Economia

Guerra derruba demanda por petróleo ao pior nível desde a Covid-19

Projeção da AIE é ainda pior ao considerar que os bloqueios no Estreito de Ormuz se estenda por mais tempo

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Exame.com
21/04/2026, 20:04 • Atualizado em 21/04/2026, 20:04
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Ilustração mostra instalações de exploração de petróleo, bandeira do Irã e gráficos do mercado financeiro | Reuters/Dado Ruvic/Illustration

Ilustração mostra instalações de exploração de petróleo, bandeira do Irã e gráficos do mercado financeiro | Reuters/Dado Ruvic/Illustration

A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã está destruindo a demanda global por petróleo em velocidade comparável apenas aos lockdowns da pandemia. É o que aponta o relatório mensal da Agência Internacional de Energia (AIE).

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A entidade projeta queda de 1,5 milhão de barris por dia na demanda global no segundo trimestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior. É contração mais acentuada desde que a Covid-19 paralisou a economia mundial.

O impacto já é visível nos dados realizados: em março, o consumo global caiu 800 mil barris por dia na comparação com o mesmo mês de 2025. Em abril, com o bloqueio do Estreito de Ormuz se aprofundando, a estimativa salta para 2,3 milhões de barris por dia. Isso é quase três vezes o recuo de março e o pior resultado mensal desde o início de 2021.

Abril, porém, deve representar o pico da crise. No cenário base da AIE, uma retomada gradual dos fluxos pelo Estreito de Ormuz a partir de maio permitiria recuperação da demanda no segundo semestre, com crescimento de 70 mil barris por dia no terceiro trimestre e de 610 mil no quarto. O resultado líquido para o ano inteiro, nesse cenário, seria uma retração de 80 mil barris por dia. O número parece modesto, mas historicamente, é significativo.

Seria a primeira contração anual da demanda global desde a pandemia e uma virada brusca em relação à projeção de crescimento de 730 mil barris por dia que a própria AIE fez para 2026 no relatório de março.

O pior cenário

O cenário base da AIE depende de uma premissa frágil: que o Estreito de Ormuz volte a operar normalmente a partir de maio. Se o conflito se prolongar, o quadro muda radicalmente.

Nesse caso, a queda na demanda deixaria de ser um fenômeno concentrado no primeiro semestre para se estender pelo restante do ano. A destruição de consumo entre o segundo e o quarto trimestres chegaria a 5 milhões de barris por dia na comparação anual — mais de três vezes o impacto previsto no cenário base.

Para cobrir esse buraco, o mundo precisaria recorrer aos estoques em um ritmo de 6 milhões de barris por dia, o que resultaria no consumo de quase 2 bilhões de barris das reservas globais até dezembro.

A própria AIE classifica esse ritmo de consumo de estoques como insustentável e afirma que, nesse cenário, esforços adicionais de redução deliberada da demanda serão rapidamente necessários para equilibrar o mercado e evitar danos econômicos ainda mais profundos.

Por que a demanda cai

A destruição de demanda tem três motores simultâneos.

O primeiro é o choque físico: o bloqueio do Estreito de Ormuz interrompeu o fornecimento de insumos petroquímicos e de combustíveis para aviação em toda a Ásia e no Oriente Médio.

O segundo é o choque de preços: com o barril negociado a cerca de US$ 130, o encarecimento dos combustíveis comprime o consumo, especialmente nos países desenvolvidos, onde o repasse ao consumidor final é mais direto e rápido.

O terceiro é a deterioração macroeconômica. A AIE reduziu sua projeção de crescimento do PIB mundial para 3% em 2026, ante 3,4% estimado no mês anterior. Os três fatores se alimentam mutuamente: a guerra restringe a oferta, eleva os preços e deprime a economia.

Impacto no PIB global

O choque energético já se reflete nos principais indicadores econômicos. Nos Estados Unidos, o crescimento do PIB no quarto trimestre de 2025 foi revisado para uma taxa anualizada de 0,7% — menos da metade do 1,4% estimado anteriormente. O Federal Reserve, o Banco Central Europeu e o Banco da Inglaterra mantiveram as taxas de juros inalteradas em março, paralisados entre o risco de recessão e a volta da inflação.

Os rendimentos dos títulos do Tesouro americano de dez anos subiram para 4,4% — o maior nível em seis meses —, enquanto os yields dos bônus soberanos europeus atingiram máximas de vários anos. O relatório cita preocupações crescentes com estagflação em economias avançadas.

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