Economia

Bolsa surpreende em 2025 e bate a renda fixa mesmo com juros a 15%

Com expectativa de cortes na Selic em 2026, mercado espera continuidade dos ganhos: ações seguem 'baratas'

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Ibovespa: fechamento da curva de juros ajudou bolsa a manter ganhos | Cris Faga/NurPhoto/Getty Images

Ibovespa: fechamento da curva de juros ajudou bolsa a manter ganhos | Cris Faga/NurPhoto/Getty Images

O ano de 2025 foi marcado por um alto interesse na renda fixa — afinal, a Selic chegou a 15%, maior nível desde 2006. Entretanto, a renda variável surpreendeu: a bolsa bateu a renda fixa e não foi pouco. O Ibovespa vivenciou um rali, chegando a ficar muito próximo dos 170 mil pontos. Nesta última semana de 2025, ainda que meio distante da máxima do ano, acumula alta de mais de 30% desde janeiro.

O movimento não era óbvio. No final do ano passado, a bolsa estava na casa dos 120 mil pontos e falava-se de dólar a mais de R$ 6 em 2025, com o cenário fiscal preocupando o investidor e levando a uma migração para a renda fixa. Hoje, o momento é diferente. “Depois que acontece é fácil explicar os motivos do porquê aconteceu, mas essa alta não era tão óbvia”, diz Ricardo Peretti, estrategista de ações da Santander Corretora.

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Isso porque houve diversos momentos de 2025 que geraram aversão a risco. Um deles foi o Liberation Day, quando Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, taxou diversos países com tarifas de importação — incluindo o Brasil, que chegou a uma tarifa de 50% em uma extensa lista de produtos. Em paralelo, as contas públicas continuaram no centro das preocupações e medidas como a isenção do Imposto de Renda (IR), para quem ganha até R$ 5 mil, não foram bem aceitas pelo mercado de começo.

Os pontos foram se ajustando, em partes, mas não quer dizer que o investidor local começou a ver valor na bolsa de valores de fato. Na verdade, grande parte ainda está na renda fixa (como é possível visualizar nos números de fundos de renda fixa da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais — Anbima).

“O clima no ano passado não era de festa. Eu costumo chamar o que estamos passando agora de uma cortina de fumaça. Porque o que estamos vivenciando de indicadores macro e também na dinâmica do risco fiscal, não era para nossa bolsa ter tido essa performance”, afirma Matheus Amaral, especialista de renda variável do Inter.

Conforme o especialista, o movimento é contraintuitivo: bolsas nas máximas, mesmo com juro a 15%, o que pressiona resultado e a dinâmica das companhias, principalmente aquelas que estão mais alavancadas. Uma das coisas palpáveis que mostra isso é a falta de IPOs há 4 anos — com o último sendo em 2021.

O que levou a bolsa às alturas?

O que ajudou, de fato, foi a entrada do gringo. Segundo a consultoria Elos Ayta, o fluxo de investimento estrangeiro na bolsa até novembro de 2025 estava positivo em R$ 28,49 bilhões. Em 2024, houve um saldo negativo de R$ 24,2 bilhões. Sem considerar as ofertas subsequentes de ações (follow ons) que ocorreram este ano, o saldo anual até novembro está em R$ 27,35 bilhões.

Tal movimento aconteceu na esteira do enfraquecimento do dólar e do questionamento, ainda que parcial, do excepcionalismo americano, explica Daniel Utsch, gestor de renda variável da Nero Capital. Nesse momento, uma parte dos recursos começou a migrar dos Estados Unidos para países emergentes e, nesse combo, entrou o Brasil. “Um grãozinho de areia que o investidor global coloca aqui já faz uma diferença gigantesca.”

Somado a isso, o início da flexibilização do ciclo monetário dos EUA também colaborou para a saída de investimentos do país norte-americano para outros, principalmente emergente — novamente, como o Brasil. Em setembro, o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA), reduziu sua taxa de juros pela primeira vez em nove meses. De lá para agora, ela saiu da faixa de 4,25% a 4,50% para 3,50% a 3,75%. O corte aumenta o diferencial de juros com o Brasil, o que favorece também a entrada de capital por aqui, impulsionando bolsa e enfraquecendo dólar.

Outro motivo que colabora com a bolsa brasileira é a expectativa de corte de juros no Brasil.

“O mercado segue dividido entre janeiro ou março. Tivemos o dado do PIB do terceiro trimestre, que foi um pouco pior do que esperado, e os últimos dados de inflação, que têm vindo cada vez mais comportados, o que aumenta a expectativa. Não vai pegar ninguém de surpresa quando o Banco Central (BC) anunciar o corte”, pontua Peretti.

De acordo com o especialista do Santander, o que pode acontecer é que, dependendo da sinalização do BC, pode ser que os investidores fiquem um pouco mais convictos de que esse ciclo de corte de juros será mais longo, o que pode animar o mercado — no caso de 400 pontos-base (p.b.) de corte, a exemplo. Por outro lado, na primeira decisão, pode ocorrer uma realização, já que o corte está precificado.

E a bolsa segue barata. Para entender como um índice está “caro” ou “barato” é necessário olhar o “preço sobre lucro” (P/L). Soma-se todos os preços das ações e divide-se pelo lucro dessas mesmas ações (dado os devidos pesos de cada uma no Ibovespa). O resultado atual é 9,5x. Esse número, por sua vez, está abaixo da média histórica de 10,5x. Ou seja, ela ainda está mais de um desvio padrão abaixo.

Por fim, o último ponto que colabora para a alta do Ibovespa são os bons resultados trimestrais.

“Isso ajuda o investidor a ter uma vontade maior de investir, principalmente em empresas maiores, com mais capacidade de se reinventar e atravessar momentos mais difíceis. Elas conseguem ganhar mercado, conseguem crescer, porque tem bases mais sólidas, acesso a capital mais fácil, o que ajuda um pouco nesse período macro mais desafiador”, ressalta Pedro Rudge, diretor da Anbima.

E para 2026?

Quando somam-se os fatores acima (corte de juros nos EUA e no Brasil, junto com um externo sob controle), o resultado é um cenário moderado para a bolsa — pelo menos é o que pensa o banco Safra. Entre riscos e pontos positivos, o Ibovespa pode alcançar, ao final de 2026, os 198 mil pontos, escrevem Cauê Pinheiro, Carolina Carneiro, Yves Adam e Luana Nunes.

Em um cenário mais otimista, considerando um ambiente de juros mais baixos e um crescimento sustentável mais elevado, o que poderia levar o P/L para 12x, ao aplicar esse P/L-alvo aos lucros estimados para 2027, o Safra estima que o Ibov por chegar a 254 mil pontos até o final de 2026.

Já em um cenário conservador, considerando o inverso (um ambiente de juros mais altos e um crescimento sustentável mais baixo), o banco assume que poderá ter um aumento de 180 p.b. para 16,1% (de 14,3%), resultando em um múltiplo P/L-alvo de 6,4x. Aplicando esse P/L-alvo aos nossos lucros estimados para 2027, os analistas chegam a 136 mil pontos até o final de 2026.

“Apesar do cenário ainda favorável, as expectativas e incertezas em torno das eleições no Brasil podem impactar a perspectiva econômica de longo prazo. Além disso, o desconto dos múltiplos do Ibovespa em relação ao seu nível histórico é menor do que no início de 2025”, pontua a equipe.

Para enfrentar o cenário de 2026, os analistas selecionam nomes que combinem qualidade de ativos e de gestão, alavancagem controlada e algum potencial de crescimento, de modo a suportar a maior volatilidade esperada para o próximo ano. Entre as opções destacam-se: Gerdau (GGBR4), Rede D’Or (RDOR3), Copel (CPLE3), Motiva (MOTV3) e Telefônica Brasil (VIVT3).

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