PF apura atuação de diretor do Mackenzie em eleição em MG
Eduardo Abrunhosa atuou na campanha do filho do presidente da Igreja Presbiteriana do Brasil; PF apura suspeitas de crimes eleitorais

Eduardo Abrunhosa, diretor do Mackenzie Wilson Camargo/NTAI-Mackenzie
A Polícia Federal investiga suspeitas de crimes eleitorais envolvendo a eleição de Gustavo Brasileiro (DC) para a Prefeitura de Patrocínio (MG), em 2024. Um dos alvos do inquérito é Eduardo Abrunhosa, diretor do Instituto Presbiteriano Mackenzie que atuou como consultor da campanha.
Mensagens obtidas pela investigação mostram indícios de produção de conteúdo falso contra adversários políticos e de negociações envolvendo pagamentos e cargos públicos em troca de apoio, segundo investigadores. Para a Polícia Federal, o material contém suspeitas de crimes eleitorais.
Abrunhosa participou da campanha a convite de Roberto Brasileiro, presidente da Igreja Presbiteriana do Brasil há 24 anos e pai do prefeito Gustavo. A investigação ocorre às vésperas da eleição que escolherá, no próximo dia 27, a nova cúpula da igreja.
Abrunhosa passou cerca de seis meses entre viagens a Patrocínio dedicadas à campanha e à transição de governo. Nesse período, permaneceu vinculado e remunerado pelo Mackenzie como coordenador de Memória, Cultura e Relações Comunitárias. Dois meses após a vitória de Gustavo Brasileiro, ele foi promovido ao cargo de diretor de Administração, um dos principais da instituição.
O SBT News teve acesso a documentos da investigação e ouviu, ao longo dos últimos quatro meses, 14 pessoas ligadas à cúpula da Igreja Presbiteriana do Brasil, ao Mackenzie, à Polícia Federal e às campanhas que disputaram a Prefeitura de Patrocínio.

Denúncia
A investigação foi aberta pela Polícia Federal após dois aliados de Abrunhosa romperem com o diretor do Mackenzie, alegando descumprimento de acordo. Eles foram a um cartório e registraram em ata os diálogos mantidos no WhatsApp com Abrunhosa e o chefe de gabinete de Gustavo. O material foi entregue pela dupla a opositores políticos do prefeito, que registraram a denúncia na PF.
A dupla é composta pelos motoristas Edvanei Cortes, responsável por mobilizações de rua na campanha, e Igor José Lopes, que participou da reta final da disputa, gravando entrevistas com denúncias supostamente falsas contra adversários de Gustavo Brasileiro.
Segundo investigadores ouvidos pelo SBT News, as mensagens indicam negociações envolvendo promessa de cargos públicos e pagamentos que não apareceram na prestação de contas da campanha em troca da gravação dos vídeos contra adversários políticos.
As cobranças começaram ainda em 5 de outubro de 2024, dia da eleição. Edvanei enviou áudios e fotografias a Abrunhosa afirmando que o "olerite (sic) do menino da denúncia veio zerado".
A referência era a Igor José e ao vídeo divulgado dois dias antes da votação com ataques ao grupo adversário. Abrunhosa respondeu:
"Cara já temos um acordo sobre isso. Hj minha cabeça está focada em outra questão".
Igor relatou a Abrunhosa que vinha recebendo ameaças por causa dos vídeos e que enfrentava dificuldades financeiras. Abrunhosa o levou por algumas semanas para Rio Verde (GO), local de influência da Igreja Presbiteriana por causa do Hospital Evangélico Dr. Gordon.
Em janeiro, após a posse do prefeito, Igor José ainda não havia recebido um cargo. Edvanei afirmou ter emprestado mais de R$ 15 mil ao colega para o pagamento de despesas e voltou a cobrar Abrunhosa.
“Eduardo resolve a situação do menino aí ok. Eu não vou ficar segurando esse rojão aqui não. Só resolve o que vc tratou com ele”, escreveu.
Edvanei relatou a insatisfação com Abrunhosa para o chefe de gabinete de Gustavo, Erli Voltolini Junior. Ele disse que levou o diretor do Mackenzie para “dentro da minha casa”, que foi “capanga desse cara” e que havia colocado “muita coisa em risco” ao se associar a Abrunhosa.
Em 13 de fevereiro, Edvanei e Igor levaram seus celulares a um cartório de Patrocínio para registrar as conversas mantidas com Abrunhosa e aliados do prefeito. A documentação foi encaminhada à Polícia Federal no mesmo dia. Seis dias depois, Igor foi contratado pela Prefeitura de Patrocínio como motorista, com salário de R$ 2,5 mil.
Em depoimento à Polícia Federal, Igor José negou as irregularidades que havia relatado nas mensagens e no material apresentado à investigação. Procurados pelo SBT News, ele e Edvanei preferiram não comentar o caso.
Meses depois, no início de julho deste ano, Igor José foi demitido da Prefeitura após o vazamento de áudios sobre uma suposta tentativa de favorecer familiares na fila do Minha Casa, Minha Vida.
Procurado pelo SBT News, Eduardo Abrunhosa afirmou que atuou de forma voluntária como consultor de estratégia e comunicação política na campanha de Gustavo Brasileiro e negou qualquer irregularidade.
O diretor do Mackenzie também afirma que as testemunhas ouvidas pela Polícia Federal “negaram qualquer irregularidade nas conversas de WhatsApp anexadas ao inquérito” e que um dos autores da denúncia disse à PF que sequer sabia do teor das acusações. Segundo sua versão, Igor José e Edvanei disseram que os diálogos “foram retirados de contexto” e que “foram pressionados a produzir a ata notarial com as referidas conversas”.
Abrunhosa afirma ainda que sua atuação na campanha não teve relação com suas funções no Mackenzie e que sua promoção ao cargo de diretor de Administração “decorreu exclusivamente de sua trajetória profissional, qualificação técnica e histórico de atuação”. Disse permanecer à disposição das autoridades.
Em nota, o Instituto Presbiteriano Mackenzie afirmou que não é alvo da investigação e que “não possui relação com atividades de consultorias ou assessorias realizadas por seus colaboradores, sejam elas voluntárias ou remuneradas”. Disse ainda que seus funcionários exercem suas atividades em conformidade com a legislação e que as nomeações para cargos de gestão seguem critérios técnicos, de governança, integridade e conformidade.
A Prefeitura de Patrocínio informou desconhecer a existência de inquérito envolvendo o prefeito Gustavo Brasileiro ou a administração municipal. Em nota, afirmou atuar em conformidade com os princípios constitucionais da administração pública e disse não comentar "rumores, fake news, especulações ou ilações desprovidas de confirmação pelas autoridades competentes".

Igreja
A atuação de Eduardo Abrunhosa na campanha de Gustavo Brasileiro começou a convite de Roberto Brasileiro, presidente da Igreja Presbiteriana do Brasil há 24 anos e pai do prefeito. A experiência do diretor do Mackenzie em campanhas eleitorais pesou na escolha. Antes de ingressar no sistema Mackenzie, Abrunhosa coordenou campanhas no Rio de Janeiro, entre elas as do início da trajetória política do deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ).
Quando Abrunhosa passou a atuar em Patrocínio, em junho de 2024, Gustavo Brasileiro aparecia nas pesquisas mais de 20 pontos percentuais atrás do então prefeito Wellington Mamazão (MDB), que buscava a reeleição.
Ao longo dos últimos 24 anos, Roberto Brasileiro consolidou influência sobre a estrutura administrativa da Igreja Presbiteriana do Brasil e de instituições ligadas à denominação, entre elas o Instituto Presbiteriano Mackenzie. Durante sua gestão, familiares e pessoas de sua confiança passaram a ocupar cargos de destaque na igreja e em entidades vinculadas à IPB.
Entre eles estão o genro Tony Carneiro, chefe da Gestão de Pessoas; o cunhado Maurício Meneses, vice-presidente do Conselho Deliberativo; o filho Eduardo Brasileiro e o cunhado Roberto Tambelini, consultores jurídicos; além do irmão Mário Lúcio e do sobrinho André Fernandes, dirigentes do Hospital Evangélico Dr. Gordon.
Nos últimos anos, lideranças ligadas a igrejas presbiterianas do Rio de Janeiro também ganharam espaço na administração do Mackenzie. Entre elas estão Abrunhosa, o diretor-presidente do Mackenzie, Cid Caldas, e o diretor Comercial, de Inovação e Tecnologia, André Ricardo Ribeiro.
Roberto Brasileiro foi procurado pelo SBT News, mas não respondeu aos questionamentos. Pela primeira vez em 24 anos à frente da Igreja Presbiteriana do Brasil, ele decidiu não disputar a reeleição. A nova cúpula da denominação será escolhida no próximo dia 27.


























