Estresse crônico: os perigos de viver em alerta contínuo
Estresse prolongado altera o funcionamento do cérebro e aumenta a vulnerabilidade aos transtornos mentais
Brazil Health
O estresse prolongado pode alterar o funcionamento do cérebro e aumentar o risco de transtornos mentais | Reprodução/Magnific
Durante a pandemia de Covid-19, quando grande parte dos atendimentos precisou ser adaptada para a telemedicina, observei um padrão recorrente de ansiedade, insônia, irritabilidade, dificuldade de concentração e uma sensação persistente de esgotamento entre os pacientes, independentemente da idade ou da história de vida. Essa experiência despertou meu interesse em compreender de forma mais profunda o papel do estresse no adoecimento psíquico.
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Embora cada caso apresentasse suas particularidades, havia um elemento comum. Antes do surgimento dos sintomas, quase sempre existia um período prolongado de tensão provocado por situações que pareciam não ter saída. Perdas financeiras, conflitos familiares, rupturas afetivas, excesso de trabalho, doenças ou mudanças inesperadas mantinham o organismo em permanente estado de vigilância.
O estresse é um mecanismo biológico essencial para a sobrevivência, pois sempre que o cérebro identifica uma ameaça, real ou percebida, ativa uma série de respostas coordenadas pelo sistema nervoso e pelo sistema endócrino. Em poucos segundos, hormônios como adrenalina e cortisol são liberados para preparar o corpo para reagir.
Essa reação, conhecida como luta ou fuga, foi decisiva ao longo da evolução humana. Diante de um perigo iminente, era necessário decidir rapidamente entre enfrentar a ameaça ou buscar proteção. Para isso, os batimentos cardíacos aceleram, a respiração se intensifica, os músculos recebem mais sangue e a atenção passa a se concentrar quase exclusivamente no risco.
Em condições normais, esse mecanismo é temporário. Assim que o perigo desaparece, a ativação diminui e o organismo recupera o equilíbrio. O problema é que na vida moderna muitas ameaças não têm um desfecho rápido. Dívidas, desemprego, conflitos conjugais, sobrecarga profissional, violência ou doenças na família podem manter essa resposta ativada por meses ou até anos.
Foi esse fenômeno que o neurocientista Bruce McEwen descreveu ao formular o conceito de carga alostática. Segundo ele, o organismo consegue se adaptar ao estresse durante certo período. Quando essa ativação se prolonga, porém, ocorre um desgaste progressivo dos mecanismos responsáveis por manter o equilíbrio interno, aumentando o risco de doenças cardiovasculares, alterações metabólicas, prejuízos cognitivos e transtornos psiquiátricos.
Hoje também sabemos que essa sobrecarga modifica regiões cerebrais fundamentais. A amígdala, relacionada às respostas emocionais, torna-se mais reativa; o hipocampo, responsável pela formação da memória, pode perder eficiência; e o córtex pré-frontal, envolvido no planejamento, na tomada de decisões e no controle dos impulsos, passa a funcionar de maneira menos eficiente. O resultado é uma mudança na forma como pensamos, sentimos e respondemos às situações do cotidiano.
A busca por alívio imediato
Quando o sofrimento se torna constante, é natural procurar maneiras rápidas de aliviar o desconforto. Algumas pessoas aumentam o consumo de café para manter o rendimento. Outras recorrem ao álcool para relaxar, fumam mais ou utilizam medicamentos para dormir sem orientação médica.
Costumo chamar esse comportamento de Síndrome do Popeye, em referência ao personagem que recorria ao espinafre para ganhar força instantaneamente. A metáfora representa a tentativa de obter energia, disposição ou alívio emocional por meio de substâncias que atuam diretamente sobre o sistema nervoso.
Do ponto de vista biológico, elas estimulam os circuitos cerebrais relacionados à recompensa, principalmente pela liberação de dopamina. A sensação de bem-estar, entretanto, costuma ser breve. Quando o efeito desaparece, surgem ansiedade, irritabilidade e o desejo de repetir o consumo, criando um ciclo que pode evoluir para a dependência química.
Nessa fase, costumam aparecer sinais característicos, como dificuldade para controlar o uso, necessidade de doses cada vez maiores e sintomas de abstinência quando a substância deixa de ser consumida.
Quando o estresse abre caminho para o adoecimento
O estresse crônico isoladamente não explica o surgimento dos transtornos mentais. Fatores genéticos, experiências de vida, características de personalidade e condições ambientais também influenciam esse processo. Ainda assim, ele é um dos principais elementos capazes de desencadear sintomas em pessoas que já apresentam alguma vulnerabilidade biológica.
Dependendo dessa interação, podem surgir transtorno de ansiedade generalizada, síndrome do pânico, fobias, transtorno obsessivo-compulsivo, depressão, transtorno bipolar, alterações da impulsividade e, nos casos mais graves, episódios psicóticos.
Essa combinação ajuda a explicar por que duas pessoas submetidas ao mesmo evento podem reagir de maneiras completamente diferentes. O impacto de uma adversidade depende não apenas da intensidade do problema, mas também da suscetibilidade individual e da capacidade de enfrentamento disponível naquele momento.
O cuidado começa antes da doença
Nenhuma abordagem isolada é suficiente para responder à complexidade do sofrimento psíquico. O tratamento precisa ser individualizado e considerar os aspectos biológicos, psicológicos e sociais envolvidos em cada caso.
A psicoterapia permanece como uma das principais ferramentas para compreender os fatores que sustentam o sofrimento e desenvolver formas mais saudáveis de enfrentá-lo. A terapia cognitivo-comportamental reúne ampla evidência científica, embora outras abordagens também possam ser indicadas conforme as necessidades de cada paciente.
Quando os sintomas persistem ou comprometem significativamente a qualidade de vida, os medicamentos podem ser fundamentais para restaurar o equilíbrio neuroquímico e interromper o ciclo de ansiedade, insônia e hiperativação do organismo.
Há, porém, um terceiro componente que considero indispensável: o cuidado diário com a saúde. Exercício físico regular, alimentação equilibrada, sono de qualidade e relações sociais consistentes ajudam a reduzir os efeitos fisiológicos do estresse e aumentam a capacidade do organismo de enfrentar novos desafios. Não por acaso, princípios defendidos há mais de dois mil anos por Aristóteles, Hipócrates e Juvenal continuam sendo confirmados pela ciência contemporânea.
A psicanálise busca compreender o sofrimento a partir da história dos vínculos. A psiquiatria biológica investiga alterações genéticas, metabólicas e neuroquímicas. A proposta da Psiquiatria do Estresse é integrar essas perspectivas, reconhecendo que o adoecimento costuma surgir da interação entre vulnerabilidades individuais e uma exposição prolongada a situações adversas.
O estresse continuará fazendo parte da vida, a diferença está na maneira como o reconhecemos e respondemos a ele. Buscar ajuda antes que o sofrimento se transforme em doença é uma atitude de prevenção, conhecimento e cuidado com a própria saúde mental.
*Dr. Ricardo Braga, médico psiquiatra e psicoterapeuta
Estresse crônico: os perigos de viver em alerta contínuoEstresse prolongado altera o funcionamento do cérebro e aumenta a vulnerabilidade aos transtornos mentaisSaúde2026-07-27T14:19:06.914ZDurante a pandemia de Covid-19, quando grande parte dos atendimentos precisou ser adaptada para a telemedicina, observei um padrão recorrente de ansiedade, insônia, irritabilidade, dificuldade de concentração e uma sensação persistente de esgotamento entre os pacientes, independentemente da idade ou da história de vida. Essa experiência despertou meu interesse em compreender de forma mais profunda o papel do estresse no adoecimento psíquico. Embora cada caso apresentasse suas particularidades, havia um elemento comum. Antes do surgimento dos sintomas, quase sempre existia um período prolongado de tensão provocado por situações que pareciam não ter saída. Perdas financeiras, conflitos familiares, rupturas afetivas, excesso de trabalho, doenças ou mudanças inesperadas mantinham o organismo em permanente estado de vigilância. O estresse é um mecanismo biológico essencial para a sobrevivência, pois sempre que o cérebro identifica uma ameaça, real ou percebida, ativa uma série de respostas coordenadas pelo sistema nervoso e pelo sistema endócrino. Em poucos segundos, hormônios como adrenalina e cortisol são liberados para preparar o corpo para reagir. Essa reação, conhecida como luta ou fuga, foi decisiva ao longo da evolução humana. Diante de um perigo iminente, era necessário decidir rapidamente entre enfrentar a ameaça ou buscar proteção. Para isso, os batimentos cardíacos aceleram, a respiração se intensifica, os músculos recebem mais sangue e a atenção passa a se concentrar quase exclusivamente no risco. Em condições normais, esse mecanismo é temporário. Assim que o perigo desaparece, a ativação diminui e o organismo recupera o equilíbrio. O problema é que na vida moderna muitas ameaças não têm um desfecho rápido. Dívidas, desemprego, conflitos conjugais, sobrecarga profissional, violência ou doenças na família podem manter essa resposta ativada por meses ou até anos. Foi esse fenômeno que o neurocientista Bruce McEwen descreveu ao formular o conceito de carga alostática. Segundo ele, o organismo consegue se adaptar ao estresse durante certo período. Quando essa ativação se prolonga, porém, ocorre um desgaste progressivo dos mecanismos responsáveis por manter o equilíbrio interno, aumentando o risco de doenças cardiovasculares, alterações metabólicas, prejuízos cognitivos e transtornos psiquiátricos. Hoje também sabemos que essa sobrecarga modifica regiões cerebrais fundamentais. A amígdala, relacionada às respostas emocionais, torna-se mais reativa; o hipocampo, responsável pela formação da memória, pode perder eficiência; e o córtex pré-frontal, envolvido no planejamento, na tomada de decisões e no controle dos impulsos, passa a funcionar de maneira menos eficiente. O resultado é uma mudança na forma como pensamos, sentimos e respondemos às situações do cotidiano. A busca por alívio imediato Quando o sofrimento se torna constante, é natural procurar maneiras rápidas de aliviar o desconforto. Algumas pessoas aumentam o consumo de café para manter o rendimento. Outras recorrem ao álcool para relaxar, fumam mais ou utilizam medicamentos para dormir sem orientação médica. Costumo chamar esse comportamento de Síndrome do Popeye, em referência ao personagem que recorria ao espinafre para ganhar força instantaneamente. A metáfora representa a tentativa de obter energia, disposição ou alívio emocional por meio de substâncias que atuam diretamente sobre o sistema nervoso. Do ponto de vista biológico, elas estimulam os circuitos cerebrais relacionados à recompensa, principalmente pela liberação de dopamina. A sensação de bem-estar, entretanto, costuma ser breve. Quando o efeito desaparece, surgem ansiedade, irritabilidade e o desejo de repetir o consumo, criando um ciclo que pode evoluir para a dependência química. Nessa fase, costumam aparecer sinais característicos, como dificuldade para controlar o uso, necessidade de doses cada vez maiores e sintomas de abstinência quando a substância deixa de ser consumida. Quando o estresse abre caminho para o adoecimento O estresse crônico isoladamente não explica o surgimento dos transtornos mentais. Fatores genéticos, experiências de vida, características de personalidade e condições ambientais também influenciam esse processo. Ainda assim, ele é um dos principais elementos capazes de desencadear sintomas em pessoas que já apresentam alguma vulnerabilidade biológica. Dependendo dessa interação, podem surgir transtorno de ansiedade generalizada, síndrome do pânico, fobias, transtorno obsessivo-compulsivo, depressão, transtorno bipolar, alterações da impulsividade e, nos casos mais graves, episódios psicóticos. Essa combinação ajuda a explicar por que duas pessoas submetidas ao mesmo evento podem reagir de maneiras completamente diferentes. O impacto de uma adversidade depende não apenas da intensidade do problema, mas também da suscetibilidade individual e da capacidade de enfrentamento disponível naquele momento. O cuidado começa antes da doença Nenhuma abordagem isolada é suficiente para responder à complexidade do sofrimento psíquico. O tratamento precisa ser individualizado e considerar os aspectos biológicos, psicológicos e sociais envolvidos em cada caso. A psicoterapia permanece como uma das principais ferramentas para compreender os fatores que sustentam o sofrimento e desenvolver formas mais saudáveis de enfrentá-lo. A terapia cognitivo-comportamental reúne ampla evidência científica, embora outras abordagens também possam ser indicadas conforme as necessidades de cada paciente. Quando os sintomas persistem ou comprometem significativamente a qualidade de vida, os medicamentos podem ser fundamentais para restaurar o equilíbrio neuroquímico e interromper o ciclo de ansiedade, insônia e hiperativação do organismo. Há, porém, um terceiro componente que considero indispensável: o cuidado diário com a saúde. Exercício físico regular, alimentação equilibrada, sono de qualidade e relações sociais consistentes ajudam a reduzir os efeitos fisiológicos do estresse e aumentam a capacidade do organismo de enfrentar novos desafios. Não por acaso, princípios defendidos há mais de dois mil anos por Aristóteles, Hipócrates e Juvenal continuam sendo confirmados pela ciência contemporânea. A psicanálise busca compreender o sofrimento a partir da história dos vínculos. A psiquiatria biológica investiga alterações genéticas, metabólicas e neuroquímicas. A proposta da Psiquiatria do Estresse é integrar essas perspectivas, reconhecendo que o adoecimento costuma surgir da interação entre vulnerabilidades individuais e uma exposição prolongada a situações adversas. O estresse continuará fazendo parte da vida, a diferença está na maneira como o reconhecemos e respondemos a ele. Buscar ajuda antes que o sofrimento se transforme em doença é uma atitude de prevenção, conhecimento e cuidado com a própria saúde mental. *Dr. Ricardo Braga, médico psiquiatra e psicoterapeutaSão PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/saude/estresse-cronico-saude-mental-transtornos-psiquicos
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