Tarifaço de Trump: "É preciso insistir no diálogo para encontrar saídas", alerta presidente da CNI
Confederação Nacional da Indústria reage com cautela a novas tarifas dos EUA e aposta no diálogo para seguir sem perder espaço no mercado norte-americano

Rafael Porfírio
No grande jogo do comércio internacional, cada país é uma peça no tabuleiro. Quando um parceiro de peso como os Estados Unidos (EUA) decide mexer uma peça importante - neste caso, subir a tarifa de importação em 10% sobre produtos brasileiros - todo mundo precisa parar e pensar na próxima jogada. Com esse espírito, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) reagiu ao anúncio do "tarifaço" imposto pelo governo norte-americano.
Melhor jogar com estratégia
Para o presidente da CNI, Ricardo Alban, o Brasil precisa agir com estratégia: observar o jogo, analisar os riscos e planejar o melhor movimento do tabuleiro econômico.
"Claro que nos preocupamos com qualquer medida que dificulte a entrada dos nossos produtos em um mercado tão importante quanto os EUA, o principal para as exportações da indústria brasileira. No entanto, precisamos fazer uma análise completa do ato. É preciso insistir e intensificar o diálogo para encontrar saídas que reduzam os eventuais impactos das medidas", avalia Ricardo Alban, presidente da CNI.
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Como é a partida com os EUA?
De acordo com a CNI, os Estados Unidos são os maiores compradores dos produtos da indústria brasileira de transformação. Os dados da confederação revelam que só em 2024, os americanos compraram mais de US$ 31 bilhões em mercadorias do Brasil.
E mais: a cada R$ 1 bilhão exportado para os EUA, o Brasil ganha em geração de empregos (24,3 mil), massa salarial (R$ 531,8 milhões) e produção (R$ 3,6 bilhões).
É como manter o rei bem protegido no centro do tabuleiro: perder essa posição pode colocar o Brasil em xeque.
Quais setores podem ser mais afetados?
Um levantamento da CNI destaca os produtos mais exportados pelo Brasil aos Estados Unidos. De 20 itens analisados, em 13 os EUA são os principais compradores.
Entre os produtos brasileiros mais impactados pelo tarifaço de Trump estão:
- Óleos brutos de petróleo
- Produtos de ferro e aço
- Café em grão
- Aviões de grande porte
- Máquinas pesadas (como bulldozers e carregadoras)
- Carne bovina congelada
- Madeira, óleos e preparações alimentícias
Esses produtos juntos representam uma parcela importante da balança comercial com os EUA.
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Como estão os demais jogadores na partida?
Apesar do aperto nos produtos brasileiros, tem país em situação ainda mais complicada: a China levou uma tarifa de 34%, o Japão de 24%, e a União Europeia, de 20%.
Para setores como aço, veículos e alumínio, a mordida foi ainda maior: 25% de imposto.
Ou seja, o jogo apertou para todos, mas o Brasil ainda tem espaço no tabuleiro, se fizer os movimentos certos.
Diálogo é a peça-chave do próximo lance
Para a CNI, o caminho agora é usar a diplomacia como peça estratégica para virar o jogo a favor do Brasil.
"Reiteramos a disposição da indústria de contribuir com as negociações com os parceiros americanos. A missão empresarial estratégica para os EUA tem justamente o objetivo de aprofundar o relacionamento e discutir caminhos para fortalecer a cooperação e o comércio entre o Brasil e os Estados Unidos", explica Ricardo Alban.
O superintendente de Relações Internacionais da CNI, Frederico Lamego, também anunciou o envio de uma missão com empresários e representantes do governo brasileiro aos EUA, com um objetivo claro: manter o canal aberto.
"O que nós queremos no final da história é uma agenda pró mercado. É uma agenda de abertura mútua de negócios que seja benéfica para todos os lados. Se esgotarem todas as possibilidades de se estabelecer qualquer tipo de acordo. A CNI vai se posicionar para tentar influenciar algum tipo de agenda compensatória", afirmou em entrevista ao SBT Brasil.
A relação entre Brasil e Estados Unidos é antiga e sólida, mas precisa ser cuidada com inteligência. Como em uma boa partida de xadrez, o segredo está em pensar antes de agir, saber recuar quando necessário e avançar no momento certo. Nem sempre o confronto direto vence o jogo. Às vezes, a conversa firme e bem calculada vira o placar a favor.