MST teme impacto do Acordo UE-Mercosul sobre produtores de leite e queijo; entenda cenário
Ao SBT News, João Pedro Stédile diz que vigência do livre comércio gera insegurança para agricultores familiares em Minas e no sul do país


Victor Schneider
O líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile, vê com preocupação o impacto do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia sobre produtores da agricultura familiar. Os termos provisórios do tratado entraram em vigor na sexta-feira (1º).
Ao SBT News, Stédile diz que o baque será mais duro para pequenos produtores de laticínios no Sul e em Minas Gerais, dois polos centrais do mercado nacional de queijos e derivados e que já renderam ao país prêmios de referência internacional. Para Stédile, pequenas cooperativas estão sujeitas a ter prejuízo no médio e longo prazo, conforme os gatilhos do acordo forem destravados.
“A agricultura familiar será gravemente atingida pela importação dos laticínios, que já vinha sendo praticada via Uruguai com preços de dumping. Isso vai afetar o leite em pó, o leite reconvertido, os queijos. Imagine que o acordo proíbe os produtores brasileiros de continuar usando o nome de queijo parmesão. Parmesão será apenas o importado de Parma, na Itália. Pode?", criticou.
O MST foi uma das principais vozes internas no país a resistir ao acordo pelo entendimento de que os benefícios do livre comércio estarão restritos à redução das taxas de exportação para o agronegócio de larga escala, enquanto o cenário do mercado interno será de competição desleal de pequenos produtores contra uma “inundação” de marcas estrangeiras.
“O agronegócio brasileiro se beneficiará naquilo que vai reduzir taxas das atuais exportações e por isso vai se transformar em renda agrícola. Porém, como a maior parte do comércio das commodities é controlado por 5 empresas transnacionais, essa renda vai beneficiar a elas e não necessariamente ao fazendeiro do agronegócio, que continuará recebendo o preço do mercado mundial", disse Stédile.
O SBT News detalha abaixo os principais pontos do acordo para o mercado de laticínios do país:
Como ficam as nomenclaturas
O uso de termos como parmesão (do original parmigiano reggiano), gorgonzola, grana padano, fontina e gruyère, na realidade, não está completamente vetado. O Brasil conseguiu permissão para que a Indicação Geográfica – o dispositivo de propriedade intelectual que valida a nomenclatura de produtos para uma região específica – fosse flexibilizado, dado o uso comum dentro do país.
Assim, fabricantes que comercializavam continuamente essas mercadorias até a data de corte (outubro de 2012 ou de 2017, a depender do produto) seguem autorizadas a chamar seus queijos pelo nome tradicional, com especificações na rotulagem. Já outros, como o queijo grego feta e os franceses roquefort e comté, terão que ser renomeados nas prateleiras.

Especialização gera concentração fundiária
Na avaliação de Glauco Carvalho, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o cenário prévio ao acordo já pressionava o mercado global a aprofundar a especialização da produção leiteira. Isso envolve etapas como pasteurização, salga, maturação e prensagem, além de observância a normas sanitárias de padrão internacional.
Conforme Carvalho, esse movimento tem forçado o encerramento de fazendas com baixa produtividade. O último Censo Agropecuário, publicado em 2017, calculava em torno de 634 mil produtores de leite ativos no Brasil – hoje, esse número é estimado em 500 mil. Nos últimos 20 anos, segundo o especialista, os EUA passaram de 83 mil fazendas para 24 mil; a Argentina, de 15 mil para 9 mil; já a Europa tem cerca de 25% dos produtores de leite que registrava no início deste século.
“Essa questão de reduzir o número de fazendas e aumentar o tamanho delas é uma tendência no mundo todo que vem ocorrendo justamente nessa esteira de ganho de competitividade, de necessidade de economia de escala, de baixar custo, de investir em tecnologia. É um processo já em andamento e que dificilmente pára, porque as exigências vão sendo cada vez maiores", afirmou.

Mercosul inunda mercado
Como explica Carvalho, a crise de desabastecimento de leite em 2022 forçou o governo brasileiro a dobrar importações da Argentina e Uruguai, sobretudo em leite em pó e mussarela. Mas mesmo depois que o cenário interno se estabilizou, o novo padrão se disseminou e criou um impasse interno.
A Confederação Nacional de Agricultura (CNA) pressionou o Ministério da Agricultura a proibir essas importações sob a alegação de dumping predatório, enquanto Argentina e Uruguai diziam estar em conformidade com o livre comércio no Mercosul.
Mesmo com restrições para proteger o mercado interno, a prática acabou adotada direto na ponta. “Os laticínios estavam importando também, mas ao não importar, os próprios varejistas e traders começaram a importar. Então o volume de importação seguiu alto porque a turma aprendeu a fazer importação”, disse o pesquisador.
Cotas no UE-Mercosul
Dado o aumento da competição que já vinha em curso com os vizinhos, o setor de laticínios se movimentou para ser um dos mais blindados pelo acordo. O leite em pó, por exemplo, terá uma cota máxima de importação de 10 mil toneladas e que só valerá em 2036, com redução gradual da tarifa ano a ano e começando em mil toneladas. Hoje, a média de importação mensal de leite em pó é de 10 mil a 15 mil toneladas.
Para Carvalho, esses volumes indicam que a importação de laticínios continuará majoritariamente vindo de Argentina e Uruguai pelos próximos anos. “Perto do que a gente já importa, eu vejo como muito pouco relevante [o efeito do acordo]. E obviamente, o leite em pó da Europa é mais caro do que o da Argentina. Então se a gente for importar, vai continuar importando da Argentina, que exporta 20 a 30% da produção deles.”
Já no caso dos queijos, a cota máxima de 30 mil toneladas deve pressionar sobretudo os produtores de maturados mais finos, segundo o especialista. A mussarela ficou de fora, assim como o creme de leite e o leite condensado. “Pode trazer um impacto para alguma empresa específica, mas não um impacto setorial relevante. E, obviamente, para o consumidor é ótimo, porque ele vai ter acesso a mais produtos.”

Oportunidade internacional
No saldo final, a avaliação de Glauco Carvalho é que o acordo traz sobretudo uma oportunidade para o Brasil acelerar sua integração produtiva e ampliar a eficiência de fazendas. Assim como haverá a entrada de artigos europeus, produtos patenteados do setor nacional, como o Queijo da Serra da Canastra, ganharão espaço nas prateleiras dos 27 países da UE.
“O acordo vai exigir melhorias no profissionalismo, em aspectos sanitários, no manejo e bem-estar animal, uma série de coisas que estão em vigor e que são muitas vezes exigidas e colocadas na pauta pela União Europeia, inclusive questão de pegada de carbono, e que também são tendências globais. Isso acaba dando um empurrão para o Brasil caminhar nesse sentido.”









