Economia

A 16 dias do 2º turno, luz e alimentos pressionam Lula

Inflação de setembro foi a maior para o mês em ano eleitoral desde 1994; governo ampliou ações para reduzir gastos das famílias com contas

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Caio Barcellos
Alimentos em supermercado | Divulgação/Valter Campanato/Agência Brasil

Alimentos em supermercado | Divulgação/Valter Campanato/Agência Brasil

A 16 dias do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta uma nova pressão sobre o custo de vida, com destaque da energia elétrica, alimentos e combustíveis na alta de 0,82% da inflação em setembro.

A alta mensal do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi a maior registrada em um setembro de um ano de eleição presidencial desde 1994, quando o índice havia avançado 1,53%.

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Considerando todos os anos da série histórica, com ou sem eleições, a alta de 0,82% em setembro de 2026 foi a maior para o mês desde 2021, quando o IPCA avançou 1,16%.

Já no acumulado anual, o IPCA soma alta de 3,95% em 2026. Entre os últimos anos eleitorais, o acumulado de janeiro a setembro ficou abaixo de 2022 (4,09%) e 2014 (4,61%), mas acima de 2018 (3,34%) e 2010 (3,60%).

Em 12 meses, os 4,58% atuais também ficam bem abaixo dos 7,17% de setembro de 2022 e dos 6,75% de 2014, mas ligeiramente acima dos 4,53% de 2018 e próximos dos 4,70% de 2010.

Conta de luz é a principal vilã

Em setembro deste ano, todos os nove grupos pesquisados pelo IBGE tiveram alta. Habitação, Transportes e Alimentação e bebidas -justamente os três grupos maior peso no orçamento das famílias- responderam juntos por cerca de 86% da inflação do mês.

Os principais movimentos foram:

  • energia elétrica residencial: +7,98%, com impacto de 0,32 ponto percentual;
  • alimentação e bebidas: +0,83%, com impacto de 0,18 ponto;
  • combustíveis: +1,41%;
  • etanol: +3,16%;
  • óleo diesel: +1,69%;
  • gasolina: +1,21%.

A energia elétrica foi, sozinha, responsável por quase 40% do IPCA de setembro. O avanço de 7,98% ocorreu principalmente porque deixou de ser incorporado às contas o Bônus de Itaipu, que havia reduzido as faturas em agosto.

A bandeira tarifária amarela também continuou em vigor, com cobrança adicional de R$ 1,885 a cada 100 quilowatt-hora (kWh) consumidos -em outubro, a bandeira é verde, sem adicional.

No acumulado de 2026, a energia elétrica residencial está 6,50% mais cara. Em 12 meses, a alta é de 2,74%.

O avanço ocorre pouco mais de um ano depois de Lula lançar o Luz do Povo, voltado a reduzir a conta de energia de famílias de baixa renda. Desde julho de 2025, inscritos no Cadastro Único com renda per capita de até meio salário mínimo têm gratuidade sobre o consumo de até 80 kWh por mês -acima disso, pagam apenas o excedente.

Desde janeiro, o governo também oferece o Desconto Social a famílias do CadÚnico com renda entre meio e um salário mínimo por pessoa. O benefício isenta a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) sobre até 120 kWh mensais e reduz a tarifa em cerca de 12%, em média. Em fevereiro, mais de 4,1 milhões de famílias recebiam o desconto.

Comida volta a pesar

Os alimentos também voltaram a pressionar o orçamento das famílias, com alta de 0,83% do grupo Alimentação e bebidas após três meses seguidos de recuo.

O subgrupo alimentação dentro de casa subiu 0,96%, com alguns registrando aumentos bem acima da inflação média:

  • tomate: +37,76%;
  • batata-inglesa: +24,07%;
  • cebola: +10,14%;
  • arroz: +4,56%;
  • carnes: +0,63%

A alta ocorre em meio à preocupação com os efeitos do El Niño sobre a oferta de alimentos. O fenômeno climático altera o regime de chuvas e temperaturas, o que pode afetar safras, reduzir a oferta de alguns produtos e pressionar preços, especialmente de itens in natura (frescos).

Além disso, a pressão dos alimentos no mÊs de setembro não é inédita em períodos eleitorais. Em 2010, por exemplo, Alimentação e bebidas subiu 1,08% e respondeu por mais da metade do IPCA mensal. Já em 2014, o grupo avançou 0,78% e respondeu por cerca de um terço da inflação.

Combustíveis

Os combustíveis também voltaram a pressionar a inflação em setembro, com alta de 1,41%. O etanol subiu 3,16%, o óleo diesel, 1,69%, e a gasolina, 1,21%.

O movimento ocorreu apesar de uma série de subsídios para conter o repasse da alta internacional do petróleo, em meio ao prolongamento da guerra no Oriente Médio. Na rodada mais recente, o governo elevou a subvenção ao diesel para R$ 2,12 por litro e manteve o benefício mesmo após o fim da Medida Provisória (MP) que sustentava parte do subsídio.

O gás de cozinha também ficou mais caro, com alta de 0,57% em setembro depois de recuar 0,08% em agosto.

O governo buscou amortecer esse custo principalmente por meio do Gás do Povo, que garante a recarga gratuita do botijão de 13 kg para famílias de baixa renda. O programa alcança cerca de 15 milhões de famílias, aproximadamente 50 milhões de pessoas.

Cenário à frente

A inflação acumulada em 12 meses chegou a 4,58% em setembro e voltou a superar o teto de 4,5% da meta perseguida pelo Banco Central (BC).

Para analistas consultados pelo SBT News,o dado reforça a percepção de que a inflação pode continuar pressionada nos próximos meses, principalmente por alimentos e combustíveis.

Maykon Douglas, analista econômico da ZIIN Investimentos, avalia que a conta do supermercado deve seguir pressionando nos próximos meses em razão do El Niño, mas considera o petróleo o principal risco para a trajetória do IPCA.

Segundo ele, a continuidade das disrupções na oferta de derivados provocadas pela guerra no Oriente Médio pode afetar não apenas os preços dos combustíveis, mas também outros setores por meio do frete.

“Há uma grande disparidade de preços no Brasil em relação às cotações internacionais, e estes itens afetam não apenas os combustíveis em si, mas indiretamente outros segmentos devido aos preços de frete”, afirmou.

Douglas também chama atenção para a expectativa de retirada futura das subvenções aos combustíveis. Desde o início do conflito, segundo ele, a mediana das projeções de inflação para 2027 subiu pouco mais de 0,5 ponto percentual.

“[A trajetória mais favorável] da inflação parece ter ficado para trás, e o IPCA deve ficar acima do teto da meta de inflação nos próximos meses”, disse.

Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital, também vê um cenário mais delicado. Para ele, uma estabilização dos preços de alimentos e energia poderia aliviar a inflação e abrir espaço para novos cortes de juros, mas a manutenção das pressões atuais tende a dificultar esse movimento.

“Por enquanto, porém, a inflação está acima da meta, o que começa a dificultar esse movimento”, declarou.

Atualmente, a taxa básica de juros, a Selic, está em 13,75% ao ano. O BC promoveu cinco cortes consecutivos em 2026, todos de 0,25 ponto percentual, reduzindo a taxa em 1,25 ponto desde março. Mesmo assim, o Brasil segue como o país com os maiores juros reais (descontada a inflação) do mundo.

Pletes aponta ainda que a continuidade dos subsídios aos combustíveis será um dos principais pontos de atenção nos próximos meses, sobretudo enquanto o petróleo permanecer em níveis elevados.

“Caso as subvenções não sejam renovadas, entramos em um cenário mais complexo e adverso, que pode adicionar uma pressão relevante à inflação por meio dos combustíveis”, afirmou.

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