Carros elétricos: reciclagem vira fonte de minerais críticos
Ministério do Meio Ambiente publicará decreto com responsabilidades de montadoras no descarte de baterias dos veículos eletrificados

Carro elétrico | Foto: Nelson Oliveira/Agência Senado
O governo federal deve publicar até o fim do ano um decreto estabelecendo regras para descarte e reciclagem de baterias de carros elétricos. O documento vai definir a responsabilidade de montadoras e distribuidoras depois do fim da vida útil das peças. A estimativa do Ministério do Meio Ambiente é de que, nos próximos dez anos, cerca de 500 mil baterias de veículos eletrificados estejam inutilizadas.
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Pesquisadores e empresários já enfrentam o desafio de reaproveitamento do material. A Universidade Estadual Paulista (Unesp), em parceria com uma empresa privada, desenvolveu um processo que extrai componentes das baterias e dá novo destino a eles. São materiais hoje cobiçados por países no mundo todo, como lítio e cobalto.
“O reparo, o reuso, são realidades de uma bateria de veículo elétrico. A bateria não é um problema, ela é uma oportunidade da transição energética. É uma oportunidade de reter no Brasil os metais críticos para a transição energética. Eu posso recarregar o meu carro com energia solar, eu rodo com essa bateria, no fim da vida, ela pode ser reparada, reutilizada ou reciclada. No Brasil, ninguém produz cobalto e nós podemos produzir cobalto. Níquel é a mesma coisa, o lítio é a mesma coisa”, disse o presidente da Energy Source, David Noronha.
O aproveitamento da energia de forma sustentável já é uma realidade na vida do juiz de paz Wagner Almeida. Há cerca de dois anos, a família instalou placas fotovoltaicas para reduzir os gastos com energia em casa.
No início do ano, Wagner também decidiu investir em um carro híbrido, instalou um ponto de abastecimento na própria garagem e utiliza a mesma rede elétrica para consumo residencial e para encher o tanque.
“Nós gastávamos cerca de R$700 reais por mês, o consumo baixou para R$140. Trouxemos o carro e não alterou no consumo. A gente só pegou a rede de energia que já passava na parede e colocamos um novo quadro de energia”, contou Wagner.
Na fábrica do David, a extração dos minerais críticos de diferentes produtos eletrônicos, como celulares e computadores, ocorre desde 2021. Segundo ele, 97% dos minerais críticos que já estavam nas baterias podem ser reutilizados.
A retirada deles ocorre por meio de duas fases de filtragem: a primeira é uma separação física, que produz a chamada “black mass”, ou massa preta, um material líquido presente nos itens; a segunda é um processo químico que separa os componentes minerais.
“Começamos desenvolvendo o primeiro estágio da reciclagem que a gente chama de black mass, uma cesta de metais, tudo misturado. Isso já é um produto, a China classificou como de interesse nacional. No segundo estágio, chamamos de hidrometalurgia, um processo químico. Esses metais são dissolvidos e passam por subprocessos de separação”, explica Noronha.
A maior parte desse material só é aproveitado no Brasil em forma de fertilizante para a agricultura, a exemplo do cobalto. O país ainda não tem uma indústria especializada na fabricação de novas células de baterias e, portanto, não pode reaproveitar minerais como lítio. Hoje, essa parcela do material extraído de baterias é destinada à exportação.
A Política Nacional de Resíduos Sólidos, lei de 2010, proíbe o descarte irregular de baterias de eletrônicos. Mesmo assim, diante de uma frota de mais de seis mil veículos eletrificados no país, o governo Lula avalia a necessidade de um novo decreto estabelecendo responsabilidades e obrigações de montadoras e distribuidoras. A medida é para estruturar um caminho sustentável de descarte e reciclagem das baterias, a chamada logística reversa.
“O decreto traz a responsabilidade compartilhada entre fabricantes, entre importadores, distribuidores dos comerciantes, dos veículos, dos carros elétricos, das baterias de veículo elétrico, para que consiga ter uma cadeia comum estruturada para coletar e destinar para um local adequado essas baterias”, afirmou Eduardo Rocha, diretor de Gestão de Resíduos Sólidos do Ministério do Meio Ambiente.
A Green Eletron, associação de logística reversa de eletroeletrônicos, aponta que a política de reuso do material das baterias de carros e motos elétricas será mais complexa, mas necessária.
“O sistema de logística reversa é algo extremamente caro. Você criar esses pontos, você coletar em todos esses pontos, transportar até o reciclador. É preciso saber o tamanho que a gente vai ter que implantar para a gente poder mensurar esses custos todos e, claro, otimizar o máximo possível para que não tenha grandes impactos, senão esses custos voltam para o preço do produto”, disse o gerente-executivo da associação, Ademir Brescansin

























