Quatro mulheres são presas em operação contra golpes financeiros na Faria Lima (SP)
Esquema funcionava no 12º andar de edifício empresarial e usava medo para enganar vítimas, principalmente idosos

Vinícius Rangel
O coração financeiro do Brasil, conhecido por abrigar grandes bancos, empresas multinacionais e escritórios de luxo, também se transformou em esconderijo de criminosos. Tudo funcionava no décimo segundo andar de um prédio empresarial de alto padrão, na Avenida Faria Lima, em São Paulo.
A polícia descobriu uma central de golpes financeiros que operava como se fosse uma empresa legítima. Durante a operação, quatro mulheres, de 27, 28, 31 e 39 anos, foram presas. Elas ocupavam cargos de gerência comercial e supervisão e eram responsáveis por comandar a chamada central de golpes.
Os operadores eram orientados a falar sobre uma suposta ação judicial que bloquearia os bens, a CNH e até o passaporte da vítima. Segundo o delegado responsável pelo caso, trata-se de uma estratégia para provocar medo.
“Mensagens de cancelamento de CPF, cancelamento de benefícios, onde que, principalmente com vítimas idosas, eles causavam temor. As pessoas com essa vulnerabilidade, de não conseguir consultar os dados para saber se era verdade, ficavam apavoradas”, explicou o delegado Christian Nimoi.
Os golpistas tinham acesso a listas dos chamados "créditos podres", que são dívidas que os bancos já pararam de cobrar e venderam para assessorias de cobrança.
Além das ligações telefônicas, as vítimas, em sua maioria idosos, recebiam mensagens em massa que simulavam ordens judiciais. Assustadas, eram direcionadas para um atendimento telefônico. Era nesse momento que os operadores se passavam por supostos setores jurídicos e de cobrança.
O pai de uma jovem, que falou com a equipe de reportagem por telefone, foi uma das vítimas. O idoso, de 75 anos, tinha uma dívida já caducada, de cerca de 200 reais, mas acabou sendo cobrado em mais de 20 mil reais. Nas mensagens, é possível notar o tom ameaçador usado pelos criminosos. Assustado, ele chegou a fazer um empréstimo para quitar a suposta dívida.
“Ligou uma moça dizendo que era uma advogada, advogada Pamela, e meu pai ficou desesperado. Ele não falou pra ninguém. Ele quitou lá e ficou na dele. Só que ele estava triste e aí resolveu. E aí meu pai fez um empréstimo. Vai pagar o empréstimo agora, nem sei quantas vezes ele fez esse empréstimo e vai ficar com essa dívida”, relatou a filha.
Segundo as investigações, o esquema funcionava de forma híbrida: uma parte da estrutura era usada para cobranças legítimas, enquanto a outra era dedicada à aplicação de golpes. A localização - na Avenida Faria Lima - não era por acaso. O endereço nobre dava credibilidade à fraude e passava confiança às vítimas.
Além das quatro mulheres presas, que foram liberadas mediante pagamento de fiança, outros dez suspeitos foram conduzidos à delegacia para prestar depoimento.
O delegado alertou a população sobre esse tipo de crime. "Não existem extorsões que levam a cancelamento de CPF. Isso não existe. Tem que procurar, inclusive, as autoridades quando isso acontecer. Desconfiar é essencial.”









