Comprova

Novo mecanismo do Pix reforça combate a golpes e não afeta sigilo ou rotina dos usuários

MED 2.0 rastreia apenas transações suspeitas após a contestação da vítima e não tem relação com a Receita Federal, o monitoramento fiscal ou impostos

P
Projeto Comprova
27/11/2025, 22:04 • Atualizado em 27/11/2025, 22:04
compartilhar
Novo mecanismo do Pix reforça combate a golpes e não afeta sigilo ou rotina dos usuários

O Comprova analisou publicações no X que alegam que “toda e qualquer transação” realizada via Pix passará a ser rastreada pelo Banco Central. Uma dessas postagens é um vídeo da GloboNews, editado por um perfil de notícias, de direita, com 430 mil seguidores, no qual a comentarista Rosana Cerqueira afirma, de fato, que “toda e qualquer transferência via Pix será monitorada”. No telejornal, porém, a frase aparece em uma explicação sobre golpes e o funcionamento do Mecanismo Especial de Devolução (MED 2.0), que prevê o acompanhamento do caminho do dinheiro apenas após uma contestação formal da vítima.

SBT News Logo

Acompanhe o SBT News nas TVs por assinatura Claro (586), Vivo (576), Sky (580) e Oi (175), via streaming pelo +SBT, Site e YouTube, além dos canais nas Smart TVs Samsung e LG.

Siga no Google Discover

O recorte viral, porém, retira o trecho do contexto original, que era exclusivamente sobre fraudes já em andamento e sobre o rastreamento limitado ao caso denunciado, e o apresenta como se o Banco Central fosse monitorar todas as operações do Pix de maneira permanente. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL) compartilhou o material editado e escreveu que “um tal de Nikolas aí então tinha razão”, sugerindo que as mudanças anunciadas agora confirmam o que ele afirmou em um vídeo gravado em janeiro de 2025, quando a Receita Federal publicou a Instrução Normativa nº 2.219/2024.

Comprova Explica: Publicações voltaram a associar o Pix à ideia de vigilância fiscal e de cobrança de impostos, repetindo argumentos já desmentidos no início do ano. Por isso, este Comprova Explica se concentra em responder quatro perguntas centrais: o que foi a norma da Receita que gerou polêmica em janeiro; o que Nikolas disse na época; o que está mudando agora com o Banco Central; e se é correto afirmar que o anúncio atual confirma as previsões do deputado.

O que foi a Instrução Normativa e o que ela mudava em relação ao Pix?

A Instrução Normativa nº 2.219/2024 foi publicada pela Receita Federal em setembro de 2024 e entrou em vigor em 1º de janeiro de 2025. O texto tinha como objetivo atualizar a chamada e-Financeira, sistema pelo qual instituições financeiras e de pagamento enviam, desde os anos 2000, informações consolidadas sobre operações de seus clientes para fins de prevenção a crimes financeiros, como lavagem de dinheiro.

Na prática, a norma ampliava o grupo de instituições obrigadas a prestar essas informações, incluindo bancos digitais, operadoras de cartão, carteiras eletrônicas e empresas que processam pagamentos, além de ajustar os valores mínimos que passariam a ser comunicados. Para pessoas físicas, seriam enviados à Receita apenas os valores totais movimentados no mês quando o montante superasse cinco mil reais; para pessoas jurídicas, a comunicação ocorreria a partir de quinze mil reais mensais.

Esses dados seriam sempre agregados, informados em forma de valores globais por cliente, sem identificação de cada transferência. O texto mantinha a proibição de incluir qualquer informação que indicasse a origem ou o destino dos recursos, como nomes, CPFs ou detalhes de transações específicas. Em entrevistas à época, a Receita Federal e especialistas ouvidos por veículos como o Estadão reafirmaram que a instrução não criava imposto, não taxava o Pix, não alterava o funcionamento do sistema de pagamento e não rompia o sigilo bancário.

Mesmo assim, o conteúdo da norma foi interpretado nas redes como uma tentativa de monitorar diariamente as movimentações dos usuários do Pix e de pavimentar uma suposta taxação sobre transferências. Diante da repercussão, o governo revogou a instrução em 15 de janeiro de 2025. Com isso, voltaram a valer as regras anteriores, mais restritas, que já previam o envio de informações consolidadas apenas por bancos tradicionais, com limites mais baixos, mas sem qualquer acesso individualizado a extratos ou a detalhes de Pix.

Em agosto, a Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal em parceria com o Ministério Público de São Paulo, revelou como o crime organizado utilizou brechas na fiscalização para lavar dinheiro ilícito por meio de fundos de investimento em fintechs. Com isso, a Receita voltou a ampliar o dever de informar transferências. A medida está em vigor atualmente.

O que Nikolas Ferreira afirmou em janeiro de 2025?

No vídeo publicado em suas redes no início de janeiro, Nikolas Ferreira afirmou que o “governo Lula vai monitorar seus gastos com cartão de crédito e Pix” e que qualquer pessoa que movimentasse mais de R$ 5 mil por mês passaria a “entrar na mira da Receita”. Ele citou exemplos de trabalhadores informais, como ambulantes, motoristas de aplicativo e entregadores, e disse que essas pessoas seriam tratadas como “grandes sonegadores”.

O deputado também sugeriu que a medida abriria caminho para a taxação do Pix, que haveria quebra de sigilo bancário e que microempreendedores individuais poderiam ser obrigados a pagar alíquotas de até 27,5% de Imposto de Renda, o que tornaria “impossível sobreviver”. Em outro trecho, afirmou que o objetivo das mudanças seria “arrecadar mais impostos” e que, diante da fiscalização, muitos brasileiros voltariam a usar apenas dinheiro vivo para não serem vigiados pelo governo.

À época, o Estadão Verifica classificou o vídeo como enganoso. A checagem destacou que a instrução da Receita não criava nenhum tributo, não permitia identificar remetentes e destinatários de Pix, não eliminava o sigilo bancário e não determinava, por si só, mudanças na forma como a Receita analisa obrigações de Imposto de Renda de pessoas físicas ou de microempreendedores. A confusão entre envio de dados agregados para fins de monitoramento de crimes financeiros e vigilância individual de usuários contribuiu para a polêmica que acabou levando à revogação da norma. Contatado por e-mail, o deputado não respondeu ao Comprova até a publicação deste Explica.

O que está mudando agora no Banco Central e o que é o MED 2.0?

O vídeo da comentarista Rosana Cerqueira, utilizado na postagem do deputado, não se referia à medida da Receita. Rosana falava da resolução BCB nº 493 e de um anúncio do Banco Central, divulgado em agosto de 2025, sobre o aprimoramento do Mecanismo Especial de Devolução do Pix, o MED. Criado para permitir a devolução de valores em casos de fraude ou falha operacional, o mecanismo ganhou uma nova versão, chamada MED 2.0, detalhada em nota à imprensa e em documentos técnicos do BC.

Pelo MED atual, os bancos já podem bloquear a conta que recebeu o Pix fraudulento, mas enfrentam dificuldade quando o dinheiro é rapidamente transferido para outras contas — estratégia comum entre golpistas, que usam várias camadas de “contas de passagem” para dificultar o retorno do valor original. O MED 2.0 cria um circuito obrigatório de rastreamento entre todas as instituições participantes do Pix, permitindo que, após a vítima registrar a contestação no aplicativo do banco, seja possível reconstruir o caminho do dinheiro, identificar contas usadas no golpe e tentar bloquear saldos remanescentes. Esse rastreamento só ocorre após a vítima acionar formalmente o mecanismo. O Banco Central não passa a monitorar transações rotineiras nem tem acesso à movimentação de usuários fora desses casos de fraude.

Em resposta por e-mail ao Comprova, o BC afirmou que o MED 2.0 “não altera o sigilo bancário”, “não modifica o funcionamento cotidiano do Pix” e “não tem qualquer relação com fiscalização tributária, Receita Federal ou cobrança de impostos”. O órgão esclareceu que o sistema serve exclusivamente para combater golpes, aumentar as chances de recuperação de valores e desestimular a atuação de criminosos que se aproveitam da velocidade do Pix. A implementação começa de forma facultativa em novembro de 2025 e se torna obrigatória para todas as instituições do Pix em fevereiro de 2026.

Como o vídeo da GloboNews foi usado para sustentar a ideia de que “toda transação será monitorada”, o Comprova transcreve abaixo o trecho completo da fala exibida no telejornal, para que o leitor possa verificar o contexto original:

“Por exemplo, neste caso, a pessoa faz uma compra nas redes sociais, na internet, paga pelo Pix, mas não recebe o produto e nunca mais consegue falar com a empresa. Neste caso, o dinheiro do Pix fica muito pouco tempo na conta bancária que recebe o Pix. Aí vem o golpe. Quando a pessoa pede a devolução no aplicativo do banco, o dinheiro já foi transferido para outra conta.”

No telejornal, Rosana descrevia exclusivamente o funcionamento do MED após um golpe ser reportado, e não o monitoramento permanente do Pix. O recorte que viralizou omite essa explicação e apresenta a frase como se se referisse ao uso comum do Pix, distorcendo o sentido da reportagem e dando a entender que todas as operações passariam a ser rastreadas, o que não corresponde ao texto da resolução, à nota oficial do BC ou ao funcionamento real do MED 2.0.

Há relação jurídica ou operacional entre a instrução da Receita e o mecanismo antifraude do Banco Central?

Para esclarecer as diferenças entre as duas medidas, o Comprova entrevistou Bruno Barbosa Miragem, professor de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Núcleo de Estudos em Direito e Sistema Financeiro. O especialista afirmou que a instrução da Receita e a resolução do Banco Central tratam de problemas distintos e não têm conexão jurídica ou operacional.

Segundo Miragem, a instrução normativa, revogada e posteriormente reinstaurada, estabelece um dever de reportar ao governo, por meio da e-Financeira, informações agregadas sobre operações financeiras realizadas pelos clientes de instituições como bancos, seguradoras, operadoras de planos de previdência, fintechs e empresas de pagamento. A finalidade é permitir que o Estado acompanhe movimentações globais e identifique possíveis crimes financeiros cometidos pelos próprios usuários do sistema.

Já a nova resolução do Banco Central impõe às instituições financeiras e de pagamento um conjunto de deveres internos de monitoramento e de bloqueio de operações atípicas no âmbito do sistema de pagamento instantâneo, em especial o Pix. O objetivo é proteger os usuários de golpes e fraudes, evitando que sejam vítimas, exigindo que os bancos identifiquem padrões suspeitos, emitam alertas aos clientes e, em determinados casos, impeçam a conclusão de transferências arriscadas. Esse monitoramento é realizado nas instituições financeiras e não implica o envio de novas informações a órgãos de fiscalização.

“Isso (as declarações de Nikolas Ferreira) é absolutamente incorreto. São medidas com finalidades diferentes e procedimentos completamente distintos. Em síntese, a instrução normativa da Receita Federal, revogada, buscava prevenir e investigar crimes que podem ser cometidos pelos usuários do sistema financeiro, por seu intermédio, daí pretendendo dar conhecimento aos órgãos de Estado sobre as operações financeiras realizadas. A resolução do Banco Central visa proteger esses mesmos usuários de golpes e fraudes em expansão, impondo às instituições financeiras e de pagamento deveres de monitorar e prevenir essas operações internamente, sem necessidade de reportar novas informações a órgãos de fiscalização”, disse o professor.

As mudanças atuais significam que todas as transações via Pix serão rastreadas?

De acordo com o Banco Central, não. O órgão enfatizou, em resposta ao Comprova, que o MED 2.0 parte sempre de uma contestação feita pela vítima e que o rastreamento ocorre apenas nas transações suspeitas relacionadas a esse episódio. Não há monitoramento preventivo de todas as operações, nem acesso automático às informações sobre quem paga e quem recebe em cada Pix.

Isso significa que o usuário que utiliza o Pix no dia a dia, para pagar contas, transferir dinheiro a familiares ou receber o salário, não passa a ter suas transações acompanhadas pelo Banco Central devido ao novo mecanismo. O que muda é a chance de recuperar valores quando a pessoa cai em um golpe e aciona o sistema pelas vias oficiais.

As mudanças criam imposto ou abrem caminho para a tributação do Pix?

A Constituição Federal veda a cobrança de tributos sobre movimentações financeiras, e qualquer alteração nesse sentido exigiria uma emenda constitucional. Em janeiro, a própria Receita Federal chegou a divulgar uma nota afirmando que “não cobra e jamais vai cobrar impostos sobre transações feitas via Pix”. Agora, o Banco Central esclareceu que o MED 2.0 não tem nenhuma relação com a tributação, com a Receita ou com o monitoramento fiscal de pessoas físicas e jurídicas.

Ao associar o anúncio do mecanismo antifraude a um suposto plano de taxar o Pix ou de vigiar todas as transações, as publicações misturam informações de momentos distintos e atribuem à medida um alcance que ela não tem, segundo as respostas oficiais e a análise dos especialistas consultados.

Por que as pessoas podem ter acreditado?

A publicação analisada utiliza uma tática comum em casos de desinformação política: tirar eventos de contexto, isto é, usar fatos novos para dar a impressão de que previsões já refutadas teriam se concretizado. No caso, o deputado relaciona o anúncio do mecanismo antifraude do Pix (MED 2.0), feito pelo Banco Central, a uma instrução normativa da Receita Federal que já havia sido revogada, sugerindo que a previsão de “monitoramento e taxação do Pix” teria se confirmado. Isso constitui uma falsa equivalência: as medidas são de órgãos diferentes, têm propósitos distintos (um voltado à segurança contra fraudes, outro à fiscalização tributária) e não há relação operacional entre si.

Além disso, há manipulação emocional ao insinuar que o governo está ampliando a vigilância sobre o cidadão comum, apelando ao medo de perda de privacidade e ao receio de ser taxado injustamente. Tal narrativa, reforçada por cortes de vídeo e legendas sensacionalistas produzidas por perfis desinformativos, explora o viés de confirmação em públicos já desconfiados do governo ou críticos às políticas fiscais. A tática busca consolidar uma imagem de coerência e de “antevisão dos fatos” por parte do político, mesmo que os dados oficiais e os especialistas refutem essa interpretação.

Fontes consultadas: O Comprova consultou documentos oficiais, entrevistas com especialistas e checagens já publicadas por outros veículos. Entre as fontes, estão a Instrução Normativa nº 2.219/2024 e a nota da Receita Federal sobre sua revogação; a resolução BCB Nº 493, a nota do Banco Central “BC aprimora o Mecanismo Especial de Devolução do Pix”, de 28 de agosto de 2025, e os documentos técnicos do MED 2.0 disponibilizados no site da instituição (1, 2 e 3); entrevista com Bruno Barbosa Miragem, professor da UFRGS e integrante do Núcleo de Estudos em Direito e Sistema Financeiro e a checagem do Estadão Verifica sobre o vídeo de Nikolas Ferreira publicado em janeiro.

Por que o Comprova explicou este assunto: O Comprova, grupo formado por 42 veículos de imprensa brasileiros para combater a desinformação, monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Quando detecta, nesse monitoramento, um tema que está gerando muitas dúvidas e desinformação, o Comprova Explica. O SBT e SBT News fazem parte dessa aliança. Desconfiou da informação recebida? Envie sua denúncia, dúvida ou boato pelo WhatsApp 11 97045-4984.

Investigação e verificação: GZH participaram desta investigação. A revisão das informações foi realizada pelos veículos O Dia, Gazeta, Estadão e Folha de SP.

Para se aprofundar mais: O Comprova já verificou outros conteúdos que exploravam desinformação sobre o Pix. Em setembro de 2025, o projeto explicou que uma norma direcionada a fintechs não criava imposto e apenas igualava obrigações já existentes para bancos tradicionais. Em julho, analisou rumores de que Donald Trump pretendia “taxar o Pix”. O Estadão Verifica também já checou o vídeo publicado por Nikolas Ferreira em janeiro e concluiu que as alegações de monitoramento individual, taxação do Pix e quebra de sigilo bancário eram enganosas.

Leia mais

Ver tudo
Imagem da notícia: Líder do Irã diz que assinatura de Trump não tem valor

Líder do Irã diz que assinatura de Trump não tem valor

Imagem da notícia: Dois militares dos EUA são mortos em ataque do Irã

Dois militares dos EUA são mortos em ataque do Irã

Imagem da notícia: Filho reconhece corpo de cozinheira desaparecida em SP

Filho reconhece corpo de cozinheira desaparecida em SP

Imagem da notícia: Xamãs peruanos preveem vitória da Argentina na final da Copa

Xamãs peruanos preveem vitória da Argentina na final da Copa

Imagem da notícia: Líder do Irã diz que assinatura de Trump não tem valor

Líder do Irã diz que assinatura de Trump não tem valor

Imagem da notícia: Dois militares dos EUA são mortos em ataque do Irã

Dois militares dos EUA são mortos em ataque do Irã

Imagem da notícia: Filho reconhece corpo de cozinheira desaparecida em SP

Filho reconhece corpo de cozinheira desaparecida em SP

Imagem da notícia: Xamãs peruanos preveem vitória da Argentina na final da Copa

Xamãs peruanos preveem vitória da Argentina na final da Copa

Últimas notícias

Queda de avião de pequeno porte deixa dois mortos no TO

Piloto sobreviveu ao acidente ocorrido logo após a decolagem, na zona rural da capital do Tocantins; um casal morreu

Flávio reafirma defesa do fim da reeleição para presidente

Senador voltou a defender a proposta durante evento do PL no Espírito Santo e disse que a meta é "entregar o país em 2030 menos dependente de político"

Ataques ucranianos com drones matam sete pessoas na Rússia

Vítimas eram funcionários de armázem; dezenas ficaram feridos; outro ataque provocou um incêndio em um depósito de petróleo

Irã ataca aliados dos EUA no Golfo Pérsico e Jordânia

Ofensiva acontece após sétima noite de bombardeios dos EUA a alvos militares

Ataque a tiros em estabelecimento deixa 2 mortos no Paraná

Imagens mostram pessoa encapuzada realizando os disparos; uma mulher foi presa e a polícia procura o atirador

TJ-SP nega pedido de habeas corpus de Deolane, diz advogado

Segundo a defesa, o tribunal entendeu que não havia motivos para substituir a prisão preventiva por domiciliar