Operação hacker contra o Paraguai foi apresentada a dois ex-ministros de Bolsonaro, revela depoimento
Servidor da Abin forneceu detalhes da operação Vortex, usada para invadir computadores do Paraguai. Adolfo Sachsida negou; Heleno não se manifestou

Caio Crisóstomo
Um depoimento de um servidor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) prestado à Polícia Federal (PF) revela que a operação hacker contra autoridades do Paraguai foi apresentada para pelo menos dois ex-ministros de Jair Bolsonaro (PL), de acordo com um trecho da oitiva desse agente obtida com exclusividade pelo SBTNews.
O plano de operação, conhecido como Vortex, previa a invasão de computadores de autoridades do Paraguai envolvidas nas negociações sobre parte do Tratado de Itaipu. Segundo o depoimento dado à Polícia Federal, o plano foi apresentado ao general Augusto Heleno, então ministro do Gabinete de Segurança Institucional -órgão ao qual a Abin era subordinada-, e a Adolfo Sachsida, que era ministro de Minas e Energia. O depoente não informou a data exata em que houve essa apresentação.
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A operação Vortex tinha como objetivo obter informações sigilosas sobre a negociação envolvendo a venda de energia pela usina hidrelétrica de Itaipu. À época, o Brasil e o Paraguai negociavam uma revisão após 50 anos do “Anexo C do Tratado de Itaipu”, que determina a fórmula para o cálculo do preço da energia produzida.
No depoimento, o servidor que participou da preparação da operação Vortex, não explica se o repasse de informações teria seguido até os respectivos ministros da gestão do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
De acordo com as investigações da PF, o planejamento da Vortex teve inicío ainda na gestão de Alexandre Ramagem, diretor da Abin no governo Bolsonaro e investigado pela PF por uso ilegal da agência, e foi sendo repassado para outros gestores, incluindo o atual Luiz Fernando Corrêa.
Procurados, Ramagem, que hoje é deputado federal, e Corrêa, da Abin, não se manifestaram.
+ "Abin paralela": PF encontra computadores funcionais usados por Ramagem e sucessor na sede da agência Segundo ao menos dois relatos de servidores a que a reportagem teve acesso, Corrêa teria autorizado a operação Vortex após Alessandro Moretti, diretor-geral em exercício, recuar da data por receio que ação hacker vazasse para a PF.
Os depoimentos prestados à PF esclareceram a atuação da operação Vortex e a utilização de outros softwares de monitoramento pela Abin, como o Cobalt Strike e o LTE Sniffer.
A estrutura da Vortex também teria sido utilizada para outras ações da Abin no Brasil. O grupo seria composto por oficiais da agência que atuavam na gestão dos sistemas de inteligência da agência.
A reportagem enviou questionamentos para Abin, para o Palácio do Planalto e para o Ministério das Relações Exteriores, que não se pronunciaram até a publicação desta reportagem.