Brasil

Mulheres são maioria das vítimas de crimes cometidos por CACs em SP

Em 15 anos, 57% dos casos de crimes com colecionadores de armas no estado tiveram mulheres como alvos

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Flavia Travassos, Victor Ferreira
10/06/2025, 00:22 • Atualizado em 10/06/2025, 00:22
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Nayara dos Santos Fonseca, de 27 anos, perdeu a vida em 17 de agosto de 2024. Para os pais dela, foi também o dia em que perderam a vontade de seguir em frente. Nayara foi morta a tiros pelo ex-namorado em Boituva, no interior de São Paulo. Alan Douglas Ferreira do Nascimento foi preso. Ele era registrado como CAC — Colecionador, Atirador Desportivo e Caçador — e, por isso, tinha permissão para ter arma.

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"Vencida, e com a medida protetiva. Tinha antecedente criminal, então, não era nem pra ter conseguido o CAC", diz a mãe da vítima.

O ex-companheiro de Elaine Castro, de 53 anos, também era CAC. Em março deste ano, ela foi assassinada por ele, que não aceitava o fim do relacionamento. O homem foi detido, e já havia sido condenado 12 anos antes por matar outra ex-namorada.

As mulheres são as principais vítimas de crimes violentos envolvendo colecionadores de armas no estado de São Paulo. Em mais da metade dos casos — 57% dos 673 registros entre 2010 e o primeiro trimestre de 2025 — as vítimas foram mulheres. 60% crimes aconteceram dentro de casa. Os dados foram obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação.

Em 2023, quase 4 mil mulheres foram assassinadas no Brasil. Dessas, 49,4% foram mortas com armas de fogo, segundo dados do Ministério da Saúde.

"Quanto maior o acesso à arma, sobretudo uma arma que fica guardada dentro de casa, maior o risco de violência contra a mulher, violência baseada em gênero", afirma Cristina Neme, coordenadora de projetos do Instituto Sou da Paz.
"A arma de fogo é um fator que agrava o risco de morte dessas vítimas. Como hoje temos um número maior de CACs registrados e com muitas armas à disposição, esse risco também se reflete na violência contra a mulher”, complementa Neme.

A região Nordeste concentra a maioria dos crimes em que mulheres são vítimas de CACs, com 63% dos casos. Em seguida estão as regiões Norte (49,3%), Sul (45,5%), Centro-Oeste (38%) e Sudeste (36,9%).

A partir de 1º de julho, a responsabilidade pela concessão do registro de CACs deixa de ser do Exército e passa para a Polícia Federal. Para especialistas, é preciso um controle mais rigoroso sobre quem pode se tornar um colecionador de armas.

“O controle é também em relação ao portador, à sua ficha, à sua condição psicológica de adquirir a arma. Isso tudo é um processo que tem que ser feito de forma bastante cuidadosa pelas instituições”, afirma Cristina. “Não pode parar na mão de qualquer um”.

A mãe de Nayara resume o sentimento de quem perdeu uma filha para a violência armada: “Arma não protege, arma foi feita pra quem sabe usá-la: polícia.”

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