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"Impedidos de viver": Joshua Strul relembra o Holocausto, 76 anos depois

Sobrevivente judeu, Strul deu entrevista ao SBT News pelo Dia Internacional da Lembrança do Holocausto

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Lis Cappi
27/01/2021, 09:00 • Atualizado em 30/10/2023, 22:04
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O campo de concentração Auschwitz-Birkenau, na Polônia, foi o maior local de extermínio durante o nazismo. Ao menos 1,1 milhão de mortes ocorreram no local | Foto: Lis Cappi / Arquivo Pessoal

O campo de concentração Auschwitz-Birkenau, na Polônia, foi o maior local de extermínio durante o nazismo. Ao menos 1,1 milhão de mortes ocorreram no local | Foto: Lis Cappi / Arquivo Pessoal

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"O céu ficou cinzento, uma tempestade intensa de neve caía. E nós ficamos esperando no frio, em um vento cortante. Por cinco horas em pé. Sem alimentos, sem água, sem nada". Com essas palavras, o sobrevivente do Holocausto Joshua Strul, hoje com 87 anos, conta como ele e a família aguardavam para embarcar em um trem que os levaria a um campo de concentração em 1942. Por sorte, ou como ele mesmo diz, intervenção divina, eles não embarcaram. Conseguiram sobreviver.

O mesmo não aconteceu com ao menos outras seis milhões de pessoas. Judeus, ciganos, homossexuais, negros, testemunhas de Jeová, deficientes e opositores políticos - em sua maioria comunistas - foram perseguidos. 

Em memória aos mortos neste período da história, 27 de janeiro foi adotado como o Dia Internacional da Lembrança do Holocausto. A data definida pela Organização das Nações Unidas, em 2005, levou em conta a libertação dos últimos presos do maior campo de extermínio do regime nazista: Auschwitz-Birkenau, na Polônia. Em 2021, comemoram-se 76 anos desse dia.
 

Joshua Strul ouviu relatos de libertos e soldados que estavam em Auschwitz. E conta nunca ter esquecido os horrores sobre câmaras de gás, frio e fome, que começavam antes mesmo do trajeto aos campos de concentração. "Dentro dos próprios vagões, ficavam quatro noites e três dias para chegar. Espremidos, fracos, velhos, sem ar e sem alimentos", conta. "Perderam toda a identidade de pessoas. Não eram chamados pelos nomes, eram tatuados com simples números".

Strul não foi para um campo. Mas passou dois anos em um gueto em Baciu, na Romênia, ao lado da família. Ele tinha 9 anos quando determinaram que o pai abandonasse a loja de cereais que tinha e a família deixasse a casa na cidade para viver com outros judeus em barracos cobertos por folhas.

"No verão, era um calor inclemente. Suávamos como em uma sauna. No inverno, um frio glacial. Tremendo até os ossos". O romeno conta ter passado os dois anos sem sair de dentro do barraco, após ter apanhado na rua por usar a estrela de David junto à roupa. "Quando viram que eu sou judeu, me cercaram e xingaram de porco e sujo. Me bateram. E, desde então, minha mãe não deixava mais sair".
 

"Tudo era proibido para nós. Foram dias de angústia, não sabíamos o que seria no futuro. Saber que amanhã poderíamos não estar mais vivos era a nossa angústia".


Strul chegou a perder um irmão de 2 anos por inanição e diz não esquecer dos momentos de necessidade que passou com a família. Tudo de uma hora para outra. "Meu pai sofreu um decreto do governo que declarava confisco para todas as lojas de judeus. Fomos despojados de todos os bens, e tínhamos 24 horas para deixar a cidade". 

Lembra também que a família só não morreu de fome porque a mãe, Rosa Strul, trabalhava na casa de uma família e conseguia levar cascas de alimentos para casa. "Ela cortava a casca grossa e trazia na bolsa. De volta em casa, cozinhava e fazia sopa para vivermos mais um dia". À época, o pai, Fisher Strul, foi separado da família de 7 filhos e obrigado a trabalhar em construções da guerra. Ele também sobreviveu. 
 

Hoje em São Paulo, após 54 anos no Brasil e uma família de quatro filhos e dez netos construída ao lado de Manuela Strul, 77, Joshua conta a sua história para garantir que a memória dos anos de dor não seja esquecida. "Fomos impedidos de viver, crescer, brincar, sonhar e amar. O meu relato é a voz de uma criança cuja infância foi roubada".

Ele ainda destaca a importância em se lembrar do tema para que nada semelhante ao que foi o nazismo ocorra novamente. "O que eu quero enfatizar é que o Holocausto não foi ao acaso ou aleatoriamente. Ele foi premeditado. Foi minuciosamente planejado. Por um governo legítimo escolhido pelo povo alemão e em nome da pureza racial". (Confira o vídeo com o depoimento no final).

 

Holocausto


O período entre 1941 e 1945 foi marcado pelo genocídio de nazistas contra judeus e outros grupos perseguidos. A intenção era erradicar a população judaica na Europa. O regime nazista foi encabeçado pelo ditador alemão Adolf Hitler. A Alemanha Nazista deixou de existir após o país ser derrotado em maio de 1945, no fim da Segunda Guerra Mundial.

O embaixador de Israel no Brasil, Yossi Shelley, reforça a importância em se recordar o período para que ele não caia no esquecimento. "Se você não lembra, não vai saber das consequências desse ato. Do genocídio que foi. Os jovens vão esquecer, por ser algo muito distante".

Yossi Shelley também lembra o papel que todos os países devem ter para a garantia da paz mundial. "O mundo tem que ser sério e não ser negligente como foi na Segunda Guerra Mundial, em que os judeus foram mortos e quase ninguém olhou para ajudar. Só 7 mil pessoas ajudaram judeus nessa época. Dois deles brasileiros. A comunidade internacional tem que enfrentar essa possibilidade agora e não deixar para o último momento", declarou.

 

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