Saúde

Superbactérias matam mais que Aids e Malária e brasileiro não tem tratamento adequado

Em 2019, foram registrados 101 mil casos de infecção por bactérias resistentes no país, mas apenas 363 pessoas tiveram acesso aos antibióticos, diz estudo

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Wagner Lauria Jr.
06/05/2025, 14:21 • Atualizado em 06/05/2025, 14:21
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Maioria dos brasileiros não recebe tratamento adequado para superbactérias | Unsplash

Maioria dos brasileiros não recebe tratamento adequado para superbactérias | Unsplash

Um novo estudo internacional revelou uma lacuna no combate às chamadas superbactérias no Brasil: apenas 0,36% dos pacientes infectados com microrganismos resistentes aos antibióticos conseguem acesso ao tratamento adequado.

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O dado é parte de uma análise feita pela Parceria Global de Pesquisa e Desenvolvimento de Antibióticos (GARDP), publicada na revista científica The Lancet Infectious Diseases.

Segundo o levantamento da GARDP, em 2019, foram registrados cerca de 101 mil casos de infecção por bactérias resistentes no Brasil — mas apenas 363 pessoas tiveram acesso aos antibióticos necessários.

O percentual brasileiro (0,36%) ficou bem abaixo da média observada em outros países de renda média e baixa, onde o índice foi de 6,9%. No topo da lista, México e Egito alcançaram 14,9%.

Por que isso preocupa?

A resistência antimicrobiana (RAM) acontece quando bactérias, fungos e outros microrganismos deixam de responder aos medicamentos disponíveis. Isso torna as infecções mais difíceis de tratar e aumenta significativamente o risco de complicações graves, incluindo a morte. A Organização Mundial da Saúde (OMS) já classifica a RAM como uma das dez maiores ameaças à saúde pública mundial.

Matam mais do que Aids e Malária

O impacto da RAM já é imenso. Infecções resistentes causaram diretamente 1,27 milhão de mortes em 2019 — mais do que a Aids e a malária no mesmo período, de acordo com outra análise publicada no The Lancet.

Indiretamente, estima-se que tenham contribuído para a perda de quase 5 milhões de vidas. A projeção para as próximas décadas é ainda mais preocupante: até 2050, o número de mortes diretas pode alcançar 1,9 milhão por ano.

O estudo analisou dados de oito países: Bangladesh, Brasil, Egito, Índia, Quênia, México, Paquistão e África do Sul. Juntos, somaram cerca de 1,5 milhão de infecções por bactérias gram-negativas resistentes a carbapenêmicos — um tipo potente de antibiótico usado como último recurso. Apenas uma pequena parcela desses pacientes recebeu tratamento adequado.

“É ameaçador porque está aumentando [os casos] e precisamos de mais pesquisas e ferramentas para lidar com isso. O que está sendo feito hoje parece ser pouco. Entendendo melhor o problema, conseguiremos propor soluções alternativas”, ressalta Adriano José Pereira, que é pesquisador, coordenador Médico de Tele-UTI e consultor de Analytics do time de Big Data do Hospital Israelita Albert Einstein.

Aliás, um levantamento do Laboratório de Pesquisa em Infecção Hospitalar do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) mostra que a detecção de bactérias resistentes a antibióticos triplicou durante a pandemia no país, ou seja, após

“A pandemia acelerou as contaminações em muitos hospitais. Protocolos deixaram de ser seguidos, antibióticos passaram a ser usados com mais frequência. É um problema de saúde pública internacional.”, pontua.

Riscos da automedicação e falta de tratamento

Grande parte do debate sobre resistência antimicrobiana gira em torno do uso indevido de antibióticos, como a automedicação, que favorece a evolução de bactérias mais resistentes.

No entanto, o novo estudo destaca outro ponto crítico: mesmo quando o paciente já está infectado por uma superbactéria, ele muitas vezes não consegue acessar o tratamento necessário, especialmente em países com menos recursos.

Entre os desafios estão o diagnóstico correto e rápido, o custo elevado de exames laboratoriais especializados e a ausência de medicamentos eficazes.

Além disso, o desenvolvimento de novos antibióticos tem sido lento. Isso se deve, entre outros fatores, ao baixo retorno financeiro para as indústrias farmacêuticas, já que esses remédios são usados por pouco tempo e geralmente como último recurso, ao contrário de medicamentos para doenças crônicas.

Quais são os próximos passos?

O levantamento reforça que o enfrentamento da resistência antimicrobiana exige não apenas o uso mais consciente de antibióticos, mas também investimentos urgentes em diagnóstico, acesso a tratamentos e desenvolvimento de novas terapias.

Para isso, Pereira ressalta a necessidade de investimento para que sejam feitas pesquisas na área.

“Com pesquisa, testamos novas modalidades e intervenções inovadoras que, no futuro, podem ser capazes de influenciar práticas mundo afora”, ressalta Pereira.

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