Durigan diz que tensão com os EUA deve passar após a eleição
Ministro da Fazenda afirma não ver ruptura estrutural na relação bilateral e e defende manutenção dos canais de comércio e cooperação institucional
Caio Barcellos
Ministro da Fazenda, Dario Durigan | Divulgação/Washington Costa/MF
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta segunda-feira (17) que vê como passageira a tensão entre Brasil e Estados Unidos e atribuiu o agravamento da relação à proximidade da eleição presidencial, em meio às diferenças ideológicas entre os governos de Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Acompanhe o SBT News nas TVs por assinatura Claro (586), Vivo (576), Sky (580) e Oi (175), via streaming pelo +SBT, Site e YouTube, além dos canais nas Smart TVs Samsung e LG.
Durante a 27ª Conferência Anual do Santander, em São Paulo, ele disse esperar que, depois do pleito em outubro, os dois países retomem com maior normalidade as relações comerciais e a cooperação entre órgãos dos governos.
“Não acho que isso seja estrutural. Nós vamos viver um momento aqui, por conta do período eleitoral e para ter alguma satisfação para a extrema direita que estão fazendo alguma coisa no Brasil. Mas não faz nenhum sentido”, afirmou.
A avaliação do ministro ocorre após uma sequência de embates comerciais e diplomáticos entre a Casa Branca e o Palácio do Planalto. Nas últimas semanas, o país norte-americano ampliou tarifas contra produtos brasileiros, revogaram o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, e aumentaram a pressão para que o governo brasileiro aceite Daniel Perez como novo embaixador americano no Brasil.
Durigan questionou as justificativas econômicas apresentadas por Washington para as medidas comerciais e disse que os argumentos usados pelos EUA contra a capacidade produtiva chinesa, por exemplo, não poderiam ser aplicados da mesma maneira ao Brasil.
“O Brasil é um país mais pobre dos EUA. A renda per capita é menor que a dos EUA. Exporta açúcar de laranja, café, carne e avião. Depois de comprar peça em sumo dos EUA, monta um avião e devolve pra lá. Nós estamos sendo punidos, a gente dá superávit para eles, nós fazemos o déficit. Não faz nenhum sentido”, pontuou
Tarifas
Em julho, o governo Trump adotou duas novas medidas com base na Seção 301 da legislação comercial americana.
A primeira impôs uma sobretaxa adicional de 25% a uma parcela dos produtos brasileiros, enquanto a segunda acrescentou 12,5% sobre determinados itens após uma investigação relacionada ao combate ao trabalho forçado nas cadeias globais. Nos produtos atingidos simultaneamente pelas duas medidas, a taxação adicional chega a 37,5%.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as duas medidas alcançam 23,1% das exportações brasileiras aos EUA quando considerado o comércio de 2024. No primeiro semestre deste ano, as vendas brasileiras ao mercado americano somaram US$ 17,4 bilhões, queda de 13% em relação ao mesmo período de 2025.
Brasil prepara possível resposta
A escalada comercial levou o governo brasileiro a iniciar, na quinta-feira (13), o processo previsto na Lei da Reciprocidade Econômica para avaliar uma eventual resposta às barreiras impostas por Washington. A abertura do procedimento não significa que o Brasil aplicará contramedidas, e a etapa atual prevê consultas com empresas e negociações diplomáticas com os EUA.
Na sexta-feira (14), Durigan havia afirmado que o governo trataria o processo com “muita cautela e muita responsabilidade” e ouviria empresas brasileiras e estrangeiras antes de decidir sobre qualquer reação. Segundo ele, eventuais medidas de reciprocidade “podem vir ou não a ser adotadas”.
A leitura apresentada pelo ministro nesta segunda-feira se aproxima da avaliação feita na semana passada pelo assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Celso Amorim. Em audiência na Câmara, Amorim afirmou que a pressão sobre o Brasil havia aumentado com a aproximação da eleição e relacionou esse movimento às diferenças políticas e ideológicas entre Lula e Trump.
Outro ponto de atrito está na indicação do novo embaixador americano. Trump escolheu o republicano Daniel Perez, aliado do secretário de Estado Marco Rubio, para representar os EUA em Brasília, mas o governo brasileiro ainda não concedeu o agrément, autorização necessária para que um embaixador estrangeiro assuma o posto. A Casa Branca anunciou publicamente a indicação antes de receber esse aval, procedimento que foi criticado pelo governo Lula.
Em resposta ao impasse, os EUA revogaram o visto de Maria Luiza Viotti. A diplomata não foi expulsa e continua reconhecida como representante brasileira em Washington, mas o Departamento de Estado afirmou que o documento poderá ser restabelecido se a questão envolvendo a indicação de Perez for resolvida.
Lula já afirmou que só pretende analisar o pedido de agrément depois da eleição de 4 de outubro e questionou a pressa da admnistração Trump para preencher o cargo às vésperas do pleito, depois de a embaixada americana permanecer por mais de um ano sem um titular.
Cooperação contra o crime
Apesar dos atritos, Durigan defendeu a preservação dos canais de cooperação entre os dois países, principalmente no combate ao crime organizado. Segundo ele, disputas políticas não deveriam prejudicar a troca de informações que já ocorre entre órgãos brasileiros e americanos.
“Espero que depois das eleições a gente retome o fluxo de comércio, o fluxo institucional, de inteligência, de colaboração da Receita, da Polícia Federal (PF)”, afirmou.
A área de segurança vinha sendo um dos pontos de aproximação entre os dois governos antes da escalada mais recente. Em julho, os EUA procuraram o Brasil para propor o aprofundamento da cooperação contra o narcotráfico e apontaram o país como possível parceiro estratégico no enfrentamento ao crime organizado transnacional.
Brasil e EUA também haviam firmado, em abril, um acordo técnico para ampliar a troca de informações em tempo real contra o tráfico internacional de armas e drogas.
A parceria passou, porém, a conviver com novas divergências depois que Washington enquadrou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, classificação rejeitada pelo governo brasileiro.
Amorim afirmou na semana passada que a medida não produziria ganhos concretos para a cooperação internacional e voltou a criticar o que considera uma tentativa americana de pressionar o Brasil perto da eleição.
Durigan defendeu que essas diferenças não interrompam uma relação que, segundo ele, deve recuperar espaço depois do pleito.
“Nós não temos também a opção de dizer que nós vamos fazer um alinhamento automático [...] seja porque a gente não quer ter uma dependência maior a um só país na Ásia, seja porque a gente não vai ficar abrindo e dizendo que nós vamos fazer tudo o que o país da América do Norte quer. Nós vamos achar o nosso caminho”, declarou.
Durigan diz que tensão com os EUA deve passar após a eleiçãoMinistro da Fazenda afirma não ver ruptura estrutural na relação bilateral e e defende manutenção dos canais de comércio e cooperação institucional
Economia2026-08-17T15:50:44.547ZO ministro da Fazenda, , afirmou nesta segunda-feira (17) que vê como passageira a tensão entre Brasil e Estados Unidos e atribuiu o agravamento da relação à proximidade da eleição presidencial, em meio às diferenças ideológicas entre os governos de Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Durante a 27ª Conferência Anual do Santander, em São Paulo, ele disse esperar que, depois do pleito em outubro, os dois países retomem com maior normalidade as relações comerciais e a cooperação entre órgãos dos governos. “Não acho que isso seja estrutural. Nós vamos viver um momento aqui, por conta do período eleitoral e para ter alguma satisfação para a extrema direita que estão fazendo alguma coisa no Brasil. Mas não faz nenhum sentido”, afirmou. A avaliação do ministro ocorre após uma sequência de embates comerciais e diplomáticos entre a Casa Branca e o Palácio do Planalto. Nas últimas semanas, o país norte-americano ampliou tarifas contra produtos brasileiros, revogaram o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, e aumentaram a pressão para que o governo brasileiro aceite Daniel Perez como novo embaixador americano no Brasil. Durigan questionou as justificativas econômicas apresentadas por Washington para as medidas comerciais e disse que os argumentos usados pelos EUA contra a capacidade produtiva chinesa, por exemplo, não poderiam ser aplicados da mesma maneira ao Brasil. “O Brasil é um país mais pobre dos EUA. A renda per capita é menor que a dos EUA. Exporta açúcar de laranja, café, carne e avião. Depois de comprar peça em sumo dos EUA, monta um avião e devolve pra lá. Nós estamos sendo punidos, a gente dá superávit para eles, nós fazemos o déficit. Não faz nenhum sentido”, pontuou Tarifas Em julho, o governo Trump adotou duas novas medidas com base na Seção 301 da legislação comercial americana. A primeira impôs uma sobretaxa adicional de 25% a uma parcela dos produtos brasileiros, enquanto a segunda acrescentou 12,5% sobre determinados itens após uma investigação relacionada ao combate ao trabalho forçado nas cadeias globais. Nos produtos atingidos simultaneamente pelas duas medidas, a taxação adicional chega a 37,5%. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as duas medidas alcançam 23,1% das exportações brasileiras aos EUA quando considerado o comércio de 2024. No primeiro semestre deste ano, as vendas brasileiras ao mercado americano somaram US$ 17,4 bilhões, queda de 13% em relação ao mesmo período de 2025. Brasil prepara possível resposta A escalada comercial levou o governo brasileiro a iniciar, na quinta-feira (13), o processo previsto na Lei da Reciprocidade Econômica para avaliar uma eventual resposta às barreiras impostas por Washington. A abertura do procedimento não significa que o Brasil aplicará contramedidas, e a etapa atual prevê consultas com empresas e negociações diplomáticas com os EUA. Na sexta-feira (14), Durigan havia afirmado que o governo trataria o processo com “muita cautela e muita responsabilidade” e ouviria empresas brasileiras e estrangeiras antes de decidir sobre qualquer reação. Segundo ele, eventuais medidas de reciprocidade “podem vir ou não a ser adotadas”. A leitura apresentada pelo ministro nesta segunda-feira se aproxima da avaliação feita na semana passada pelo assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Celso Amorim. Em audiência na Câmara, Amorim afirmou que a pressão sobre o Brasil havia aumentado com a aproximação da eleição e relacionou esse movimento às diferenças políticas e ideológicas entre Lula e Trump. Outro ponto de atrito está na indicação do novo embaixador americano. Trump escolheu o republicano Daniel Perez, aliado do secretário de Estado Marco Rubio, para representar os EUA em Brasília, mas o governo brasileiro ainda não concedeu o agrément, autorização necessária para que um embaixador estrangeiro assuma o posto. A Casa Branca anunciou publicamente a indicação antes de receber esse aval, procedimento que foi criticado pelo governo Lula. Em resposta ao impasse, os EUA revogaram o visto de Maria Luiza Viotti. A diplomata não foi expulsa e continua reconhecida como representante brasileira em Washington, mas o Departamento de Estado afirmou que o documento poderá ser restabelecido se a questão envolvendo a indicação de Perez for resolvida. Lula já afirmou que só pretende analisar o pedido de agrément depois da eleição de 4 de outubro e questionou a pressa da admnistração Trump para preencher o cargo às vésperas do pleito, depois de a embaixada americana permanecer por mais de um ano sem um titular. Cooperação contra o crime Apesar dos atritos, Durigan defendeu a preservação dos canais de cooperação entre os dois países, principalmente no combate ao crime organizado. Segundo ele, disputas políticas não deveriam prejudicar a troca de informações que já ocorre entre órgãos brasileiros e americanos. “Espero que depois das eleições a gente retome o fluxo de comércio, o fluxo institucional, de inteligência, de colaboração da Receita, da Polícia Federal (PF)”, afirmou. A área de segurança vinha sendo um dos pontos de aproximação entre os dois governos antes da escalada mais recente. Em julho, os EUA procuraram o Brasil para propor o aprofundamento da cooperação contra o narcotráfico e apontaram o país como possível parceiro estratégico no enfrentamento ao crime organizado transnacional. Brasil e EUA também haviam firmado, em abril, um acordo técnico para ampliar a troca de informações em tempo real contra o tráfico internacional de armas e drogas. A parceria passou, porém, a conviver com novas divergências depois que Washington enquadrou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, classificação rejeitada pelo governo brasileiro. Amorim afirmou na semana passada que a medida não produziria ganhos concretos para a cooperação internacional e voltou a criticar o que considera uma tentativa americana de pressionar o Brasil perto da eleição. Durigan defendeu que essas diferenças não interrompam uma relação que, segundo ele, deve recuperar espaço depois do pleito. “Nós não temos também a opção de dizer que nós vamos fazer um alinhamento automático [...] seja porque a gente não quer ter uma dependência maior a um só país na Ásia, seja porque a gente não vai ficar abrindo e dizendo que nós vamos fazer tudo o que o país da América do Norte quer. Nós vamos achar o nosso caminho”, declarou.São PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/economia/durigan-diz-que-tensao-com-os-eua-deve-passar-apos-a-eleicao
Galípolo: Pix virou 'patrimônio da sociedade brasileira'
Presidente do BC reage a questionamento sobre pressão dos EUA e afirma que bancos centrais estrangeiros procuram Brasil para discutir conexão entre sistemas