Saiba como tratar dor e sangramento após a radioterapia
Especialista explica como reconhecer e tratar o problema, principalmente nos tumores de pelve, para recuperar a qualidade de vida


Brazil Health
A retite actínica, também chamada de proctite por radiação, é uma inflamação no reto que pode surgir após a radioterapia em tratamentos contra o câncer, principalmente nos casos em que o tumor está localizado na pelve – como os cânceres de próstata, reto, colo do útero, bexiga ou útero. Essa complicação não é nova, mas está cada vez mais presente no dia a dia dos médicos, já que os pacientes vivem mais tempo após o tratamento oncológico e, assim, as consequências tardias da radioterapia passam a aparecer com mais frequência.
Apesar de não representar risco imediato à vida, a retite actínica pode causar grande desconforto, afetar o bem-estar físico e emocional do paciente e comprometer sua qualidade de vida. Por isso, é fundamental entender essa condição, saber como identificá-la e conhecer as possibilidades de tratamento – que vão desde cuidados simples até cirurgias complexas, dependendo da gravidade de cada caso.
Como a radiação causa lesões no reto
A base do problema está na maneira como a radiação age sobre os tecidos. Durante o tratamento do câncer, a radioterapia utiliza radiação ionizante para destruir as células tumorais, mas, inevitavelmente, também atinge as células saudáveis ao redor. No caso do reto, que é a parte final do intestino grosso, as células da mucosa (o revestimento interno) se renovam muito rapidamente – e por isso são especialmente sensíveis à radiação.
Nos primeiros dias ou semanas após a exposição à radiação, pode haver inflamação da mucosa, que se manifesta como a forma aguda da retite. Já com o passar do tempo, em alguns pacientes, o dano vai se tornando mais profundo e permanente: os pequenos vasos sanguíneos que irrigam o reto vão sendo obstruídos (um processo chamado endarterite obliterante), o tecido fica mais rígido por acúmulo de fibrose (uma espécie de "cicatrização exagerada") e surgem vasos novos, mais frágeis e propensos a sangrar – as chamadas telangiectasias. Essas alterações levam à forma crônica da doença.
Em resumo, o reto vai ficando menos vascularizado, com menos capacidade de se regenerar e mais suscetível a sangramentos constantes, dor ao evacuar e até complicações mais graves, como úlceras (feridas profundas), estreitamentos e fístulas (passagens anormais entre o reto e outros órgãos).
As duas formas clínicas: aguda e crônica
Na forma aguda, os sintomas aparecem durante o tratamento com radioterapia ou logo após o término, geralmente nos primeiros três meses. Nesse período, o paciente pode sentir desconforto para evacuar (o chamado tenesmo), aumento do número de evacuações, muco nas fezes, dor leve na parte baixa do abdome e, às vezes, pequeno sangramento retal. Essa fase costuma ser passageira, e os sintomas melhoram com o tempo, sem necessidade de intervenções mais agressivas.
Já na forma crônica, que pode se manifestar meses ou até anos depois do tratamento, os sintomas são mais persistentes e geralmente mais incômodos. O sangramento retal torna-se frequente e pode levar à
anemia (redução do número de glóbulos vermelhos). A evacuação pode ser dolorosa e difícil, e há casos em que o reto se estreita (estenose) ou surgem lesões mais graves, como úlceras e fístulas, que podem provocar infecção ou comunicação anormal entre o intestino e outros órgãos, como a bexiga ou a vagina.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico da retite actínica é feito principalmente pela história clínica. Ou seja, o médico vai suspeitar da condição se o paciente tiver realizado radioterapia pélvica e começar a apresentar sintomas intestinais como os descritos. Para confirmar o diagnóstico e avaliar a gravidade das lesões, é indicado um exame chamado retossigmoidoscopia ou, em alguns casos, uma colonoscopia. Esses exames usam uma pequena câmera para visualizar o interior do intestino.
Na forma aguda, o que se vê é uma mucosa inflamada, avermelhada e com pequenas erosões. Na forma crônica, a mucosa tende a ficar pálida, com vasos dilatados (telangiectasias), sangramentos espontâneos e, em casos avançados, úlceras e estreitamentos. A biópsia, ou seja, a retirada de um pequeno fragmento da mucosa para análise, geralmente não é indicada, porque o tecido está muito frágil e existe risco de perfuração ou complicações como fístulas. Ela só é realizada se houver suspeita de retorno do câncer ou de outro diagnóstico.
Tratamentos clínicos e conservadores
Nos casos leves a moderados, em que os sintomas são toleráveis, o tratamento pode ser feito com medicamentos locais que ajudam a proteger a mucosa e aliviar a inflamação. Um dos mais utilizados é o sucralfato, que pode ser aplicado por via retal na forma de enemas (lavagens). Outro medicamento que pode ser usado é a mesalazina, uma substância anti-inflamatória muito utilizada em doenças inflamatórias intestinais, administrada também por via retal em supositórios. Há ainda o uso de ácido butírico em enemas, um composto que serve de energia para as células intestinais e pode ajudar na regeneração da mucosa.
Alguns estudos também avaliaram tratamentos por via oral. Uma revisão científica recente (2023) concluiu que suplementos como vitamina A (retinil palmitato) e dietas com alto teor de fibras mostraram bons resultados em casos leves, ajudando a reduzir o sangramento e a melhorar o funcionamento intestinal.
Tratamentos endoscópicos: cauterização e controle do sangramento
Quando o sangramento é persistente e afeta a qualidade de vida ou causa anemia, é necessário recorrer a técnicas endoscópicas, que são realizadas durante a colonoscopia ou a retossigmoidoscopia.
A principal delas é a coagulação com plasma de argônio, uma técnica em que se usa gás ionizado para "queimar" e cauterizar os vasos sanguíneos frágeis, evitando novos sangramentos. É um procedimento eficaz, relativamente seguro e pode ser repetido, se necessário.
Outra técnica é a aplicação de formolina a 4%, uma substância química que também cauteriza os vasos e controla o sangramento. A aplicação é feita localmente, durante o exame, com bons resultados. No entanto, pode causar desconforto, dor e, em alguns casos, estreitamento do reto, se usada de forma inadequada.
Casos graves e opções cirúrgicas
Nos casos mais severos – quando há estenose que impede a evacuação, formação de fístulas, úlceras profundas, ou quando os outros tratamentos falham – a cirurgia pode ser necessária. Dependendo da situação, o cirurgião pode optar por desviar o trânsito intestinal (colostomia) ou até retirar parte do intestino acometido. Essas são decisões delicadas e que precisam ser avaliadas com cuidado por uma equipe médica especializada.
Uma alternativa em casos muito específicos é a oxigenoterapia hiperbárica. Nessa técnica, o paciente respira oxigênio puro dentro de uma câmara pressurizada, o que estimula a formação de novos vasos sanguíneos e a cicatrização da mucosa retal. O tratamento pode ser útil em pacientes refratários ao tratamento convencional.
Considerações finais
A retite actínica é uma condição que merece atenção não apenas pelo seu impacto físico, mas também pelos efeitos emocionais e sociais que pode causar. Trata-se de uma complicação potencialmente grave, mas que, quando diagnosticada precocemente, pode ser controlada com sucesso na maioria dos casos.
Embora existam diversas opções de tratamento, os estudos clínicos ainda são limitados e não há um protocolo único que funcione para todos os pacientes. Por isso, o acompanhamento com especialistas e a personalização do tratamento são essenciais. O foco principal deve sempre ser a melhora da qualidade de vida do paciente, evitando complicações e oferecendo suporte adequado para o enfrentamento dessa condição tão desafiadora.
* Antonio Couceiro Lopes é cirurgião do Aparelho Digestivo e membro da Brazil Health









