Comitê da autarquia aponta comprometimento recorde da renda das famílias e reforça preocupação apresentada por Galípolo em evento do setor bancário
Caio Barcellos
Presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, durante entrevista coletiva à imprensa na sede do banco, em Brasília | 26/03/2026/Reuters/Adriano Machado
O Banco Central (BC) informou nesta quarta-feira (2) que prepara medidas para reduzir os riscos provocados pela elevada participação de modalidades de crédito mais caras no endividamento das famílias, em um momento em que a parcela da renda destinada ao pagamento de dívidas atingiu o maior nível da série histórica.
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A iniciativa foi registrada na ata da 66ª reunião do Comitê de Estabilidade Financeira (Comef), realizada nos dias 25 e 26 de agosto, e reforça uma preocupação apresentada pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo, na semana passada, durante a Febraban Tech.
Dados divulgados pelo próprio BC na sexta-feira (28) mostram que o comprometimento da renda das famílias com o pagamento de dívidas subiu de 28,5% em maio para 28,9% em junho, maior percentual da série iniciada em março de 2011. O endividamento, que compara o estoque total das dívidas com a renda acumulada pelas famílias em 12 meses, ficou em 49,8%, apenas 0,1 ponto percentual abaixo do recorde histórico de 49,9%.
Na ata, o Comef afirma que esse quadro continua sendo influenciado pela participação relevante de modalidades mais onerosas na dívida das famílias. Além do comprometimento recorde da renda, o colegiado aponta níveis elevados de ativos problemáticos e de probabilidade de inadimplência e avalia que a materialização dos riscos no crédito a famílias e empresas deve permanecer alta.
“Esse quadro segue sendo influenciado pela participação relevante de modalidades de crédito mais onerosas na composição da dívida das famílias. Na visão do Comitê, o cenário requer cautela e diligência adicionais no mercado de crédito”, diz o documento.
As medidas em preparação devem buscar um reconhecimento mais rápido dos riscos pelas instituições financeiras, permitir o acúmulo gradual de capital para absorver possíveis perdas e criar condições consideradas mais sustentáveis para a concessão de crédito. A ata não detalha quais instrumentos serão adotados nem estabelece um calendário para sua implementação.
O movimento já havia sido antecipado por Galípolo em 24 de agosto, na abertura da Febraban Tech, em São Paulo. Na ocasião, o presidente do BC chamou atenção para o fato de que o endividamento e a inadimplência continuaram elevados apesar da melhora do mercado de trabalho e da renda.
“A pergunta é: por que é que, num cenário de renda crescente, desemprego caindo, a gente não viu essa renda ser revertida para reduzir esse tipo de endividamento?”, afirmou o presidente da autarquia na ocasião.
Galípolo afirmou ainda que o BC vinha estudando medidas macroprudenciais e experiências internacionais para enfrentar o problema gradualmente, com foco principalmente na relação entre o risco assumido pelas instituições e o custo cobrado dos clientes. Segundo ele, a intenção é evitar que o avanço observado nas modalidades de maior risco continue se acumulando.
Crédito sem garantia preocupa BC
Parte da preocupação está concentrada no crédito pessoal não consignado, modalidade em que as parcelas não são descontadas automaticamente do salário ou benefício do tomador e que, por isso, costuma ter juros mais altos.
Dados apresentados por Galípolo na Febraban Tech mostraram que o saldo dessa modalidade cresceu 188% entre março de 2020 e junho de 2026, de R$ 137,7 bilhões para R$ 397,2 bilhões. Em maio, cerca de R$ 275 bilhões, ou 68,7% da carteira, não tinham qualquer garantia, maior participação da série apresentada pelo BC.
A ausência de garantias também aparece diretamente no custo do empréstimo. Em junho, o crédito pessoal não consignado sem garantia tinha juros médios de 149,5% ao ano, enquanto operações da mesma categoria com algum tipo de garantia cobravam, em média, 27,5% ao ano.
Galípolo usou a diferença para argumentar que, além do nível da taxa básica de juros, o risco da operação e a existência de garantias têm peso importante sobre o custo final do crédito.
“A inclusão financeira é essencial, ela ocorreu, foi um movimento muito importante, agora é importante que a gente consiga ter o uso responsável dos serviços financeiros, que as pessoas possam conhecer melhor qual é o suitability, qual é a melhor linha adequada, como é que a gente usa de maneira adequada esses serviços que agora estão mais disponíveis”, declarou no evento do setor bancário.
Crédito desacelera, mas risco segue elevado
Apesar da preocupação, a ata mostra que o ritmo de expansão do crédito bancário começou a diminuir.
Entre as pessoas físicas, houve desaceleração justamente nas modalidades consideradas de maior risco, mas, segundo o Comef, a redução ainda não foi suficiente para diminuir a participação dessas operações no comprometimento da renda das famílias.
Já entre as empresas, o crédito também perdeu força, principalmente nas carteiras destinadas a micro, pequenas e médias companhias.
O diagnóstico coincide com os dados mais recentes do BC, segundo os quais a inadimplência das famílias chegou a 5,8% em julho, maior percentual da série histórica iniciada em 2011. Nas operações com recursos livres, em que bancos e clientes negociam as condições sem direcionamento obrigatório, os atrasos superiores a 90 dias chegaram a 7,8%.
Mesmo com o aumento dos riscos de calote, o Comef avalia que os bancos têm capital e dinheiro disponível suficientes para absorver eventuais perdas sem comprometer a estabilidade do sistema financeiro.
O comitê também afirma que, no conjunto, as reservas feitas pelas instituições para cobrir possíveis prejuízos estão em linha com o nível de perdas estimado pelo BC.
BC prepara medidas contra riscos do crédito caro Comitê da autarquia aponta comprometimento recorde da renda das famílias e reforça preocupação apresentada por Galípolo em evento do setor bancárioEconomia2026-09-02T14:52:02.644ZO Banco Central (BC) informou nesta quarta-feira (2) que prepara medidas para reduzir os riscos provocados pela elevada participação de modalidades de crédito mais caras no endividamento das famílias, em um momento em que a parcela da renda destinada ao pagamento de dívidas atingiu o maior nível da série histórica. A iniciativa foi registrada na ata da 66ª reunião do Comitê de Estabilidade Financeira (Comef), realizada nos dias 25 e 26 de agosto, e reforça uma preocupação apresentada pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo, na semana passada, durante a Febraban Tech. Dados divulgados pelo próprio BC na sexta-feira (28) mostram que o comprometimento da renda das famílias com o pagamento de dívidas subiu de 28,5% em maio para 28,9% em junho, maior percentual da série iniciada em março de 2011. O endividamento, que compara o estoque total das dívidas com a renda acumulada pelas famílias em 12 meses, ficou em 49,8%, apenas 0,1 ponto percentual abaixo do recorde histórico de 49,9%. Na ata, o Comef afirma que esse quadro continua sendo influenciado pela participação relevante de modalidades mais onerosas na dívida das famílias. Além do comprometimento recorde da renda, o colegiado aponta níveis elevados de ativos problemáticos e de probabilidade de inadimplência e avalia que a materialização dos riscos no crédito a famílias e empresas deve permanecer alta. “Esse quadro segue sendo influenciado pela participação relevante de modalidades de crédito mais onerosas na composição da dívida das famílias. Na visão do Comitê, o cenário requer cautela e diligência adicionais no mercado de crédito”, diz o documento. As medidas em preparação devem buscar um reconhecimento mais rápido dos riscos pelas instituições financeiras, permitir o acúmulo gradual de capital para absorver possíveis perdas e criar condições consideradas mais sustentáveis para a concessão de crédito. A ata não detalha quais instrumentos serão adotados nem estabelece um calendário para sua implementação. O movimento já havia sido antecipado por Galípolo em 24 de agosto, na abertura da Febraban Tech, em São Paulo. Na ocasião, o presidente do BC chamou atenção para o fato de que o endividamento e a inadimplência continuaram elevados apesar da melhora do mercado de trabalho e da renda. “A pergunta é: por que é que, num cenário de renda crescente, desemprego caindo, a gente não viu essa renda ser revertida para reduzir esse tipo de endividamento?”, afirmou o presidente da autarquia na ocasião. Galípolo afirmou ainda que o BC vinha estudando medidas macroprudenciais e experiências internacionais para enfrentar o problema gradualmente, com foco principalmente na relação entre o risco assumido pelas instituições e o custo cobrado dos clientes. Segundo ele, a intenção é evitar que o avanço observado nas modalidades de maior risco continue se acumulando. Crédito sem garantia preocupa BC Parte da preocupação está concentrada no crédito pessoal não consignado, modalidade em que as parcelas não são descontadas automaticamente do salário ou benefício do tomador e que, por isso, costuma ter juros mais altos. Dados apresentados por Galípolo na Febraban Tech mostraram que o saldo dessa modalidade cresceu 188% entre março de 2020 e junho de 2026, de R$ 137,7 bilhões para R$ 397,2 bilhões. Em maio, cerca de R$ 275 bilhões, ou 68,7% da carteira, não tinham qualquer garantia, maior participação da série apresentada pelo BC. A ausência de garantias também aparece diretamente no custo do empréstimo. Em junho, o crédito pessoal não consignado sem garantia tinha juros médios de 149,5% ao ano, enquanto operações da mesma categoria com algum tipo de garantia cobravam, em média, 27,5% ao ano. Galípolo usou a diferença para argumentar que, além do nível da taxa básica de juros, o risco da operação e a existência de garantias têm peso importante sobre o custo final do crédito. “A inclusão financeira é essencial, ela ocorreu, foi um movimento muito importante, agora é importante que a gente consiga ter o uso responsável dos serviços financeiros, que as pessoas possam conhecer melhor qual é o suitability, qual é a melhor linha adequada, como é que a gente usa de maneira adequada esses serviços que agora estão mais disponíveis”, declarou no evento do setor bancário. Crédito desacelera, mas risco segue elevado Apesar da preocupação, a ata mostra que o ritmo de expansão do crédito bancário começou a diminuir. Entre as pessoas físicas, houve desaceleração justamente nas modalidades consideradas de maior risco, mas, segundo o Comef, a redução ainda não foi suficiente para diminuir a participação dessas operações no comprometimento da renda das famílias. Já entre as empresas, o crédito também perdeu força, principalmente nas carteiras destinadas a micro, pequenas e médias companhias. O diagnóstico coincide com os dados mais recentes do BC, segundo os quais a inadimplência das famílias chegou a 5,8% em julho, maior percentual da série histórica iniciada em 2011. Nas operações com recursos livres, em que bancos e clientes negociam as condições sem direcionamento obrigatório, os atrasos superiores a 90 dias chegaram a 7,8%. Mesmo com o aumento dos riscos de calote, o Comef avalia que os bancos têm capital e dinheiro disponível suficientes para absorver eventuais perdas sem comprometer a estabilidade do sistema financeiro. O comitê também afirma que, no conjunto, as reservas feitas pelas instituições para cobrir possíveis prejuízos estão em linha com o nível de perdas estimado pelo BC.São PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/economia/bc-prepara-medidas-contra-riscos-do-credito-caro