Brasil

Fernando Iggnácio: júri de ex-PMs ouve testemunhas do caso

Pedro e Otto D’Onofre são acusados de integrar o grupo que executou o contraventor em 2020; MP atribui o crime a uma disputa pelo jogo do bicho no Rio

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Liane Borges
17/07/2026, 03:34 • Atualizado em 17/07/2026, 03:34
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O Tribunal do Júri do Rio de Janeiro começou a ouvir nesta quinta-feira (16) as testemunhas do processo contra os ex-policiais militares Pedro Emanuel D’Onofre Andrade Silva Cordeiro e Otto Samuel D’Onofre Andrade Silva Cordeiro. Os irmãos são acusados de participar da execução do contraventor Fernando Iggnácio, morto a tiros de fuzil em novembro de 2020.

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Segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), os réus integravam o grupo contratado para executar Iggnácio a mando do contraventor Rogério Andrade. A acusação sustenta que o assassinato ocorreu em meio à disputa pelo controle do jogo do bicho e das máquinas caça-níqueis no estado.

O julgamento é conduzido por um conselho de sentença formado por sete jurados. Ao todo, estão previstas as oitivas de 18 testemunhas de acusação e seis indicadas pelas defesas.

Voo teria sido usado para planejar a emboscada

No início do julgamento, o delegado responsável pela investigação afirmou que Pedro Cordeiro participou de um voo panorâmico de helicóptero dias antes do assassinato.

Durante o passeio, segundo a acusação, o réu teria registrado imagens do pátio e do estacionamento do heliporto, além de um terreno baldio situado ao lado do local. Para os investigadores, as gravações foram utilizadas no planejamento da emboscada.

Fernando Iggnácio havia acabado de desembarcar de um helicóptero vindo de Angra dos Reis quando foi atacado. Ele seguia em direção ao estacionamento para buscar o carro quando foi atingido pelos disparos, no Recreio dos Bandeirantes, na zona sudoeste do Rio.

De acordo com a investigação, quatro homens registrados nas imagens participaram da ação. Além dos irmãos Pedro e Otto, foram denunciados Ygor Rodrigues Santos da Cruz, encontrado morto posteriormente, e o ex-PM Rodrigo Silva das Neves.

Outro ex-PM foi condenado a mais de 32 anos

Rodrigo Silva das Neves foi condenado em abril a 32 anos, nove meses e 18 dias de prisão pelo homicídio de Fernando Iggnácio. Os jurados reconheceram as qualificadoras de motivo torpe, emprego de meio cruel e emboscada.

Rogério Andrade, apontado pelos promotores como mandante do crime, está preso e aguarda julgamento no Presídio Federal de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul. A defesa dos envolvidos poderá contestar as acusações e as provas apresentadas durante o processo.

Relembre o caso

O contraventor Fernando Iggnácio, um dos herdeiros do também contraventor Castor de Andrade, foi morto em novembro de 2020, ao desembarcar de um helicóptero, no Recreio dos Bandeirantes, zona oeste do Rio.

Em outubro de 2024, o bicheiro Rogério de Andrade foi preso apontado como mandante do crime. Ele e Fernando Iggnácio eram, respectivamente, sobrinho e genro de Castor de Andrade e disputavam a herança dos negócios criminosos do "maior bicheiro do Brasil".

Castor de Andrade foi o maior "capo" do jogo do bicho carioca nos anos 70 e construiu um verdadeiro império criminoso na Zona Oeste, que envolvia, além de pontos de jogo do bicho, máquinas caça-níqueis, bingos e cassinos clandestinos.

O antigo patrono da Mocidade Independente de Padre Miguel morreu em 1997, vítima de um ataque cardíaco, e teve a herança dividida em três: além de Rogério, sobrinho e braço direito de Castor, foram beneficiados o filho Paulo Roberto de Andrade e Fernando Iggnácio.

Disputa pela herança da contravenção

Um ano depois, em 1998, Paulo Roberto foi morto a tiros quando saia de sua empresa, na Barra da Tijuca. Rogério chegou a ser denunciado como mandante da morte, mas acabou absolvido.

A disputa familiar pelos pontos de jogo de bicho e pelo controle das máquinas caça-níqueis com Fernando Iggnácio causou uma série de atentados e centenas de homicídios.

Em 2010, Rogério foi vítima de um atentado a bomba. Ele e o filho, Diogo, de 17 anos, estavam em um carro de luxo na Avenida das Américas, também na Zona Oeste, quando uma bomba explodiu o veículo. O adolescente morreu na hora, enquanto o bicheiro ficou ferido no rosto e precisou fazer uma cirurgia no nariz.

Fernando Iggnácio foi executado em novembro de 2020 | Reprodução
Fernando Iggnácio foi executado em novembro de 2020 | Reprodução

Carnaval carioca

Como o tio, Rogério nutria grande paixão pelo carnaval carioca. Aos 61 anos, ele ocupava a posição de presidente de honra da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel. Sua esposa, Fabíola de Andrade, é rainha de bateria da agremiação.

O bicheiro era figura frequente em ensaios e desfiles da Mocidade. No carnaval de 2024, internautas especularam se Rogério desfilou vestido como o mascote da escola de samba, um Castor. Na época, ele cumpria prisão domiciliar, usava tornozeleira eletrônica e estava proibido de sair à noite.

As interações do mascote, que passou todo o desfile ao lado de Fabíola, geraram suspeitas na web. Veja abaixo:

Operações policiais

Em agosto de 2022, Rogério de Andrade foi preso pela Operação Calígula, apontado como líder de uma organização criminosa, integrada pelo filho Gustavo de Andrade, pelo ex-PM Ronnie Lessa, e de mais dois delegados suspeitos de facilitar as ações do grupo.

Andrade e o filho exerciam o comando do grupo criminoso realizando reuniões pessoais para a expansão de seus territórios de domínio. Eles também gerenciavam as atividades de casas de apostas. Isso permitiu aos acusados planejar a implementação de jogos de carta no bingo do quebra-mar, na Zona Oeste do Rio. Documentos apreendidos na operação revelaram, segundo o MP, o pagamento de propina a delegacias especializadas da Polícia Civil do Rio.

O bicheiro conseguiu o direito de prisão domiciliar, com o uso de tornozeleira eletrônica, mas em abril de 2024 o ministro Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que ele não precisava mais utilizar o equipamento ou fazer recolhimento noturno.

Rogério de Andrade foi levado à Cidade da Polícia nesta terça-feira (29) | Reprodução
Rogério de Andrade foi levado à Cidade da Polícia nesta terça-feira (29) | Reprodução

Em março deste ano, 20 policiais militares suspeitos de ligação com o contraventor foram detidos. Os agentes são apontados como seguranças de Andrade.

Há 20 dias, ele e o presidente da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel, Flávio da Silva Santos, foram alvos de mandados de busca e apreensão em uma operação da Polícia Civil e do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), por ligação com o assassinato de Fábio Romualdo Mendes em disputa pela exploração do jogo do bicho.

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