Exclusivo: 62% dos casos de violência por intolerância esportiva ocorreram fora de dias de clássico em SP
Em média, confrontos de torcidas rivais em clássico ocorreram a 14 km de distância da partida; especialista questiona torcida única

Derick Toda
Desde 2016, após uma briga entre as torcidas do Palmeiras e Corinthians deixar uma pessoa morta que passava na hora do conflito, os clássicos paulistas passaram a ser com torcida única. Na época, a decisão passou pelas mãos do então secretário de Segurança Pública, Alexandre de Moraes, com recomendação do promotor Paulo Castilho, ação aderida pela Federação Paulista de Futebol.
Mas, será que a violência que ultrapassa o campo diminuiu?
O SBT News realizou um levantamento via Lei de Acesso à Informação de investigações instauradas pela Delegacia de Repressão aos Delitos de Intolerância Esportiva (DRADE). Entre a série histórica que é de 2014 e 2024, a autoridade abriu 45 inquéritos de lesão corporal, homicídio e tentativa de homicídio.
Destes, 20 não foram concluídos, o equivalente a 45% de investigações sem respostas. Isso significa que o documento não chegou a ser enviado ao Ministério Público, responsável por oferecer ou não a denúncia para a Justiça.
Os dados surpreendem Felipe Tavares, professor da Unicamp e Doutor em Ciências Sociais, que é um dos responsáveis pelo Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Futebol (GEF) da instituição.
"São poucos os casos em que há um fichamento e a conversão em responsabilização para os envolvidos. O reflexo é uma sensação de impunidade ou de ineficiência investigativa".
Após a mudança de clássicos com apenas a torcida do time mandante presente na partida, houve uma redução imediata na quantidade de vítimas e no número de investigações. Apesar de um salto de casos de violência, em 2018, os dados variam, especialmente nos anos de pandemia.
Veja:
Dia de clássico é sinônimo de briga entre torcidas rivais?

Das 45 investigações instauradas, 28 dos crimes ocorreram em dias que não havia clássico estadual, sendo 17 em datas que outros times jogaram e em 11 nenhuma partida foi disputada.
Ou seja, 62% dos casos em que houve violência por intolerância esportiva não foram em confrontos entre Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Santos, Ponte Preta e Guarani – times que jogam com torcida única quando disputam entre si.
Dos episódios de violência em clássico estaduais, de acordo com o levantamento do SBT News com dados da Delegacia de Polícia de Repressão aos Delitos de Intolerância Esportiva:
- 5 ocorreram entre Corinthians X Palmeiras;
- 4 ocorreram entre São Paulo X Santos;
- 3 ocorreram entre Palmeiras X Santos;
- 2 ocorreram entre Corinthians X São Paulo;
- 2 ocorreram entre Palmeiras X São Paulo;
- 1 ocorreu entre Corinthians X Santos.
Em média, os casos de violência que aconteceram sem serem em dias de clássico foram a quase 7 quilômetros de distância do local do jogo disputado. Já os confrontos violentos em clássicos estaduais ocorreram, em média, a cerca de 13,5 quilômetros de distância do estádio em que houve a partida.
Na visão de Felipe Tavares, que também é autor do livro Violência no futebol: ideologia na construção de um problema social, a distância de um caso de violência com o local da partida e a maioria dos conflitos acontecer em dias sem rivalidade local são "indicativos de uma certa incapacidade da medida torcida única frear esses enfrentamentos".
"De alguma forma, quem acaba sendo punido no final é aquele torcedor que está afim de acompanhar uma partida com seu time visitante e que não se envolve em nenhum ato de vandalismo, em nenhuma prática violenta", afirma Felipe Tavares. "A torcida única passa uma mensagem negativa para o jovem torcedor. A mensagem de que o adversário é alguém que não pode estar presente no seu estádio e, portanto, é inimigo", completa.
Na recomendação do Ministério Público que fez manter a torcida única para 2025, acatada pela Federação Paulista de Futebol, a ação "têm apresentado bons resultados, como o aumento do público nos estádios e a diminuição na ocorrência de crimes em seu entorno".
Para o promotor de Justiça Roberto Bacal, a torcida única fez com que aumentasse o número de mulheres e crianças nos estádios paulistas, diminuindo as chances de serem vítimas de intolerância esportiva no trajeto de ida ou volta do estádio.
Torcida única criou novo personagem no futebol, diz especialista
Em dias de clássico com torcida única, uma pessoa sem a camisa do time, com uma roupa diferente das cores habituais do clube ou até mesmo que não acompanhe os cânticos da arquibancada passou a ser vigiado.
É o novo personagem do torcedor infiltrado, sendo um problema que surge de fiscalização para a autoridade pública, onde a vítima chega a ser caçada dentro do estádio.
"A torcida única cria a figura do torcedor infiltrado. Se sua camisa for diferente e estiver em um clássico, você corre o risco de ser caçado. É uma nova figura de um novo torcedor que também traz novos problemas".
"Não dá para colocar as torcidas organizadas no mesmo caldo"
Na visão do especialista, o poder público precisa ampliar a compreensão sobre as relações sociais que existem entre as torcidas organizadas, não as tratando na clandestinidade.
"Não se pode esquecer que as organizadas são espaços de socialização. Elas são fontes de pertencimento, fontes de lazer, fontes de muitas coisas que, muita vezes, jovens da periferia não encontram em outros setores da sociedade".
"Essas associações são heterogêneas, elas não são homogêneas. Não dá para colocar as torcidas organizadas no mesmo caldo. Tem as que são chamadas de pitas, identidade vinculada a embates físicos, as chopp, rasta e movimentos populares. Há uma verdadeira constelação de agrupamentos que não possuem necessariamente os mesmos objetivos", diz.
Além da importância da responsabilização dos envolvidos, o professor Felipe Tavares defende políticas públicas preventivas.
"Muitas vezes os casos acabam com sanções contra entidades ou organizadas que são punidas e afastadas. O resultado disso é a diminuição dos enfrentamentos? Não. O resultado disso é você colocar essa associação à margem, na clandestinidade, e perder o diálogo com ela, que é fundamental para a prevenção da violência", diz Felipe Tavares. "Quando essas associações torcedoras são convidadas para o debate, você tem, inclusive, mais legitimidade para responsabilizá-las", completa.
O SBT News pediu o posicionamento da Secretaria de Segurança Pública (SSP) sobre a eficácia das investigações e sobre quais são as ações preventivas adotadas pela pasta. A secretaria afirmou que vai se manifestar e a reportagem será atualizada.