Neste mês de conscientização sobre o glaucoma, é comum direcionarmos a atenção ao paciente já diagnosticado. No entanto, há um grupo que ainda recebe pouca atenção nas campanhas e que, do ponto de vista científico, deveria ser prioridade: os familiares.
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O glaucoma é uma neuropatia óptica progressiva e silenciosa, responsável por uma das principais causas de cegueira irreversível no mundo. O grande desafio permanece o mesmo: diagnosticar precocemente uma doença que, muitas vezes, não apresenta sintomas nas fases iniciais.
Mas a ciência tem sido clara em um ponto: o risco de glaucoma não é distribuído de forma aleatória na população.
Estudos epidemiológicos robustos, como o Baltimore Eye Survey, e análises mais recentes publicadas em revistas como Ophthalmology e The Lancet Global Health demonstram que indivíduos com parentes de primeiro grau com glaucoma apresentam um risco de 4 a 9 vezes maior de desenvolver a doença.
Além disso:
· Cerca de 20% a 30% dos pacientes com glaucoma relatam histórico familiar positivo.
· Em algumas populações, esse número pode ser ainda maior.
· Casos de cegueira na família sugerem formas mais agressivas ou diagnóstico tardio.
Mais recentemente, estudos genéticos de larga escala, incluindo GWAS (genome-wide association studies), identificaram múltiplos loci associados ao glaucoma, como variantes nos genes MYOC, OPTN e TBK1, além de regiões relacionadas à pressão intraocular e à estrutura do nervo óptico.
O ponto central é: o glaucoma não é uma doença de um único gene, mas sim uma condição multifatorial, em que fatores genéticos e ambientais interagem.
Isso significa que, dentro de uma mesma família, pode haver:
O problema não é apenas o risco, é a falta de percepção dele.
Mesmo com evidências consistentes, muitos familiares de pacientes com glaucoma não se reconhecem como grupo de risco.
Diferentemente de outras doenças crônicas, como diabetes ou hipertensão, o glaucoma ainda não é amplamente compreendido como uma condição com componente familiar relevante.
E isso impacta diretamente o diagnóstico.
Estudos mostram que uma parcela significativa dos pacientes com glaucoma descobre a doença em estágios já avançados, quando a perda visual é irreversível e, frequentemente, esses pacientes tinham histórico familiar não investigado.
Se queremos reduzir a cegueira por glaucoma, precisamos ir além do diagnóstico individual.
Precisamos rastrear famílias, e isso talvez nos possibilite chegar ao diagnóstico mais precoce.
Orientar familiares de primeiro grau, incentivar exames periódicos e aumentar a conscientização sobre o risco hereditário pode ser uma das estratégias mais eficazes de prevenção.
Principalmente em famílias com histórico de cegueira, em que a carga genética e o impacto da doença já são evidentes.
Conclusão:
O glaucoma é silencioso, mas, dentro da família, ele raramente é isolado.
Reconhecer esse padrão e direcionar campanhas para quem ainda não sabe que está em risco pode representar uma mudança real na prevenção da cegueira.
Neste Maio Verde, talvez o convite mais importante não seja apenas para quem tem glaucoma.
Mas para quem pode vir a ter e ainda não sabe.
** Regina Cele Silveira Seixas é oftalmologista especializada em glaucoma e catarata
Você tem caso de glaucoma na família? Fique atento aos sinaisFamiliares de pacientes com a doença precisam entrar no foco da prevenção para evitar perdas visuais irreversíveis
Saúde2026-05-11T13:06:01.680ZNeste mês de conscientização sobre o glaucoma, é comum direcionarmos a atenção ao paciente já diagnosticado. No entanto, há um grupo que ainda recebe pouca atenção nas campanhas e que, do ponto de vista científico, deveria ser prioridade: os familiares. Por que o risco não é igual para todo mundo O glaucoma é uma neuropatia óptica progressiva e silenciosa, responsável por uma das principais causas de cegueira irreversível no mundo. O grande desafio permanece o mesmo: diagnosticar precocemente uma doença que, muitas vezes, não apresenta sintomas nas fases iniciais. Mas a ciência tem sido clara em um ponto: o risco de glaucoma não é distribuído de forma aleatória na população. Estudos epidemiológicos robustos, como o Baltimore Eye Survey, e análises mais recentes publicadas em revistas como Ophthalmology e The Lancet Global Health demonstram que indivíduos com parentes de primeiro grau com glaucoma apresentam um risco de 4 a 9 vezes maior de desenvolver a doença. Além disso: · Cerca de 20% a 30% dos pacientes com glaucoma relatam histórico familiar positivo. · Em algumas populações, esse número pode ser ainda maior. · Casos de cegueira na família sugerem formas mais agressivas ou diagnóstico tardio. Mais recentemente, estudos genéticos de larga escala, incluindo GWAS (genome-wide association studies), identificaram múltiplos loci associados ao glaucoma, como variantes nos genes MYOC, OPTN e TBK1, além de regiões relacionadas à pressão intraocular e à estrutura do nervo óptico. O ponto central é: o glaucoma não é uma doença de um único gene, mas sim uma condição multifatorial, em que fatores genéticos e ambientais interagem. Isso significa que, dentro de uma mesma família, pode haver: · predisposição anatômica semelhante; · padrões de pressão intraocular; · susceptibilidade vascular do nervo óptico. E, consequentemente, um risco compartilhado. O maior problema: pouca percepção do risco O problema não é apenas o risco, é a falta de percepção dele. Mesmo com evidências consistentes, muitos familiares de pacientes com glaucoma não se reconhecem como grupo de risco. Diferentemente de outras doenças crônicas, como diabetes ou hipertensão, o glaucoma ainda não é amplamente compreendido como uma condição com componente familiar relevante. E isso impacta diretamente o diagnóstico. Estudos mostram que uma parcela significativa dos pacientes com glaucoma descobre a doença em estágios já avançados, quando a perda visual é irreversível e, frequentemente, esses pacientes tinham histórico familiar não investigado. Talvez seja hora de mudar o foco das campanhas Se queremos reduzir a cegueira por glaucoma, precisamos ir além do diagnóstico individual. Precisamos rastrear famílias, e isso talvez nos possibilite chegar ao diagnóstico mais precoce. Orientar familiares de primeiro grau, incentivar exames periódicos e aumentar a conscientização sobre o risco hereditário pode ser uma das estratégias mais eficazes de prevenção. Principalmente em famílias com histórico de cegueira, em que a carga genética e o impacto da doença já são evidentes. Conclusão: O glaucoma é silencioso, mas, dentro da família, ele raramente é isolado. Reconhecer esse padrão e direcionar campanhas para quem ainda não sabe que está em risco pode representar uma mudança real na prevenção da cegueira. Neste Maio Verde, talvez o convite mais importante não seja apenas para quem tem glaucoma. Mas para quem pode vir a ter e ainda não sabe. ** Regina Cele Silveira Seixas é oftalmologista especializada em glaucoma e catarataSão PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/saude/voce-tem-caso-de-glaucoma-na-familia-fique-atento-aos-sinais
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