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Meu pequeno grande medo

"Ver crianças tendo contato com armas reais me assusta mais do que a própria violência"

Meu pequeno grande medo
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A infância deve ser protegida com acolhimento, afeto e amor  | Ron Lach/Pexels

Uma vila. Uma piscina. Uma rede montada no meio da rua. Todas as férias da minha infância eram assim. Brincadeira na casa das tias. Viagem de carro para praia.

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Passeio de bicicleta. Sol de rachar a cabeça. Perto de completar 13 anos, sai da piscina com um sangue escorrendo entre as pernas.

"Ela virou moça", minha mãe disse.

No fim do dia, papai chegou com uma caixa de bombons garoto e uma rosa.

"Para minha mocinha-mulher".

Me abraçou e me convidou para sentar à mesa. Em um papel, desenhou um círculo com alguns pontinhos pretos dentro.

"É seu útero, que agora está preparado para receber outra vida".

Ele me contou que todos os meses meu corpo iria "descamar", já que precisava renovar aquele "adubo". Minha plantinha interna já era fértil. E foi assim que floresci.

"Não entendiamos algumas cobranças. Queríamos voltar no tempo" | Pengwhan/Pexels

Na semana do Dia das Crianças, lembrei dessa e de outras histórias. De como também foi difícil crescer. Um dia, eu e minha melhor amiga da escola, choramos embaixo do pé de uma árvore, no horário da saída da aula.

Estávamos na sétima série. Não entendíamos algumas cobranças. Queríamos voltar no tempo. Não dava mais.

Esse universo da primeira infância me parecia mais protegido do que nos dias de hoje.

Não me lembro de sentir medo da violência. Não me lembro de ter escutado algum amiguinho dizer que o pai tinha uma arma. Não me lembro nem de ter tido vontade de um dia tocar em uma. Arma só se via em filme ou em desenho animado violento.

Em atividade do Dia das Crianças, crianças brincam com fuzil de mentira | Primeiro Impacto/SBT

Meu pai não gostava nem das armas de brinquedo. Jogava fora.

"A nossa maior defesa vem de dentro e da palavra", ele dizia.

E foi assim floresci. Com amor. Ver crianças tendo contato com armas reais me assusta mais do que a própria violência. O gatilho é mais profundo.

É como se plantássemos nelas uma semente de ignorância. Cortamos raízes puras em troca de uma falsa sensação de justiça. Isso não é adubo, é pesticida. A colheita será implacável.

Deem armas para quem precisa delas. Nossas crianças precisam de nós. Sãos e salvos das nossas próprias pestes.

Do nosso próprio ódio. E do nosso pequeno grande medo de apertar o gatilho na direção errada.

PRIMEIRO IMPACTO: Armas e crianças: eventos em MG e RJ geram protestos e repúdio

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