Brasil

Carnaval ou segregação? Onde a "festa da mistura" expõe o abismo social do Brasil

Enquanto influenciadores celebram recepções de luxo, "engrenagem" do Carnaval sofre com hostilidade e divisão de cores nos camarotes de Salvador e São Paulo

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Camarote em Salvador | Reprodução/Redes sociais

O Carnaval brasileiro é vendido para o mundo como o ápice da pluralidade e da democracia cultural. No entanto, para quem observa de perto ou tenta atravessar as barreiras invisíveis dos espaços VIPs, a realidade é um choque. O que deveria ser celebração coletiva tem se transformado em um cenário de exposição crua da desigualdade social e do racismo estrutural.

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O "muro" da Faria Lima em São Paulo

A mentalidade de privatizar a alegria não é exclusividade dos grandes circuitos baianos. Em São Paulo, a imobiliária Housi foi recentemente multada em R$ 12,8 mil por instalar um camarote irregular na calçada da Avenida Brigadeiro Faria Lima. Sem autorização da prefeitura, a empresa e seu CEO, Alexandre Frankel, tentaram tomar o espaço público para criar uma área exclusiva durante a passagem de um bloco.

A gestão municipal foi enfática ao barrar a estrutura, reforçando que a ocupação do solo deve seguir as regras coletivas.

"A calçada é do povo e não de empresas que insistem em segregar a folia em locais proibidos", afirmou a prefeitura em nota.

Salvador e a bolha dos privilégios

No circuito Barra Ondina, em Salvador, o Camarote Salvador expõe um abismo que remete ao Brasil colonial. De um lado, ingressos que chegam a custar R$ 4 mil por dia garantem o acesso de um público majoritariamente branco e celebridades como Marina Ruy Barbosa e a influenciadora Jade Picon, que circulam como convidadas de grandes marcas.

Marina Ruy Barbosa e Jade Picon em camarotes no Carnaval de Salvador | Reprodução/Redes sociais
Marina Ruy Barbosa e Jade Picon em camarotes no Carnaval de Salvador | Reprodução/Redes sociais

Do outro lado da estrutura, a força de trabalho que faz a engrenagem girar, atendentes, seguranças, copeiros e serviços de limpeza, é composta quase inteiramente por pessoas negras. Para o sócio do empreendimento, Paulo Góes, a proposta é focada na experiência do cliente:

"Nossa proposta é promover a melhor história da vida de alguém", afirma o empresário.

Entretanto, para os "invisíveis" que não detêm milhões de seguidores, a realidade é marcada por uma recepção muitas vezes hostil e um monitoramento excessivo. Nas redes sociais, o desabafo de foliões comuns é recorrente:

"O Camarote Salvador é um antro de famosos, eu me sinto um ninguém lá, parece que é feito só para eles", relatou um usuário em uma plataforma digital.

O preço da exclusão

Enquanto influenciadores como Álvaro celebram recepções de luxo e patrocínios de marcas de cerveja, o cidadão comum enfrenta o "aperto" da corda. O acesso ao bloco de artistas populares, como Ivete Sangalo, pode custar o equivalente a um salário mínimo, criando um filtro financeiro que afasta a base popular da festa que ela mesma criou.

Influenciador Álvaro celebra nas redes sociais a ida a um camarote durante Carnaval | Reprodução/Redes sociais
Influenciador Álvaro celebra nas redes sociais a ida a um camarote durante Carnaval | Reprodução/Redes sociais

Embora o evento gere empregos e movimente a economia local, fica o questionamento sobre a falta de incentivos para que a população trabalhadora possa viver a experiência da festa, e não apenas servi-la.

O Carnaval é, por essência, rua e gente. Quando a estrutura foca apenas em privilegiar quem gera engajamento digital e ignora a dignidade de quem não tem fama ou grandes quantias na conta bancária, a festa corre o risco de perder sua alma. No fim das contas, a verdadeira essência da folia talvez ainda resista apenas no asfalto, onde, no meio do povo, ninguém deveria precisar provar seu valor para poder dançar.

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