Maior empresa de transporte marítimo diz a brasileiros que cargas para o Oriente Médio serão deixadas em portos pelo caminho
MSC decretou ‘fim de viagem’ e informou que cobrará sobretaxa dos empresários; procurada, empresa não enviou resposta


Guilherme Seto
Empresas brasileiras exportadoras de carne foram avisadas pela MSC (Mediterranean Shipping Company), maior empresa de transporte marítimo de contêineres do mundo, de que cargas destinadas a portos do Golfo Árabe terão a viagem interrompida por causa da escalada da guerra no Oriente Médio.
O comunicado foi enviado a clientes da companhia, entre eles empresas associadas à Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes). Na mensagem, a MSC informa que está declarando “fim de viagem” (End of Voyage) para contêineres com destino à região.
Segundo o texto, cargas em trânsito serão descarregadas no porto seguro mais próximo, onde ficarão à disposição dos clientes. A companhia também informou que cobrará sobretaxa de US$ 800 (cerca de R$ 4,2 mil) por contêiner, além de repassar custos de descarga, manuseio e armazenagem aos donos da carga.
“Diante do atual cenário no Oriente Médio e dos recentes acontecimentos que tornaram o ambiente ainda mais sensível, a MSC lamenta informar que se vê obrigada a declarar fim de viagem”, afirmou a empresa em comunicado a clientes.
Exportadores dizem ter sido surpreendidos pela medida. Um empresário do setor de carnes que pediu para não ser identificado afirmou que nunca havia recebido comunicação semelhante.
“Nunca tinha recebido uma coisa desse jeito. ‘Fim de viagem’. Eles vão abandonar dois contêineres nossos em um porto que não avisaram e, se a gente quiser tirar de lá, ainda tem que pagar. Fiquei de cara com isso”.
Segundo ele, o caso foi encaminhado ao departamento jurídico da empresa, embora a expectativa seja de poucas alternativas diante das cláusulas do transporte marítimo.
A decisão ocorre em meio à escalada do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, que elevou o risco de navegação em rotas estratégicas do comércio global e já pressiona o frete marítimo internacional.
O presidente da Abiec, Roberto Perosa, diz que o setor já começa a observar impactos logísticos.
“Já começamos a observar impactos logísticos nas exportações brasileiras, com relatos de navios interrompendo rotas, cargas sendo desviadas para outros portos e dificuldades operacionais em corredores importantes como o Canal de Suez. Ainda não é um efeito generalizado, mas a situação preocupa porque o Oriente Médio funciona como um grande hub logístico para a carne bovina brasileira”, afirmou.
Segundo ele, o risco potencial para as exportações é relevante. “Em 2025, as vendas de carne bovina brasileira para o Oriente Médio somaram cerca de US$ 2 bilhões (R$ 10,6 bilhões), mas, considerando as cargas que transitam pela região, o volume potencialmente afetado pode chegar perto de US$ 6 bilhões (R$ 31,7 bilhões).”
Procurada, a MSC não respondeu aos questionamentos do SBT News até a publicação desta reportagem.









