Visita de assessor de Putin ao Brasil preocupa Ucrânia
Ao SBT News, chefe da representação ucraniana no Brasil destacou trajetória de Patrushev ligada à KGB e falou sobre Lula, Embraer, Brics e reconstrução do país
Caio Barcellos
Lula e Putin em reunião no Kremlin, em maio de 2025 | Divulgação/Ricardo Stuckert/PR
A Ucrânia recebeu “com preocupação” a visita ao Brasil de Nikolai Patrushev, assessor do presidente russo, Vladimir Putin, e vê com ressalvas as discussões mantidas durante a passagem do representante de Moscou pelo país sobre defesa, construção naval e energia nuclear.
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A avaliação foi feita pelo encarregado de Negócios da Embaixada da Ucrânia no Brasil, Oleg Vlasenko, que atualmente chefia a representação diplomática ucraniana no país, enquanto o posto de embaixador está vago, em entrevista ao site do SBT News nesta terça-feira (11).
Ao justificar a preocupação, o diplomata destacou a trajetória de Patrushev nos serviços de segurança soviético e russo, incluindo sua ligação com a KGB e, posteriormente, com o Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB), órgão que sucedeu parte das funções da antiga agência soviética.
“Nikolai Patrushev não é um negociador comum. Este senhor integrou o Serviço Federal da Segurança por décadas. O senhor sabe que é a nova edição do KGB. Como dizemos, não existem pessoas que algum dia trabalharam para o KGB e agora já não trabalham. Se alguma pessoa entrar, o KGB será o agente para toda a vida”, afirmou Vlasenko.
Patrushev é também o patriarca de uma das famílias mais influentes da elite política russa. Seu filho, Dmitry Patrushev, ocupa o cargo de vice-primeiro-ministro e é citado por analistas entre os nomes que podem ganhar espaço em uma eventual sucessão de Putin, embora o presidente russo não tenha indicado publicamente um sucessor.
O diplomata destacou que Patrushev está sob sanções dos Estados Unidos e da União Europeia e afirmou que o russo está “diretamente ligado às políticas que sustentam a agressão do regime russo” contra a Ucrânia.
Contudo, Vlasenko reconheceu que o Brasil tem o direito de manter canais de comunicação com Moscou, mas criticou o nível da recepção oferecida ao assessor de Putin.
“Claro que o Brasil tem o direito soberano de manter canais de diálogo até com o diabo, porque, de certa maneira, falamos de pessoas como essas. Mas uma recepção no mais alto nível, conversas sobre defesa, construção naval e energia nuclear levantam certas preocupações”, declarou.
Além da reunião fora da agenda oficial com Lula, Patrushev encontrou-se com o chefe da Assessoria Especial da Presidência, embaixador Celso Amorim; o ministro da Defesa, José Múcio; o comandante da Marinha, almirante Marcos Olsen; a secretária-geral das Relações Exteriores, Maria Laura da Rocha; o secretário-executivo do Ministério do Desenvolviemnto, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Rodrigo Zerbone Loureiro.
Diálogo com Lula e falta resultados concretos
Vlasenko afirmou que o encontro entre Lula e o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, durante a reunião do G7, em junho, deu “um novo impulso” ao diálogo entre os dois países.
Segundo ele, os dois presidentes combinaram que o Brasil atuaria diplomaticamente, inclusive por meio de contatos com os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
O diplomata afirmou, porém, que Kyiv ainda espera resultados mais concretos dessa articulação.
“Não temos nenhum retorno sobre o regime de Moscou”, disse. Vlasenko acrescentou que, na avaliação ucraniana, a Rússia intensificou os bombardeios contra o país desde então.
“Queremos ter resultados mais evidentes, mais concretos dessa conversação”, destacou.
Questionado se o governo brasileiro havia informado a Ucrânia sobre a conversa telefônica entre Lula e Putin durante a passagem de Patrushev pelo país, Vlasenko afirmou que não comenta comunicações diplomáticas reservadas.
Em publicação no X, Lula disse que a conversa com Putin tratou da ampliação da cooperação em energia, ciência e tecnologia e na área naval, do comércio bilateral, da guerra no Leste Europeu, do papel da ONU e do Brics e da candidatura de Michelle Bachelet à Secretaria-Geral das Nações Unidas.
Vlasenko citou, no entanto, um contato telefônico recente entre os chanceleres dos dois países no qual a Ucrânia abordou ataques russos contra navios civis no Mar Negro, seus efeitos sobre a liberdade de navegação e os riscos para a segurança alimentar mundial.
Ao avaliar o papel que Lula pode desempenhar nas negociações da guerra, Vlasenko destacou considerar útil que o presidente brasileiro tenha acesso direto a Putin, mas afirmou que a efetividade desse canal dependerá de resultados concretos. Entre os sinais citados estão a aceitação de um cessar-fogo, o fim dos ataques contra alvos civis, o retorno de crianças ucranianas levadas para a Rússia e a libertação de prisioneiros.
“É útil que o presidente Lula tenha acesso direto a Putin. Mas a ausência do líder russo nas negociações de Istambul, em maio de 2025, demonstrou os limites desse canal”, afirmou.
Na ocasião, nem Putin nem Zelensky participaram diretamente das negociações em Istambul. O presidente ucraniano havia viajado à Turquia e condicionado sua participação a um encontro pessoal com Putin, mas desistiu de seguir para as conversas em Istambul depois que Moscou confirmou que o líder russo não compareceria. A Rússia enviou uma delegação chefiada pelo assessor Vladimir Medinsky, enquanto a Ucrânia foi representada por uma equipe liderada pelo então ministro da Defesa, Rustem Umerov.
As conversas, as primeiras negociações diretas entre os dois países em mais de três anos, duraram menos de duas horas e terminaram sem acordo sobre um cessar-fogo. Os dois lados, porém, acertaram a troca de 1.000 prisioneiros de guerra de cada país e concordaram em continuar as discussões.
O Brasil tentou atuar antes do encontro, com uma ligação de Lula a Putin na véspera das negociações, na qual o presidente brasileiro defendeu que o líder russo viajasse à Turquia para se reunir pessoalmente com Zelensky.
Zelensky mantém o convite para que Lula visite a Ucrânia, e o ministro das Relações Exteriores ucraniano também convidou o chanceler Mauro Vieira. Segundo Vlasenko, porém, Brasília ainda não confirmou publicamente uma data para nenhuma das viagens.
“Uma ida a Kyiv permitiria abrir espaço para decisões concretas sobre a paz, comércio, investimentos e reconstrução do nosso país. A Ucrânia está pronta para receber ambos na data que for conveniente para a parte brasileira”, declarou.
Questionado sobre a possibilidade de o Brics exercer pressão sobre Moscou, Vlasenko demonstrou ceticismo. Segundo ele, os integrantes do grupo têm posições muito diferentes e não há um mecanismo capaz de produzir uma decisão comum sobre a guerra.
“Se mesmo na ONU não podemos chegar a uma decisão concreta entre os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, falar do papel do Brics, eu não vejo muitas perspectivas”, afirmou.
O lado ucraniano destaca que o Brics não dispõe de um mecanismo formal para adotar uma posição conjunta sobre o conflito e que, por isso, Kyiv vê mais espaço de atuação nas relações bilaterais entre Brasil e Rússia.
A visita de Patrushev ocorreu em meio a um movimento mais amplo de Moscou para ampliar a cooperação com países do Brics na área de drones.
Segundo informações divulgadas pela agência estatal russa Tass e citadas em reunião ministerial do bloco, a Rússia apresentou uma proposta de cooperação em sistemas aéreos não tripulados de uso civil, com possibilidade de desenvolvimento conjunto e compartilhamento de tecnologia em áreas como agricultura, logística, mapeamento e inspeção de infraestrutura.
A iniciativa chama atenção porque muitos dos componentes usados em drones civis também podem ter aplicação militar. Motores, controladores eletrônicos, sistemas de navegação, baterias, câmeras e estruturas de fibra de carbono, por exemplo, podem ser empregados tanto em equipamentos comerciais quanto em aeronaves utilizadas em combate. A sobreposição entre os dois mercados tornou as cadeias de fornecimento de drones um dos pontos mais sensíveis das sanções impostas à Rússia desde o início da guerra.
Nesse contexto, a aproximação com países que possuem capacidade industrial instalada, como o Brasil, passou a despertar atenção sobre a possibilidade de empresas locais entrarem, ainda que indiretamente, em cadeias de produção russas. O país possui fabricantes e fornecedores ligados ao mercado de drones civis, principalmente para aplicações agrícolas e de monitoramento.
Questionado pelo SBT News sobre um eventual interesse russo em incorporar produtos ou empresas brasileiras à cadeia de suprimentos militar, Vlasenko afirmou que, até agora, não há evidência verificável que permita acusar uma companhia brasileira específica de fornecer componentes para drones russos.
“Até o momento, não há evidência verificável que permitiria acusar uma empresa brasileira específica de fornecer componentes para os drones russos”, afirmou.
A Ucrânia analisa sistematicamente destroços de equipamentos utilizados nos ataques e acompanha rotas de reexportação e cadeias de produtos de uso dual, que podem ter tanto finalidade civil quanto militar.
Para o diplomata, porém, as informações sobre um possível interesse de Moscou no mercado brasileiro merecem ser acompanhadas.
“O nosso país analisa sistematicamente os destroços de drones, emissões e sabe que Moscou costuma obter componentes estratégicos intermediários. Reexportação ou cadeias de uso dual. Precisamente por isso as informações sobre um possível interesse russo merecem investigação, embora interesse não seja prova de fornecimento”, ponderou.
A preocupação ucraniana com cadeias de produção russas também envolve o complexo industrial de Alabuga, no Tartaristão, onde são fabricados drones utilizados pela Rússia na guerra.
O complexo se tornou um dos centros importantes da fabricação de drones Geran, versão russa dos Shahed de origem iraniana, utilizados em ataques contra a Ucrânia.
Vlasenko afirmou que há evidências públicas, disponíveis no próprio site do programa Alabuga Start, de que ao menos uma brasileira trabalha no local. Segundo ele, mais de 90% dos participantes do programa atuam no setor ligado à produção de drones.
O diplomata disse ainda que a Embaixada da Ucrânia levou formalmente o assunto ao conhecimento de autoridades federais e locais no Paraná em setembro de 2025. Na comunicação, a representação ucraniana também chamou atenção para a divulgação do Alabuga Start pelo cônsul honorário da Rússia em Curitiba e por páginas e influenciadores brasileiros.
Ucrânia já conversa com empresas brasileiras
Na área econômica, Vlasenko afirmou que a Ucrânia já mantém consultas preliminares com empresas brasileiras interessadas em oportunidades relacionadas à reconstrução do país.
“A Ucrânia quer transformar sua parceria estratégica com o Brasil em uma agenda prática de soluções digitais, habitação, geração da energia descentralizada através de geração local, como, por exemplo, logística e agroindústria. Também outro tema muito importante para nós é a desminagem e tecnologias de reconstrução”, declarou.
Na avaliação de Vlasenko, a proposta também está alinhada à estratégia brasileira de diversificar seus parceiros comerciais.
Kyiv pretende ainda reativar a Comissão Intergovernamental de Cooperação Econômica e Comercial entre os dois países e organizar uma carteira conjunta de projetos.
Super Tucano
O diplomata afirmou ainda que a Ucrânia já havia manifestado interesse no A-29 Super Tucano, fabricado pela Embraer, antes mesmo da invasão russa em larga escala. O avanço da guerra, porém, acrescentou uma nova possibilidade de emprego para a aeronave.
“A invasão e a campanha russa de terror contra nossas cidades e civis ucranianos criaram mais uma função para o A-29. Falamos da defesa contra drones, porque é um avião muito útil para essa defesa”, afirmou.
A declaração ocorre em um momento em que a própria Embraer busca ampliar o uso do Super Tucano em missões contra aeronaves não tripuladas. Em novembro de 2025, a fabricante brasileira de aeronaves anunciou novas capacidades para que o A-29 possa localizar, acompanhar e abater drones, diante da procura de países europeus por alternativas mais baratas aos caças e mísseis tradicionalmente empregados na defesa aérea.
A estratégia ganhou força na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) após episódios de incursões de drones russos no espaço aéreo de países-membros da aliança militar no Leste Europeu, como Polônia e Letônia. Os dois países avaliam o Super Tucano para missões de defesa contra drones, enquanto Portugal se tornou o primeiro operador da versão A-29N, adaptada aos padrões da Otan.
Como os drones podem custar apenas uma fração do valor dos mísseis usados para abatê-los, forças armadas europeias passaram a buscar alternativas mais baratas para enfrentar alvos lentos e de baixa altitude.
Nesse cenário, a Embraer tenta posicionar o Super Tucano como uma camada complementar da defesa aérea, com menor sofisticação que caças de última geração, mas com custos operacionais mais baixos em missões contra drones.
Visita de assessor de Putin ao Brasil preocupa UcrâniaAo SBT News, chefe da representação ucraniana no Brasil destacou trajetória de Patrushev ligada à KGB e falou sobre Lula, Embraer, Brics e reconstrução do paísEconomia2026-08-12T13:15:05.617ZA Ucrânia recebeu “com preocupação” a visita ao Brasil de Nikolai Patrushev, assessor do presidente russo, Vladimir Putin, e vê com ressalvas as discussões mantidas durante a passagem do representante de Moscou pelo país sobre defesa, construção naval e energia nuclear. 📲 Receba as principais notícias do Brasil e do mundo no seu WhatsApp! e siga o canal do SBT News. A avaliação foi feita pelo encarregado de Negócios da Embaixada da Ucrânia no Brasil, Oleg Vlasenko, que atualmente chefia a representação diplomática ucraniana no país, enquanto o posto de embaixador está vago, em entrevista ao site do SBT News nesta terça-feira (11). + Ao justificar a preocupação, o diplomata destacou a trajetória de Patrushev nos serviços de segurança soviético e russo, incluindo sua ligação com a KGB e, posteriormente, com o Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB), órgão que sucedeu parte das funções da antiga agência soviética. “Nikolai Patrushev não é um negociador comum. Este senhor integrou o Serviço Federal da Segurança por décadas. O senhor sabe que é a nova edição do KGB. Como dizemos, não existem pessoas que algum dia trabalharam para o KGB e agora já não trabalham. Se alguma pessoa entrar, o KGB será o agente para toda a vida”, afirmou Vlasenko. Patrushev é também o patriarca de uma das famílias mais influentes da elite política russa. Seu filho, Dmitry Patrushev, ocupa o cargo de vice-primeiro-ministro e é citado por analistas entre os nomes que podem ganhar espaço em uma eventual sucessão de Putin, embora o presidente russo não tenha indicado publicamente um sucessor. O diplomata destacou que Patrushev está sob sanções dos Estados Unidos e da União Europeia e afirmou que o russo está “diretamente ligado às políticas que sustentam a agressão do regime russo” contra a Ucrânia. Contudo, Vlasenko reconheceu que o Brasil tem o direito de manter canais de comunicação com Moscou, mas criticou o nível da recepção oferecida ao assessor de Putin. “Claro que o Brasil tem o direito soberano de manter canais de diálogo até com o diabo, porque, de certa maneira, falamos de pessoas como essas. Mas uma recepção no mais alto nível, conversas sobre defesa, construção naval e energia nuclear levantam certas preocupações”, declarou. Além da reunião fora da agenda oficial com Lula, Patrushev encontrou-se com o chefe da Assessoria Especial da Presidência, embaixador Celso Amorim; o ministro da Defesa, José Múcio; o comandante da Marinha, almirante Marcos Olsen; a secretária-geral das Relações Exteriores, Maria Laura da Rocha; o secretário-executivo do Ministério do Desenvolviemnto, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Rodrigo Zerbone Loureiro. Diálogo com Lula e falta resultados concretos Vlasenko afirmou que o encontro entre Lula e o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, durante a reunião do G7, em junho, deu “um novo impulso” ao diálogo entre os dois países. Segundo ele, os dois presidentes combinaram que o Brasil atuaria diplomaticamente, inclusive por meio de contatos com os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas. O diplomata afirmou, porém, que Kyiv ainda espera resultados mais concretos dessa articulação. “Não temos nenhum retorno sobre o regime de Moscou”, disse. Vlasenko acrescentou que, na avaliação ucraniana, a Rússia intensificou os bombardeios contra o país desde então. “Queremos ter resultados mais evidentes, mais concretos dessa conversação”, destacou. Questionado se o governo brasileiro havia informado a Ucrânia sobre a conversa telefônica entre Lula e Putin durante a passagem de Patrushev pelo país, Vlasenko afirmou que não comenta comunicações diplomáticas reservadas. Em publicação no X, Lula disse que a conversa com Putin tratou da ampliação da cooperação em energia, ciência e tecnologia e na área naval, do comércio bilateral, da guerra no Leste Europeu, do papel da ONU e do Brics e da candidatura de Michelle Bachelet à Secretaria-Geral das Nações Unidas. Vlasenko citou, no entanto, um contato telefônico recente entre os chanceleres dos dois países no qual a Ucrânia abordou ataques russos contra navios civis no Mar Negro, seus efeitos sobre a liberdade de navegação e os riscos para a segurança alimentar mundial. Ao avaliar o papel que Lula pode desempenhar nas negociações da guerra, Vlasenko destacou considerar útil que o presidente brasileiro tenha acesso direto a Putin, mas afirmou que a efetividade desse canal dependerá de resultados concretos. Entre os sinais citados estão a aceitação de um cessar-fogo, o fim dos ataques contra alvos civis, o retorno de crianças ucranianas levadas para a Rússia e a libertação de prisioneiros. “É útil que o presidente Lula tenha acesso direto a Putin. Mas a ausência do líder russo nas negociações de Istambul, em maio de 2025, demonstrou os limites desse canal”, afirmou. Na ocasião, nem Putin nem Zelensky participaram diretamente das negociações em Istambul. O presidente ucraniano havia viajado à Turquia e condicionado sua participação a um encontro pessoal com Putin, mas desistiu de seguir para as conversas em Istambul depois que Moscou confirmou que o líder russo não compareceria. A Rússia enviou uma delegação chefiada pelo assessor Vladimir Medinsky, enquanto a Ucrânia foi representada por uma equipe liderada pelo então ministro da Defesa, Rustem Umerov. As conversas, as primeiras negociações diretas entre os dois países em mais de três anos, duraram menos de duas horas e terminaram sem acordo sobre um cessar-fogo. Os dois lados, porém, acertaram a troca de 1.000 prisioneiros de guerra de cada país e concordaram em continuar as discussões. O Brasil tentou atuar antes do encontro, com uma ligação de Lula a Putin na véspera das negociações, na qual o presidente brasileiro defendeu que o líder russo viajasse à Turquia para se reunir pessoalmente com Zelensky. Zelensky mantém o convite para que Lula visite a Ucrânia, e o ministro das Relações Exteriores ucraniano também convidou o chanceler Mauro Vieira. Segundo Vlasenko, porém, Brasília ainda não confirmou publicamente uma data para nenhuma das viagens. “Uma ida a Kyiv permitiria abrir espaço para decisões concretas sobre a paz, comércio, investimentos e reconstrução do nosso país. A Ucrânia está pronta para receber ambos na data que for conveniente para a parte brasileira”, declarou. Questionado sobre a possibilidade de o Brics exercer pressão sobre Moscou, Vlasenko demonstrou ceticismo. Segundo ele, os integrantes do grupo têm posições muito diferentes e não há um mecanismo capaz de produzir uma decisão comum sobre a guerra. “Se mesmo na ONU não podemos chegar a uma decisão concreta entre os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, falar do papel do Brics, eu não vejo muitas perspectivas”, afirmou. O lado ucraniano destaca que o Brics não dispõe de um mecanismo formal para adotar uma posição conjunta sobre o conflito e que, por isso, Kyiv vê mais espaço de atuação nas relações bilaterais entre Brasil e Rússia. + Peças brasileiras para drones A visita de Patrushev ocorreu em meio a um movimento mais amplo de Moscou para ampliar a cooperação com países do Brics na área de drones. Segundo informações divulgadas pela agência estatal russa Tass e citadas em reunião ministerial do bloco, a Rússia apresentou uma proposta de cooperação em sistemas aéreos não tripulados de uso civil, com possibilidade de desenvolvimento conjunto e compartilhamento de tecnologia em áreas como agricultura, logística, mapeamento e inspeção de infraestrutura. A iniciativa chama atenção porque muitos dos componentes usados em drones civis também podem ter aplicação militar. Motores, controladores eletrônicos, sistemas de navegação, baterias, câmeras e estruturas de fibra de carbono, por exemplo, podem ser empregados tanto em equipamentos comerciais quanto em aeronaves utilizadas em combate. A sobreposição entre os dois mercados tornou as cadeias de fornecimento de drones um dos pontos mais sensíveis das sanções impostas à Rússia desde o início da guerra. Nesse contexto, a aproximação com países que possuem capacidade industrial instalada, como o Brasil, passou a despertar atenção sobre a possibilidade de empresas locais entrarem, ainda que indiretamente, em cadeias de produção russas. O país possui fabricantes e fornecedores ligados ao mercado de drones civis, principalmente para aplicações agrícolas e de monitoramento. Questionado pelo SBT News sobre um eventual interesse russo em incorporar produtos ou empresas brasileiras à cadeia de suprimentos militar, Vlasenko afirmou que, até agora, não há evidência verificável que permita acusar uma companhia brasileira específica de fornecer componentes para drones russos. “Até o momento, não há evidência verificável que permitiria acusar uma empresa brasileira específica de fornecer componentes para os drones russos”, afirmou. A Ucrânia analisa sistematicamente destroços de equipamentos utilizados nos ataques e acompanha rotas de reexportação e cadeias de produtos de uso dual, que podem ter tanto finalidade civil quanto militar. Para o diplomata, porém, as informações sobre um possível interesse de Moscou no mercado brasileiro merecem ser acompanhadas. “O nosso país analisa sistematicamente os destroços de drones, emissões e sabe que Moscou costuma obter componentes estratégicos intermediários. Reexportação ou cadeias de uso dual. Precisamente por isso as informações sobre um possível interesse russo merecem investigação, embora interesse não seja prova de fornecimento”, ponderou. A preocupação ucraniana com cadeias de produção russas também envolve o complexo industrial de Alabuga, no Tartaristão, onde são fabricados drones utilizados pela Rússia na guerra. O complexo se tornou um dos centros importantes da fabricação de drones Geran, versão russa dos Shahed de origem iraniana, utilizados em ataques contra a Ucrânia. Vlasenko afirmou que há evidências públicas, disponíveis no próprio site do programa Alabuga Start, de que ao menos uma brasileira trabalha no local. Segundo ele, mais de 90% dos participantes do programa atuam no setor ligado à produção de drones. O diplomata disse ainda que a Embaixada da Ucrânia levou formalmente o assunto ao conhecimento de autoridades federais e locais no Paraná em setembro de 2025. Na comunicação, a representação ucraniana também chamou atenção para a divulgação do Alabuga Start pelo cônsul honorário da Rússia em Curitiba e por páginas e influenciadores brasileiros. Ucrânia já conversa com empresas brasileiras Na área econômica, Vlasenko afirmou que a Ucrânia já mantém consultas preliminares com empresas brasileiras interessadas em oportunidades relacionadas à reconstrução do país. “A Ucrânia quer transformar sua parceria estratégica com o Brasil em uma agenda prática de soluções digitais, habitação, geração da energia descentralizada através de geração local, como, por exemplo, logística e agroindústria. Também outro tema muito importante para nós é a desminagem e tecnologias de reconstrução”, declarou. Na avaliação de Vlasenko, a proposta também está alinhada à estratégia brasileira de diversificar seus parceiros comerciais. Kyiv pretende ainda reativar a Comissão Intergovernamental de Cooperação Econômica e Comercial entre os dois países e organizar uma carteira conjunta de projetos. Super Tucano O diplomata afirmou ainda que a Ucrânia já havia manifestado interesse no A-29 Super Tucano, fabricado pela Embraer, antes mesmo da invasão russa em larga escala. O avanço da guerra, porém, acrescentou uma nova possibilidade de emprego para a aeronave. “A invasão e a campanha russa de terror contra nossas cidades e civis ucranianos criaram mais uma função para o A-29. Falamos da defesa contra drones, porque é um avião muito útil para essa defesa”, afirmou. A declaração ocorre em um momento em que a própria Embraer busca ampliar o uso do Super Tucano em missões contra aeronaves não tripuladas. Em novembro de 2025, a fabricante brasileira de aeronaves anunciou novas capacidades para que o A-29 possa localizar, acompanhar e abater drones, diante da procura de países europeus por alternativas mais baratas aos caças e mísseis tradicionalmente empregados na defesa aérea. A estratégia ganhou força na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) após episódios de incursões de drones russos no espaço aéreo de países-membros da aliança militar no Leste Europeu, como Polônia e Letônia. Os dois países avaliam o Super Tucano para missões de defesa contra drones, enquanto Portugal se tornou o primeiro operador da versão A-29N, adaptada aos padrões da Otan. Como os drones podem custar apenas uma fração do valor dos mísseis usados para abatê-los, forças armadas europeias passaram a buscar alternativas mais baratas para enfrentar alvos lentos e de baixa altitude. Nesse cenário, a Embraer tenta posicionar o Super Tucano como uma camada complementar da defesa aérea, com menor sofisticação que caças de última geração, mas com custos operacionais mais baixos em missões contra drones.São PauloSPSudestehttps://sbtnews.sbt.com.br/noticia/economia/visita-de-assessor-de-putin-ao-brasil-preocupa-ucrania
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