Hanseníase: reconhecer sintomas ajuda a evitar sequelas e reduzir transmissão, diz especialista
Dados do Ministério da Saúde mostram que Brasil registrou mais de 22 mil novos casos da doença em 2024


Naiara Ribeiro
A hanseníase é uma doença infecciosa que ainda faz parte da realidade de saúde pública no Brasil. Apesar de ter tratamento e cura, milhares de casos continuam sendo registrados todos os anos no país. A evolução lenta da doença, aliada ao desconhecimento sobre os sintomas e ao preconceito histórico associado à infecção, contribui para que muitos pacientes demorem a procurar atendimento.
Dados do Boletim Epidemiológico de Hanseníase, divulgado pelo Ministério da Saúde em janeiro de 2026, mostram que entre 2015 e 2024 foram registrados 301.485 casos da doença no Brasil. Desse total, 79% correspondem a novos diagnósticos.
Somente em 2024, o país identificou 22.129 casos novos, com taxa de detecção de 10,41 registros para cada 100 mil habitantes. No mesmo ano também foi observada a maior proporção de recidivas do período analisado. O levantamento também mostra que a maior proporção de casos identificados por meio do exame de contatos ocorreu em 2024, quando esse tipo de investigação representou 13,3% dos registros.
Doença pode levar anos para apresentar sintomas
A hanseníase é causada pela bactéria Mycobacterium leprae e costuma ter evolução lenta. Em muitos casos, o período entre a infecção e o aparecimento dos primeiros sinais pode levar anos, o que favorece a transmissão antes do diagnóstico.
Segundo a dermatologista Elisabeth Lima, especialista em hanseníase pela Sociedade Brasileira de Hansenologia, ampliar o acesso à informação é um passo importante para reduzir a transmissão e combater o estigma associado à doença.
“A informação correta combate mitos históricos e estimula a população a reconhecer sinais precoces da doença. Qualquer pessoa pode ter a doença, então, quanto maior o conhecimento, mais cedo ocorre o diagnóstico, o que reduz a transmissão, evita incapacidades físicas e diminui o estigma social associado à hanseníase”, afirma.
Mesmo com diagnóstico e tratamento disponíveis gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a doença ainda persiste no país. “Isso acontece por fatores como diagnóstico tardio, desconhecimento da população, dificuldade de acesso aos serviços de saúde em algumas regiões e estigma social. Além disso, o longo período de incubação da doença faz com que os sintomas demorem a ser reconhecidos, permitindo a transmissão silenciosa por anos antes do diagnóstico”, explica a especialista.
Alterações na pele e dormência são sinais de alerta
Entre os principais sinais da hanseníase estão alterações na sensibilidade da pele, que podem indicar comprometimento dos nervos. Entre os sintomas estão:
- manchas na pele com alteração da sensibilidade
- dormência ou formigamento
- áreas da pele que deixam de perceber calor, frio ou dor
- caroços ou placas avermelhadas
- queda de pelos em determinadas regiões
- diminuição da força nas mãos ou nos pés
Segundo a médica, esses sintomas não podem ser ignorados e a dormência persistente, em especial, é um alerta importante e que deve ser investigado. O diagnóstico da hanseníase é essencialmente clínico e deve ser realizado por profissionais de saúde capacitados.
“O diagnóstico é feito a partir do exame da pele e dos nervos periféricos. Em alguns casos, exames complementares podem auxiliar. O diagnóstico precoce é decisivo porque permite iniciar o tratamento antes que ocorram lesões nos nervos, prevenindo deformidades, incapacidades físicas permanentes e interrompendo a cadeia de transmissão da doença”, afirma a especialista.
Tratamento tem cura e é oferecido gratuitamente
A hanseníase tem cura. A terapia é feita com uma combinação de antibióticos conhecida como poliquimioterapia, indicada de acordo com o tipo da doença.
“Após o início do tratamento, o paciente deixa de transmitir a doença geralmente nas primeiras doses e pode manter vida social, familiar e profissional normalmente, desde que siga corretamente o esquema prescrito”, explica a especialista.
Quando o diagnóstico ocorre tardiamente ou o tratamento é interrompido, as consequências podem ser graves. O atraso pode provocar lesões irreversíveis nos nervos, levando à perda de sensibilidade, deformidades, dificuldades motoras e incapacidades permanentes. O abandono do tratamento também aumenta o risco de recaídas e contribui para a continuidade da transmissão da doença.
Preconceito ainda dificulta enfrentamento da doença
Mesmo sendo uma doença curável, o preconceito ainda é um obstáculo no enfrentamento da hanseníase. O estigma histórico associado à doença pode levar pacientes a esconder sintomas ou adiar a procura por atendimento médico.
“Infelizmente, o preconceito ainda existe e é um dos maiores desafios. O estigma pode levar ao isolamento social, sofrimento emocional, abandono do tratamento e atraso na busca por atendimento médico. E o preconceito existe tanto por parte das pessoas que convivem com o paciente quanto do próprio paciente com ele mesmo. Combater o preconceito é tão importante quanto tratar a doença”, afirma a dermatologista Elisabeth Lima.
A transmissão ocorre principalmente pelas vias respiratórias, por meio de gotículas eliminadas pelo nariz e pela boca da pessoa infectada ao falar, tossir ou espirrar. O risco é maior entre pessoas que convivem por longos períodos com o paciente antes do início do tratamento. Por isso, familiares e pessoas próximas devem ser avaliados pelas equipes de saúde, que fazem o acompanhamento dos chamados contatos domiciliares.
“É fundamental que familiares e conviventes sejam avaliados pelas equipes de saúde. Esses contatos passam por avaliação clínica da pele e dos nervos e podem realizar testes de triagem. Quando indicado, também recebem a vacina BCG como forma de proteção”, explica a especialista.
Após o início do tratamento, o risco de transmissão da doença torna-se mínimo.









