"Cartões amarelos": chefe da FAB relata pressão de Bolsonaro
Em livro, ex-comandante da Aeronáutica conta detalhes das reuniões golpistas com Bolsonaro no Palácio da Alvorada

Nos estertores de seu governo, o ex-presidente Jair Bolsonaro se dirigiu ao comandante da Aeronáutica, Baptista Junior, para fazer pressão.
"BJ, eu já te dei dois cartões amarelos", disse o então presidente, segundo o chefe militar, em novembro de 2022.
📲 Receba as principais notícias do Brasil e do mundo no seu WhatsApp! Clique aqui e siga o canal do SBT News.
A frase foi pronunciada em meio às investidas golpistas de Bolsonaro e seus auxiliares. O Palácio da Alvorada era o local de discussões sobre planos para reverter o resultado eleitoral.
"Pelo contexto em que foi pronunciada, interpretei como uma tentativa clara de pressão sobre minha postura nas discussões que vinham ocorrendo", diz Baptista Junior.
O relato está detalhado no livro "Eu Disse Não", escrito por Carlos Baptista Junior e que será lançado em setembro pela Autêntica Editora. Um exemplar da publicação foi enviado ao SBT News.
Os dois "cartões amarelos", segundo Baptista Junior, seria uma referência a duas entrevistas concedidas pelo chefe militar em que deixava claro que o presidente eleito assumiria a função, sem oposição das Forças Armadas.
"Em Brasília, os recados chegam sempre de forma indireta, e eu já havia sido informado da contrariedade do presidente com minhas afirmações públicas sobre o tema", diz o brigadeiro.
No livro, Baptista Junior conta como ele e o então chefe do Exército, Freire Gomes, acertaram uma estratégia para ganhar tempo diante das sugestões golpistas feitas por Bolsonaro e aliados.
A abordagem tinha, de fundo, o conceito militar de defesa elástica, cujo objetivo é trocar espaço por tempo. Ele diz que os chefes militares aceitavam participar de reuniões exaustivas e ouvir teses golpistas para retardar os movimentos de ruptura até o dia 1º de janeiro de 2023.
"Na linguagem mais coloquial utilizada no Exército, essa expressão ganha um significado prático: aguardar que o problema se resolva com o tempo. Trata-se da arte de não se precipitar, permitindo que o decurso das horas reduza a intensidade das emoções e torne evidente a inviabilidade de certas ideias", escreve Baptista Junior.
O chefe da Aeronáutica também conta, com novos detalhes, o descompasso que havia entre o grupo legalista e o comandante da Marinha, Almir Garnier Santos.
Ele relata que Garnier tentava atrair o Exército para os planos golpistas "partindo do princípio de que as Forças Armadas não precisariam de unanimidade, mas de maioria".
"Em uma dessas oportunidades, demonstrei profunda irritação diante do que passei a interpretar como uma deslealdade à FAB. Garnier chegou a afirmar, de forma explícita, que precisava do Exército, pois não teria condições de sustentar uma ruptura institucional apenas com o efetivo aproximado de 14 mil fuzileiros navais sob seu comando. A FAB, segundo ele, seria dispensável por 'não ter tropas'."
Baptista Junior e Freire Gomes foram considerados as duas principais testemunhas de acusação contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Os dois relataram ao STF e à Polícia Federal as reuniões em que se discutia uma ruptura institucional para evitar a posse de Lula à Presidência da República.

























