Abuso infantil: a dor silenciosa que destrói milhares de infâncias no Brasil
Especialista explica por que tantas crianças sofrem caladas e o que adultos podem fazer para interromper esse ciclo de violência no Brasil


Brazil Health
Imagine você com cinco anos. Pense na sensação de estar em um balanço, sentindo o vento no rosto enquanto o movimento de ir e vir te dá, por alguns segundos, a impressão de que é possível voar. Você cria coragem, impulsiona o balanço com mais força, o coração acelera, o frio na barriga aumenta. Fecha os olhos para sentir tudo por inteiro. Abre-os novamente e pede para sua mãe empurrar mais alto, porque descobriu que é corajoso o suficiente para sentir o vento ainda mais forte.
Agora tente lembrar do cheiro do almoço quando chegava da escola. Do aconchego dos lençóis. Da segurança de estar protegido durante uma tempestade. Da certeza de que, se alguém te ameaçasse na escola, seu pai estaria lá na saída. Da bronca que vinha quando você fazia algo errado – não como violência, mas como orientação, como limite, como amor.
Se essas memórias te trazem saudade e calor no peito, é porque você cresceu em um ambiente emocionalmente seguro. Você foi uma criança que pôde viver, não apenas sobreviver. Mas essa não é a realidade de todas as crianças.
Quando a casa deixa de ser abrigo
Para muitas crianças, voltar da escola não é sinônimo de proteção. É medo. É silêncio. É sobrevivência.
O corpo frágil, que deveria ser cuidado, é violado. A inocência, que deveria ser preservada, é roubada. E o agressor, quase sempre, não é um estranho.
Segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, em 2023 o Disque 100 registrou mais de 17 mil denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes. E esse número representa apenas a superfície: estudos indicam que apenas 7% a 10% dos casos chegam a ser denunciados.
O dado mais assustador é também o mais revelador: em mais de 70% dos casos, o agressor é alguém da família ou do convívio próximo.
O lugar que deveria ser o mais seguro do mundo é, para muitas crianças, o cenário do maior pesadelo de suas vidas.
O silêncio que protege o agressor
O abuso sexual infantil se perpetua porque a voz da criança raramente é validada. Ela aprende que adultos não devem ser questionados. Que obediência é respeito. Que desafiar um avô, um padrasto, um tio, um professor, um líder religioso é errado.
E assim, o silêncio se torna cúmplice.
Muitas mães, também vítimas de abuso na infância, não conseguem reconhecer sinais nos próprios filhos. Adolescentes que sofreram abuso podem repetir padrões, reproduzindo a lógica de poder que um dia os feriu. A exposição precoce à pornografia – que aumentou drasticamente nos últimos anos – também contribui para a normalização da violência.
As marcas que ficam para sempre
Para quem trabalha com saúde mental, os sinais são visíveis. Mesmo antes do relato, o corpo fala. O comportamento fala. A dor fala.
Adultos que foram abusados na infância frequentemente apresentam:
· dificuldade de confiar
· problemas com o próprio corpo
· sexualidade marcada por culpa, medo ou repulsa
· relações afetivas instáveis
· baixa autoestima
· sintomas de ansiedade, depressão e TEPT
· dificuldade em estabelecer limites
· sensação persistente de inadequação
A sexualidade, que deveria ser vivida com prazer e autonomia, torna-se um território de ameaça, vergonha ou confusão.
O Brasil que ainda não protege suas crianças
Dados oficiais reforçam a urgência:
· A cada 8 minutos, uma criança é estuprada no Brasil (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2023).
· 61% das vítimas de estupro têm até 13 anos.
· 86% dos casos acontecem dentro de casa.
· Mais de 80% dos agressores são homens conhecidos da vítima.
Esses números não são estatísticas frias. São histórias reais. São infâncias interrompidas.
O que precisamos fazer – agora
Proteger crianças é responsabilidade coletiva. É dentro de casa que a prevenção começa. É na escuta que a confiança nasce. É na denúncia que o ciclo se rompe.
Adultos precisam entender que:
· criança não deve ter acesso à sexualidade adulta
· pornografia não é conteúdo para menores
· conversas sobre limites e consentimento salvam vidas
· acreditar na criança é o primeiro passo para protegê-la
· denunciar não é deslealdade – é proteção
Um chamado urgente
O 18 de maio, Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, existe para nos lembrar que ainda estamos falhando. Que ainda estamos permitindo que muitas infâncias sejam roubadas. Que ainda há crianças que não conhecem o vento no rosto do balanço – apenas o peso do medo.
Depois de mais de 25 anos ouvindo relatos de vítimas em escolas, ONGs e atendimentos clínicos, posso afirmar: essas histórias não são exceções. São alertas. E ignorá-las é permitir que continuem acontecendo.
A pergunta que fica é: estamos realmente protegendo as crianças que passam por nós?
Porque a infância é vivida uma única vez. E cada criança merece sentir que pode voar – não que precisa sobreviver.
** Mariza Souza é psicóloga clínica e pedagoga, especialista em Psicoterapia Familiar, Neuropsicologia, Perita criminal e membro da Brazil Health









