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“Não sobrou nada”: como vivem afegãs 5 anos após Talibã

Ameaçada pelo grupo fundamentalista, Hosa Niazi relata perda de direitos e abandono em um país onde mulheres foram progressivamente excluídas da vida pública

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Sofia Pilagallo
Grupo de mulheres vestindo burcas azuis tradicionais caminham juntas ao ar livre no Afeganistão | Foto: Pexels

Grupo de mulheres vestindo burcas azuis tradicionais caminham juntas ao ar livre no Afeganistão | Foto: Pexels

Por meses, Hosa Niazi, de 28 anos, deixou a própria casa e se refugiou em outras cidades do Afeganistão com medo de ser encontrada pelo Talibã. Ativista pelos direitos das mulheres, ela conta que passou a desligar o celular para evitar ser rastreada e recebeu ligações com ameaças. Integrantes do grupo fundamentalista chegaram a procurá-la em sua casa e na vizinhança.

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Antes da volta do Talibã ao poder, Hosa integrava o Girl Lab, grupo voltado à defesa dos direitos das mulheres que, segundo ela, fazia parte da rede internacional Girl Up. Após a retomada do controle do país, integrantes do grupo passaram a ser procuradas e ameaçadas, enquanto algumas conseguiram deixar o Afeganistão.

"É muito difícil lembrar disso. Eu chegava a deixar minha própria casa e passar meses vivendo em outros lugares porque trabalhava pelos direitos das mulheres. Eu era ativista e, por causa disso, eles batiam à nossa porta e à porta dos vizinhos perguntando: ‘Onde ela está? Onde está essa mulher?'", conta Hosa ao SBT News.

As ameaças também atingiram outras integrantes do grupo. Hosa relata que algumas receberam mensagens de morte e avisos de que suas famílias também poderiam sofrer represálias caso elas não se entregassem.

A experiência da ativista é um retrato da realidade enfrentada por mulheres e meninas desde a volta do Talibã ao poder, em 15 de agosto de 2021. Desde então, elas foram progressivamente afastadas das escolas, do mercado de trabalho e da vida pública.

Meninas são proibidas de frequentar o ensino secundário, enquanto mulheres não podem cursar universidades e foram excluídas de grande parte do mercado de trabalho. O Afeganistão é, hoje, o único país do mundo onde meninas não podem frequentar o ensino secundário e mulheres são impedidas de acessar a universidade.

As restrições também atingem atividades cotidianas e a liberdade de circulação. Mulheres foram proibidas de frequentar espaços como parques, academias e clubes esportivos e, em diferentes partes do país, enfrentam limitações para viajar sem a companhia de um homem da família. A participação feminina na vida política e nas decisões públicas também foi praticamente eliminada.

Mulher afegã caminha entre soldados do Talibã em um posto de controle em Cabul | Foto: Ali Khara/Reuters - 06.07.2026
Mulher afegã caminha entre soldados do Talibã em um posto de controle em Cabul | Foto: Ali Khara/Reuters - 06.07.2026

A educação foi uma das áreas em que a vida de Hosa mudou de forma mais drástica. Moradora de Cabul, ela cursava o terceiro semestre de Administração de Empresas e estava entre as melhores alunas da turma quando o Talibã retomou o poder. Com as restrições impostas pelo grupo, foi obrigada a abandonar a universidade.

Na época, Hosa também fazia planos para o futuro. Apaixonada por negócios e comércio eletrônico, sonhava em abrir a própria loja online. Hoje, ainda tenta retomar os projetos que deixou pelo caminho, mas diz ter perdido grande parte da motivação que tinha antes da volta do grupo ao poder.

O impacto vai além dos planos profissionais. Ao ver amigas que conseguiram deixar o Afeganistão estudando e construindo uma vida no exterior, Hosa diz sentir que ficou para trás. Seu maior medo é que os futuros filhos enfrentem as mesmas limitações que marcaram a própria juventude.

"A pior parte, agora que sou casada, é pensar que amanhã meu filho pode me perguntar: 'O que você fez?' e eu não ter o que responder. Tenho medo de que meus filhos passem pelas mesmas coisas que eu, meus avós e minha mãe passaram. Que esse ciclo continue e, daqui a 20 ou 30 anos, nada tenha mudado. Esse é um dos meus maiores medos", afirma Hosa.

Crise humanitária e de direitos

A situação das mulheres se soma a uma crise humanitária que atinge quase metade da população afegã. Violações de direitos humanos convivem com insegurança alimentar, pobreza extrema, dificuldades de acesso a serviços básicos e uma economia fragilizada.

Segundo estimativas da ONU citadas pelo ACNUR, a Agência da ONU para Refugiados, quase 22 milhões de pessoas precisam de assistência humanitária no Afeganistão, o equivalente a 45% da população. Desastres naturais recorrentes agravam um cenário marcado por diferentes crises que se alimentam mutuamente.

Sobreviventes de terremoto recebem atendimento médico no Afeganistão, em junho de 2022 | Foto: Tasnim News Agency/Wikimedia Commons
Sobreviventes de terremoto recebem atendimento médico no Afeganistão, em junho de 2022 | Foto: Tasnim News Agency/Wikimedia Commons

O controle imposto pelo Talibã também alcança aspectos cotidianos da vida de toda a população. A chamada lei de moralidade ampliou a fiscalização sobre comportamentos, vestimentas e práticas religiosas, e há registros de homens abordados por barbas aparadas ou cortes de cabelo considerados "ocidentais" e pressionados a participar de orações coletivas.

A música também é alvo da repressão. A lei de moralidade proíbe motoristas de veículos comerciais de reproduzi-la, enquanto detenções relacionadas a tocar ou ouvir música continuam sendo registradas. Instrumentos foram apreendidos, queimados e destruídos e, em agosto de 2024, o próprio ministério responsável pela fiscalização da moralidade afirmou ter destruído mais de 21 mil deles ao longo de um ano.

Para mulheres e meninas, o retrocesso também aumentou a vulnerabilidade à violência e a práticas como os casamentos infantis e forçados. Embora um decreto do próprio Talibã de 2021 proíba formalmente o casamento forçado, a ONU Mulheres registra que a prática continua ocorrendo.

Dados reunidos pela entidade indicam que, entre as mulheres afegãs de 20 a 24 anos, 28,7% se casaram antes dos 18 anos e 9,6% antes dos 15. A pobreza leva algumas famílias a casar as filhas como estratégia de sobrevivência, em um contexto agravado pela exclusão das meninas da educação e pela redução dos mecanismos de proteção contra a violência.

Os deslocamentos dão outra dimensão à crise. Mais de 3 milhões de pessoas tiveram de deixar suas casas, mas permanecem dentro do Afeganistão, enquanto outro contingente superior a 3 milhões vive em países vizinhos e necessita de proteção internacional.

Há ainda um movimento no sentido contrário. Somente em 2025, cerca de 3 milhões de afegãos que estavam fora retornaram ao país, muitos deles sem que a volta fosse voluntária, segundo Andrea Zamur, oficial-assistente de Reassentamento e Vias Complementares do ACNUR.

"Muitas pessoas ainda permanecem no Afeganistão com dificuldade para acessar proteção internacional. Mulheres e meninas enfrentam riscos ainda maiores, porque as restrições impostas pelo Talibã à mobilidade e à documentação comprometem a capacidade de viajar, exercer autonomia sobre as próprias escolhas e buscar essa proteção", explica Andrea.

O Brasil está entre os países que mantêm mecanismos específicos de acolhimento de afegãos. Segundo o ACNUR, desde 2021, mais de 10 mil pessoas receberam vistos humanitários para vir ao país e, desde 2025, mais de 550 chegaram por meio do Programa Nacional de Acolhida Humanitária por Patrocínio Comunitário.

Os afegãos que retornam chegam, em muitos casos, com necessidades imediatas de alimentação, abrigo, atendimento de saúde, documentação, assistência jurídica e apoio psicossocial. Para mulheres e meninas, a volta significa ainda retornar a um ambiente marcado por discriminação sistemática e severas limitações às próprias liberdades.

Esse cenário também pesa sobre os planos de quem, como Hosa, permanece no país. Para ela, deixar o Afeganistão passou a representar a possibilidade de voltar a estudar, trabalhar e construir uma vida com maior autonomia.

"Eu sei que não há como viver aqui. Não sobrou nada aqui. O único jeito de viver, de crescer, é sair do Afeganistão. Eu sonhava em sair daqui, estudar e trabalhar”, afirma.

Contexto histórico

A retomada do poder pelo Talibã foi mais um capítulo de uma história marcada por décadas de conflitos e instabilidade. A União Soviética invadiu o Afeganistão em 1979, dando início a uma guerra que se estendeu até a retirada das tropas soviéticas, em 1989.

Nos anos seguintes, o país mergulhou em uma guerra civil que antecedeu a ascensão do Talibã. O grupo passou a controlar a maior parte do território em 1996 e permaneceu no poder até 2001.

Após os atentados de 11 de setembro, os Estados Unidos lideraram uma invasão do Afeganistão e permaneceram no país por duas décadas. A retirada das tropas estrangeiras, em 2021, foi seguida pelo rápido avanço do Talibã e pelo colapso do governo afegão.

Afegãos embarcam em avião militar dos Estados Unidos durante operação de evacuação no aeroporto de Cabul, em agosto de 2021 | Foto: Brennen Lege/U.S. Air Force/DVIDS
Afegãos embarcam em avião militar dos Estados Unidos durante operação de evacuação no aeroporto de Cabul, em agosto de 2021 | Foto: Brennen Lege/U.S. Air Force/DVIDS

Para a antropóloga Francirosy Campos Barbosa, professora da USP e pesquisadora do Islã, esse histórico é essencial para entender o que de fato mudou nos últimos anos. Ela ressalta que pobreza, violência e conservadorismo já faziam parte da realidade afegã e permaneceram mesmo durante a presença americana.

"Pobreza, violência e conservadorismo já existiam antes e não começaram em 2021. Nos 20 anos de intervenção americana, houve avanços nos espaços urbanos, inclusive para as mulheres, mas isso não significou uma melhora efetiva da qualidade de vida de toda a população", afirma.

Esses avanços também não alcançaram o país de maneira uniforme. Nos grandes centros, mulheres voltaram a estudar, chegaram às universidades e conquistaram maior liberdade de circulação, mas a realidade era diferente em muitas áreas rurais.

Para Francirosy, o principal rompimento ocorrido a partir de 2021 está na forma como a retirada de direitos das mulheres passou a ser institucionalizada. A exclusão feminina deixou de ser apenas reflexo de uma sociedade conservadora e passou a integrar diretamente as políticas impostas pelo novo governo.

"O grande marcador diferencial é essa exclusão total, de forma muito institucional, das mulheres da vida pública. Muitas são obrigadas a deixar os empregos e as meninas saem da escola e da universidade. É praticamente um apagamento das mulheres do espaço público", diz.

A antropóloga afirma que, em 2021, ainda havia incerteza sobre até onde o grupo levaria as restrições. Com o passar dos anos, porém, as medidas contra mulheres e meninas se intensificaram e passaram a ocupar um papel central no projeto político e social do Talibã.

Francirosy também critica o uso da religião para justificar essas regras. Segundo ela, o grupo faz uma interpretação extremista de ensinamentos islâmicos e apresenta essa leitura como a forma correta de organizar a sociedade.

"Eles usam, inclusive, a religião para justificar essas atitudes, de forma bastante equivocada. A gente tem um extremismo nessa postura em relação às próprias mulheres. Eles acreditam que esse é um projeto de administração, de religião e de vida pública", afirma.

'Não fazem nada para nos ajudar'

O Talibã continua sem reconhecimento diplomático amplo, mas o isolamento internacional do grupo vem diminuindo. Em julho de 2025, a Rússia se tornou o primeiro país a reconhecer formalmente o governo instalado pelo grupo desde a retomada de Cabul.

Outros países mantêm distância do reconhecimento oficial, mas aprofundaram relações com as autoridades afegãs. A China recebeu um embaixador indicado pelo Talibã, a Índia reabriu sua embaixada em Cabul e países da Ásia Central ampliaram relações comerciais com o Afeganistão.

Embaixador indicado pelo Talibã, Asadullah Bilal Karimi, apresenta credenciais ao presidente da China, Xi Jinping, em Pequim, em janeiro de 2024 | Foto: Abdul Qahar Balkhi/X
Embaixador indicado pelo Talibã, Asadullah Bilal Karimi, apresenta credenciais ao presidente da China, Xi Jinping, em Pequim, em janeiro de 2024 | Foto: Abdul Qahar Balkhi/X

A aproximação também chegou à Europa. Em junho de 2026, a União Europeia recebeu pela primeira vez uma delegação do Talibã em Bruxelas para uma reunião com representantes de 15 países do bloco, embora continue sem reconhecer formalmente o governo.

Para Francirosy, a normalização também passa pela perda de espaço do Afeganistão no debate público. Ela avalia que, depois da atenção concentrada no país em 2021, o tema perdeu visibilidade e voltou ao noticiário com mais força diante do marco dos cinco anos da retomada do poder.

"Eu penso que o mundo vai normalizar aquilo que a mídia não apresenta. Em 2021, eu dei 53 entrevistas sobre o Talibã. Depois, o tema foi se apagando e agora, quando chegamos aos cinco anos, a mídia retoma", afirma.
"O que a mídia oferece é o que as pessoas vão consumir. Então, esse silenciamento e essa normalização fazem a gente questionar qual é o papel da mídia", acrescenta.

A sensação de abandono também aparece no relato de Hosa. Ela conta que pessoas que antes prometiam trabalhar pela defesa dos direitos das mulheres deixaram o Afeganistão e que, hoje, boa parte desse apoio se resume a manifestações feitas à distância.

Dentro do país, as mulheres continuam submetidas às restrições do Talibã e têm pouco espaço para denunciar o que vivem. Hosa ressalta que aquelas que permaneceram estão expostas a riscos que quem critica o regime de fora já não enfrenta.

"Outra coisa muito dolorosa é que as pessoas que costumavam dizer que iriam nos ajudar, que iriam trabalhar pelos direitos das mulheres, todas elas se foram. Elas apenas postam, compartilham palavras e falam, mas não fazem nada para nos ajudar. Elas sabem que o Talibã não pode tocá-las, não pode alcançá-las", diz. Nós somos as que ficaram aqui."

Os sonhos que permanecem

Apesar de tudo o que perdeu, Hosa ainda tenta construir um futuro. Hoje, uma das principais fontes de apoio é o marido, que a incentiva a seguir uma carreira e abriu espaço para que ela trabalhe na empresa dele.

Ela diz encontrar o mesmo incentivo nos sogros e considera esse apoio fundamental para continuar fazendo planos. Em uma realidade marcada pela retirada de direitos das mulheres, a família se tornou uma das principais razões para que ela não abandone os próprios projetos.

"Eu ainda sonho muito. Me inscrevi novamente para uma bolsa e vou tentar estudar online se conseguir. Ainda estou sonhando em realizar todos os meus sonhos. Meus sonhos ainda não desmoronaram", afirma.

Ao final da entrevista, Hosa foi questionada sobre o que gostaria de dizer aos brasileiros que conheceriam sua história. A resposta partiu da experiência de ter visto planos que pareciam naturais — estudar, trabalhar e construir uma carreira — serem interrompidos de uma hora para outra.

Em vez de falar apenas sobre o que perdeu, ela escolheu dirigir a mensagem a quem ainda pode tomar essas decisões livremente. Pediu também que as pessoas não se esqueçam das mulheres afegãs que continuam no país.

"Eu gostaria de dizer que aproveitem a vida, estudem, trabalhem e consigam fazer tudo no tempo que desejarem. Espero que vocês não tenham nenhum 'eu gostaria' guardado no coração", diz. "Peço que orem por nós e sejam gratos por tudo o que têm."

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