Menopausa engorda mesmo? Veja se as canetas podem ajudar a virar o jogo
Nutrólogo explica por que o peso muda na menopausa e quando as canetas para emagrecer podem entrar no tratamento


Brazil Health
As canetas emagrecedoras se tornaram um protocolo de tratamento muito popular nos últimos anos e devem se tornar ainda mais acessíveis com a quebra da patente de algumas marcas. O medicamento teve como origem o tratamento do diabetes tipo 2, mas a popularidade entre os pacientes foi alcançada com sua eficácia no tratamento de outra doença: a obesidade. Uma condição que se destaca também em uma fatia muito específica da população: as mulheres que estão passando pelo processo da menopausa.
A busca pelo tratamento da obesidade não é por acaso. Vivemos em um país em que 1 a cada 4 adultos está obeso, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) 2019, divulgada pelo IBGE, o que representa 26,8% da população brasileira. Entre as mulheres, a faixa dos 40 aos 50 anos apresenta uma porcentagem de 34,4% de obesidade, a maior segundo os dados da pesquisa. E esses números nessa faixa etária não são por acaso.
Menopausa x obesidade
No Brasil, a faixa etária média das mulheres na menopausa vai dos 48 aos 51 anos. Percebe como essa também é a faixa etária de maior incidência da obesidade?
O corpo da mulher na menopausa não falhou. Ele simplesmente mudou as regras do jogo sem avisar. Com a queda do estrogênio, o metabolismo desacelera, a gordura migra para a região abdominal e a massa muscular diminui. Menos músculo significa menos calorias queimadas em repouso, mesmo sem mudar nada na rotina. Essa relação é bem estabelecida na literatura e explica por que tantas mulheres percebem mudanças no corpo mesmo sem ter alterado a rotina.
Mas a história não termina nos hormônios. A menopausa frequentemente coincide com um período de alta carga emocional: filhos saindo de casa, mudanças de carreira, cuidado com pais idosos. Tudo isso eleva o cortisol, que favorece o acúmulo de gordura abdominal e piora o sono. O sono ruim, por sua vez, desregula os hormônios da fome e da saciedade. Hormônios sexuais, emoções, sono e alimentação formam uma teia. Tratar só um fio raramente resolve. É por isso que reconhecer esses fatores é fundamental para parar de culpabilizar as mulheres por algo que vai muito além da força de vontade.
Só alimentação e exercício dão conta?
Uma dúvida muito comum no consultório. Para uma parte das mulheres, sim. Para outras, não, e isso precisa ser dito com clareza: a menopausa provoca alterações metabólicas reais que podem dificultar a perda de peso mesmo com disciplina total. O que não muda é que alimentação adequada e exercício são a base de qualquer tratamento. Sem eles, nenhuma outra intervenção funciona bem. O treino de força merece destaque especial. É ele que preserva a massa muscular e mantém o metabolismo funcionando.
Mulheres que chegam à perimenopausa com bons hábitos têm muito mais recursos para atravessar essa transição. É como chegar bem preparada para uma prova difícil. Mas nunca é tarde para começar: quanto antes, melhor o ponto de partida.
Canetas emagrecedoras na menopausa: quando entram?
Dito tudo isso, voltamos para a questão principal: as canetas emagrecedoras são uma ferramenta no tratamento da obesidade durante a menopausa? Sim, e com evidência robusta. Os análogos de GLP-1, como a semaglutida, e os agonistas duplos GLP-1/GIP, como a tirzepatida, atuam em múltiplos mecanismos: reduzem o apetite, melhoram a sensibilidade à insulina e promovem perda de peso significativa. Na menopausa, quando o ambiente metabólico já está desfavorável, esses medicamentos podem ser aliados importantes. A indicação, como sempre, precisa ser individualizada. Critérios clínicos, histórico e objetivos terapêuticos devem guiar a decisão.
Vale lembrar que as canetas também podem ser combinadas com a reposição hormonal, e essa combinação pode ser muito interessante. A reposição atua na causa: corrige a deficiência de estrogênio, preserva a massa óssea e melhora o perfil metabólico. As canetas atuam na consequência: ajudam no controle do peso e da resistência à insulina. São abordagens complementares, não concorrentes. Uma não cancela a outra. Pelo contrário, tendem a se potencializar.
Cuidados ao usar canetas para emagrecer nessa fase
Para finalizar, é importante que as mulheres que utilizam esse tratamento sigam um monitoramento da composição corporal, não apenas do peso. As canetas promovem perda de gordura, mas podem levar também à perda de massa muscular, e na menopausa isso é especialmente preocupante. Por isso, o treino de força é obrigatório, não opcional. A ingestão proteica precisa ser adequada. Densidade óssea, marcadores inflamatórios e função hormonal também merecem acompanhamento ao longo do tratamento. O objetivo final não é um número menor na balança. É uma composição corporal mais saudável e, acima de tudo, mais qualidade de vida.
** Guilherme Giorelli é médico nutrólogo, professor de Nutrologia, Medicina do Exercício e Esporte e Endocrinologia









