Economia

Indústria reage à tarifa de 50% dos EUA sobre exportações do Brasil e cobra negociação urgente

Amcham e CNI pedem retomada do diálogo entre os governos para evitar prejuízos à economia dos dois países

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Gabriela Tunes
10/07/2025, 13:52 • Atualizado em 10/07/2025, 14:00
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Entidades industriais manifestam preocupação com tarifaço de Trump ao Brasil | Divulgação/Wilson Dias/Agência Brasil

Entidades industriais manifestam preocupação com tarifaço de Trump ao Brasil | Divulgação/Wilson Dias/Agência Brasil

Duas das principais entidades representativas do setor produtivo brasileiro, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), manifestaram preocupação com a decisão do governo dos Estados Unidos de elevar para 50% a tarifa sobre produtos brasileiros a partir de 1º de agosto (leia comunicados na íntegra mais abaixo). Medida foi anunciada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, nessa quarta (9).

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Para a CNI, a medida foi recebida com surpresa e preocupação e não encontra respaldo em fatos econômicos. Segundo a entidade, o aumento das tarifas pode gerar graves prejuízos à indústria brasileira, que mantém forte interdependência com o sistema produtivo norte-americano. "Os impactos podem ser severos para cerca de 10 mil empresas que exportam para os EUA", afirma o presidente da CNI, Ricardo Alban.

A confederação destaca que os Estados Unidos são o terceiro maior parceiro comercial do Brasil e o principal destino das exportações da indústria de transformação. Segundo levantamento interno, um terço das empresas brasileiras que exportam aos EUA já relatou impactos negativos, mesmo antes da entrada em vigor da nova tarifa.

Além disso, a CNI rebate a justificativa usada pela Casa Branca ao afirmar que, diferentemente do que foi divulgado, o Brasil aplica uma tarifa efetiva média de apenas 2,7% sobre produtos americanos, quatro vezes menor do que a taxa nominal mencionada junto à Organização Mundial do Comércio (OMC).

Já a Amcham Brasil, que representa empresas brasileiras e americanas e atua há mais de um século para fortalecer os laços entre os dois países, também fez um alerta. Em nota, a entidade classifica a decisão como uma ameaça ao equilíbrio das cadeias produtivas integradas e reforça que o comércio bilateral tem sido historicamente complementar e benéfico para ambos os lados, inclusive com superávit consistente a favor dos Estados Unidos nos últimos 15 anos.

A Amcham defende a retomada urgente de um diálogo construtivo entre os governos e pede uma solução negociada, baseada em racionalidade, previsibilidade e estabilidade. "É preciso preservar os vínculos econômicos e promover uma prosperidade compartilhada", afirma o texto.

As duas instituições convergem ao apontar que a ruptura nas relações comerciais pode impactar diretamente empregos, investimentos e o desempenho econômico tanto do Brasil quanto dos Estados Unidos.

Segundo a CNI, em 2024, cada R$ 1 bilhão exportado para o mercado americano gerou mais de 24 mil empregos no Brasil e R$ 3,2 bilhões em produção nacional.

Leia nota completa da CNI:

"A imposição de 50% de tarifas sobre o produto brasileiro por parte dos Estados Unidos foi recebida com preocupação e surpresa pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Para a instituição, a prioridade deve ser intensificar a negociação com o governo de Donald Trump para preservar a relação comercial histórica e complementar entre os países.

'Não existe qualquer fato econômico que justifique uma medida desse tamanho, elevando as tarifas sobre o Brasil do piso ao teto. Os impactos dessas tarifas podem ser graves para a nossa indústria, que é muito interligada ao sistema produtivo americano. Uma quebra nessa relação traria muitos prejuízos à nossa economia. Por isso, para o setor produtivo, o mais importante agora é intensificar as negociações e o diálogo para reverter essa decisão', avalia Ricardo Alban, presidente da CNI.

Brasil e Estados Unidos sustentam uma relação econômica robusta, estratégica e mutuamente benéfica alicerçada em 200 anos de parceria. Os EUA são o 3° principal parceiro comercial do Brasil e o principal destino das exportações da indústria de transformação brasileira. O aumento da tarifa para 50% terá impacto significativo na competitividade de cerca de 10 mil empresas que exportam para os Estados Unidos.

Resultados preliminares de consulta realizada pela CNI indicaram que um terço das empresas respondentes que exportam bens e/ou serviços aos EUA tiveram impactos negativos nos seus negócios. O levantamento foi realizado entre junho e o início de julho, ainda no contexto da tarifa básica de 10% e demais medidas comerciais setoriais.

A CNI reforça a importância de intensificar uma comunicação construtiva e contínua entre os dois governos. 'Sempre defendemos o diálogo como o caminho mais eficaz para resolver divergências e buscar soluções que favoreçam ambos os países. É por meio da cooperação que construiremos uma relação comercial mais equilibrada, complementar e benéfica entre o Brasil e os Estados Unidos', destaca Ricardo Alban.

Ao contrário da afirmação do governo dos Estados Unidos, o país norte-americano mantém superávit com o Brasil há mais de 15 anos. Somente na última década, o superávit norte-americano foi de US$ 91,6 bilhões no comércio de bens. Incluindo o comércio de serviços, o superávit americano atinge US$ 256,9 bilhões. Entre as principais economias do mundo, o Brasil é um dos poucos países com superávit a favor dos EUA.

A CNI aponta que a entrada de produtos norte-americanos no Brasil estava sujeita a uma tarifa real de importação de 2,7% em 2023, o que diverge da declaração da Casa Branca. A tarifa efetiva aplicada pelo Brasil aos Estados Unidos foi quatro vezes menor do que a tarifa nominal de 11,2% assumida no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC).

A tarifa afeta a economia americana. O relacionamento bilateral é marcado por complementariedade, isto é, o comércio bilateral é composto por fluxos intensos de insumos produtivos. Na última década, esses bens representaram, em média, 61,4% das exportações e 56,5% das importações brasileiras.

A forte integração econômica entre os dois países é evidenciada pelas 3.662 empresas americanas com investimentos no Brasil e pelas 2.962 empresas brasileiras com presença nos Estados Unidos. Os Estados Unidos foram o principal destino dos anúncios de investimentos greenfield brasileiro no mundo entre 2013 e 2023, concentrando 142 projetos de implantação produtiva.

As exportações brasileiras para os EUA têm grande relevância para a economia nacional. Em 2024, a cada R$ 1 bilhão exportado ao mercado americano foram criados 24,3 mil empregos, R$ 531,8 milhões em massa salarial e R$ 3,2 bilhões em produção no Brasil. Portanto, o aumento da tarifa de importação americana para 50% impacta diretamente a economia brasileira e abala a cooperação com os EUA."

Leia nota completa da Amcham Brasil:

"A Amcham Brasil manifesta profunda preocupação com a decisão anunciada pelo governo dos Estados Unidos de impor uma tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras, com vigência a partir de 1º de agosto. Trata-se de uma medida com potencial para causar impactos severos sobre empregos, produção, investimentos e cadeias produtivas integradas entre os dois países.

A relação bilateral entre Brasil e Estados Unidos sempre se pautou pelo respeito, pela confiança mútua e pelo compromisso com o crescimento conjunto. O comércio de bens e serviços entre as duas nações é fortemente complementar e tem gerado benefícios concretos para ambos os lados, sendo superavitário para os Estados Unidos ao longo dos últimos 15 anos — com saldo de US$ 29,2 bilhões em 2024, segundo dados oficiais norte-americanos.

A Amcham Brasil — que há mais de um século atua pelo fortalecimento dos laços econômicos entre os dois países — conclama os governos a retomarem, com urgência, um diálogo construtivo. Reiteramos a importância de uma solução negociada, fundamentada na racionalidade, previsibilidade e estabilidade, que preserve os vínculos econômicos e promova uma prosperidade compartilhada."

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