nos últimos anos.

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