O que é o Zelle, o sistema de pagamento instantâneo dos EUA
Pix está sob a mira do governo americano; entenda as tensões por trás


Pagamento de boleto via QR-Code | Divulgação/Bacen
O Brasil tem o Pix. Os Estados Unidos têm o Zelle. Pelo menos é assim que a comparação costuma ser apresentada. Porém, ela esconde diferenças fundamentais que explicam por que o sistema americano, apesar de pioneiro, nunca teve a adesão em massa que o brasileiro conquistou em poucos anos.
Agora, o Pix está sob a mira dos EUA. A tensão ganhou novo capítulo nesta semana. Na segunda-feira, 1 de junho, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) concluiu uma investigação de quase um ano sobre supostas práticas comerciais desleais do Brasil e propôs a aplicação de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.
Entre os principais alvos do relatório: o Pix. O documento acusa o sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central de ser "injusto e discriminatório" com empresas americanas; entre as quais estão Visa, Mastercard e WhatsApp Pay.
Eduardo Bolsonaro defende o 'Zelle'
O sistema americano de transferências Zelle voltou ao debate público após ser defendido pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Em meio às tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos, uma declaração do parlamentar viralizou na rede social X nesta quinta-feira, 4, e levou seu nome aos assuntos mais comentados da plataforma.
No vídeo, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro sugere que mecanismos financeiros dos Estados Unidos "semelhantes ao Pix" poderiam servir como argumento em uma eventual negociação entre os dois países.
"Os Estados Unidos têm mecanismos muito semelhantes ao Pix, como, por exemplo, o Zelle, que é o Pix dos Estados Unidos, aqui é o Zelle. Então dá pra você ir pra uma mesa de negociação com os americanos com bons argumentos", disse Eduardo.
O que é o Zelle e como ele surgiu?
Para entender por que o Zelle está no centro dessa disputa, é preciso entender como ele funciona e por que o Pix incomoda tanto Washington.
O Zelle é um serviço de transferência instantânea entre pessoas (peer-to-peer, ou P2P) lançado em 2017 nos Estados Unidos. Ele permite enviar e receber dinheiro diretamente de uma conta bancária para outra, em minutos, a qualquer hora do dia — inclusive fins de semana e feriados.
Diferente de aplicativos como o Venmo ou o PayPal, o Zelle não funciona como uma carteira digital separada: o dinheiro sai diretamente da conta de quem envia e cai diretamente na conta do destinatário, sem nenhum saldo intermediário acumulado em um app.
Hoje, o serviço está integrado aos aplicativos de mais de 2.200 instituições financeiras nos Estados Unidos. Na prática, isso significa que a maioria dos americanos com conta em banco já tem acesso ao Zelle sem precisar baixar nada — basta acessar o próprio internet banking.
Quem controla o Zelle?
Essa é uma das diferenças mais importantes em relação ao Pix. Enquanto o Pix é administrado pelo Banco Central do Brasil — uma autoridade pública, com regras uniformes para todo o sistema financeiro —, o Zelle é operado por uma rede de bancos privados americanos.
Não há uma autoridade central pública por trás do Zelle. As regras de uso, as eventuais tarifas e as condições de acesso são definidas por cada instituição financeira parceira de forma independente. Isso torna a experiência do usuário menos padronizada e, em alguns casos, mais imprevisível.
Usar o Zelle tem custo?
Para a grande maioria dos usuários, não. De acordo com pesquisa do terceiro trimestre de 2024, 99,44% das contas correntes e de poupança vinculadas ao serviço não cobram taxas para enviar, receber ou solicitar dinheiro.
Mas há um detalhe relevante: essa isenção não é uma regra do sistema — é uma política de cada banco. O Pix brasileiro, por determinação do Banco Central, é obrigatoriamente gratuito para pessoas físicas em qualquer instituição. No Zelle, nada impede que um banco decida cobrar pelo serviço no futuro. É exatamente essa distinção — a gratuidade compulsória do Pix — que consta como um dos pontos de crítica no relatório do USTR.
Por que o Pix incomoda os Estados Unidos?
O relatório do USTR divulgado esta semana é direto: o Banco Central do Brasil exerce um "papel duplo" ao ser simultaneamente regulador e operador do Pix, o que, segundo o documento, "cria um conflito de interesses na ausência de salvaguardas processuais adequadas".
O órgão americano também aponta que, ao exigir que instituições financeiras participantes ofereçam o Pix gratuitamente e com destaque nos aplicativos, o Brasil estaria forçando empresas privadas (incluindo americanas) a promover seu concorrente direto sem contrapartida financeira.
A resposta do governo brasileiro veio rápida. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, refutou publicamente os argumentos: "O Pix não é pensado para ser um produto que vai concorrer e vai diminuir a presença na economia de empresas. Ao contrário, empresas norte-americanas mesmas têm nos dito, e a gente tem levado isso aos Estados Unidos, que o Pix aumentou as transações no país. Então, as empresas estão sendo beneficiadas."
O presidente Lula foi ainda mais categórico. Em evento realizado em abril, antes da conclusão da investigação, ele disse: "O Pix é do Brasil e ninguém vai fazer a gente mudar o Pix, pelo serviço que ele está prestando à sociedade brasileira."
O prazo para que o governo brasileiro e empresas afetadas se manifestem sobre o relatório final do USTR é 15 de julho de 2026, data em que os EUA poderão adotar "medidas corretivas" contra o Brasil.
Zelle e Pix são a mesma coisa?
Não. A comparação é compreensível, já que os dois são sistemas de transferência instantânea, mas as diferenças estruturais são profundas — e são essas diferenças que estão no centro da disputa comercial atual.
O Pix é uma infraestrutura pública e interoperável: qualquer pessoa com conta em qualquer banco, fintech ou cooperativa de crédito regulada pelo Banco Central pode enviar e receber Pix, independentemente de onde o destinatário tem sua conta.
A adesão foi obrigatória para todas as instituições com mais de 500 mil clientes desde o lançamento, em novembro de 2020. Em 2024, o Pix movimentou mais de R$ 17 trilhões e já responde por mais de 40% de todas as operações eletrônicas do país, superando cartões de débito e crédito somados.
O Zelle, por sua vez, depende de parcerias voluntárias com bancos específicos. Se o destinatário não tem conta em uma instituição parceira do Zelle, a transferência simplesmente não é possível. O Zelle também ainda não é amplamente aceito em transações comerciais. Seu uso é predominantemente pessoal, entre pessoas conhecidas, sem a penetração no varejo que o Pix conquistou no Brasil.
O Zelle é seguro?
O Zelle utiliza tecnologia segura e é um serviço legítimo. Mas há um ponto de atenção importante: ele oferece pouquíssima proteção ao consumidor em caso de fraude ou golpe.
O próprio site do Zelle recomenda usar o serviço apenas com pessoas de confiança e alerta que o sistema não deve ser utilizado quando "você não conhece a pessoa ou não tem certeza de que receberá o que pagou". Uma vez enviado o dinheiro, recuperá-lo é extremamente difícil — na prática, quase impossível na maioria dos casos.
Isso contrasta com o cartão de crédito nos Estados Unidos, onde a legislação federal limita a responsabilidade do consumidor a US$ 50 em casos de uso fraudulento.
Apps de pagamento P2P como o Zelle, o Venmo e o Cash App são classificados por especialistas financeiros como métodos de pagamento mais arriscados justamente por essa ausência de proteções robustas — não porque o serviço em si seja inseguro, mas porque o erro humano ou um golpe bem executado raramente tem solução.
Existe algo mais parecido com o Pix nos EUA?
Sim. Em 2023, o Federal Reserve lançou o FedNow, um sistema de pagamentos instantâneos que opera 24 horas por dia, sete dias por semana, entre bancos de todo o país. É o serviço que mais se aproxima do Pix em proposta e arquitetura.
O sistema tem inspiração no Pix, houve até um contato institucional com o Banco Central do Brasil para elaborar a ferramenta. Mas o FedNow enfrenta o mesmo obstáculo estrutural do Zelle: a adesão não é obrigatória.
Cada banco decide se vai ou não participar do sistema, e cada um pode definir suas próprias tarifas. O resultado é uma adoção muito mais lenta e fragmentada do que a que o Pix teve no Brasil.
O Venmo, de propriedade do PayPal, é especialmente popular entre jovens e tem uma interface social — os usuários podem compartilhar descrições dos pagamentos com amigos. Mas as transações não são tecnicamente instantâneas como as do Zelle ou do Pix, e o serviço é ainda mais restrito ao uso pessoal e informal.
Por que o Pix virou uma questão geopolítica?
O sucesso do Pix está incomodando muito além das empresas de pagamento. Ao criar uma infraestrutura pública, gratuita e de alta eficiência, o Brasil construiu um sistema que compete diretamente com redes privadas controladas por empresas americanas — Visa, Mastercard, PayPal —, que cobram entre 2% e 5% por transação dos comerciantes.
O modelo brasileiro está se espalhando pelo mundo. Índia, México e outros países emergentes observam o Pix como referência. Para o governo Trump, deixar o Pix crescer sem reação seria, na avaliação de analistas, dar um "efeito demonstração" para que outras nações sigam o mesmo caminho e reduzam a dependência de plataformas americanas.
O relatório do USTR vai além de uma disputa comercial. As menções ao Pix, segundo analistas, também podem municiar o Departamento do Tesouro americano em eventuais sanções a bancos brasileiros — ampliando o alcance da pressão muito além das tarifas sobre bens físicos.
O governo brasileiro tem até 15 de julho para apresentar sua resposta formal. O desfecho da negociação vai definir não apenas o futuro das relações comerciais entre os dois países, mas também o quanto um sistema de pagamentos público e soberano pode avançar num mundo em que as infraestruturas financeiras digitais se tornaram um campo de disputa entre nações.














