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Atuais políticas públicas são incoerentes com a sustentabilidade, criticam CEOs

Especialistas em economia circular dizem que os governos ainda não incentivam o capitalismo consciente

Atuais políticas públicas são incoerentes com a sustentabilidade, criticam CEOs
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"Até agora só se criou formas de desperdício. Até pela ociosidade. É quando você compra um produto e não usa. A furadeira é um exemplo. Quem tem, usa em média, três minutos na vida, vi em uma pesquisa. Também tem o encurtamento da vida útil, que nasceu na primeira crise econômica do mundo. Quando o pessoal das lâmpadas precisou aumentar o consumo... 'Eureka! Vamos acabar com a vida útil das lâmpadas'. Em vez das sete mil horas, deixaram com mil. Duram menos e vendem mais", conta Guilherme Brammer, CEO da Boomera Ambipar, empresa que cria soluções sustentáveis para outras companhias, ao falar sobre como o modelo econômico de produção linear não é sustentável.

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A solução é o sistema circular, no qual a matéria-prima pode vir de produtos dispensandos, uma reciclagem. Os resíduos gerados durante o processo já são deslocados para outras linhas de produção ou até fábricas, gerando outros itens. Em vez de feitos para não durar, o contrário. O lucro pode vir pela confiança gerada ou por transformar o produto em serviço. O exemplo da furadeira pode ser dado aqui: ao invés de vender uma furadeira que se tornará quase inútil, por que não criar um serviço de aluguel da ferramenta e lucrar permanentemente? Pois é, não é porque é sustentável que não rende lucro, lembra outro CEO:

"Não é a toa que chamam de economia circular. Se não era só circularidade. É o negócio envolvendo a circularidade que chama economia circular. A gente tem que parar de achar que é uma atitude de quem abraça árvore e entender que é uma oportunidade de negócio fazer seu produto durar ou voltar", fala Arthur Rufino, que criou a Octa, uma desmontadora de veículos. Ou seja, evita que mais latas, plásticos, tecidos, vidros e condúítes sejam jogados naqueles gigantescos cemitérios de automóveis.

"Tive em 10 países. Você percebe que lá fora, 5% da frota, todo ano, vão para um centro de desmontagem legal. São desmontadas e as peças são redistribuídas para o consumidor. Seja como reuso puro ou como remanufatura. Então, você pega uma peça que não tá perfeita, a indústria simplesmente aplica algum tipo de reparo ela volta em condição de nova para o mercado. São mercados enormes. O Japão tem quase quatro milhões de veículos desmontados por ano. O Estados Unidos tem mais de 12 milhões. No Brasil, a gente tá com 500 mil desmontados formalmente. Aí o que acontece: quando você não oferece para o mercado uma solução legal, aumentam os furtos e roubos de veículos. Então, tem muito espaço para centros de desmontagem legais no Brasil para dar conta do recado. Porque o consumidor tá sentindo a falta, a demora das montadoras: cadê minhas peças", conta Arthur, incomodado sobre como, durante esse tempo todo, o Brasil ainda tem tão poucas desmontadoras.

Por que poucos empreendedores veem oportunidades no movimento pela sustentabilidade?

"A gente tem que mudar um 'chipzinho' no cérebro. Precisa aprender a desaprender. Começar a colocar esse tipo de pauta para crianças desde o primeiro ano da escola. A gente ensina história, geografia, matemática, mas não ensina ecossistema, sustentabilidade. Então, quando você vai tomar uma decisão, seja como consumidor ou diretor de uma empresa, sua decisão vai seguir o passado", considera Guilherme ao refletir sobre a carência de projetos sustentáveis. Além da educação escolar, a de ensino superior, o mercado de trabalho, o financeiro e os poderes políticos precisam mudar suas formas de ver processos, afinados com a sustentabilidade.

Aliás, sobre as políticas públicas, podemos citar que precisam ser mais coerentes. Um mau exemplo ocorre com os subsídios cedidos pelos governos para as indústrias: "Hoje, a indústria recicladora paga o mesmo nível de impostos que uma indústria petroquímica, que uma indústria que extrai recursos não renováveis paga", lembra ele. Essa situação mostra como, apesar da gravidade, ainda não temos o comprometimento de quem mais interessa para diminuir o estresse do planeta. "A economia circular, pela abrangência que tem e se emprega em escala, é a solução para o que vivemos hoje", afirma Guilherme.

Porém, nos Estados Unidos, menos de 10% das empresas aderiram à economia circular, conforme pesquisa do próprio governo à pedido presidente Joe Biden. No Brasil, de acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), 72% fazem. Esse dado causou surpresa: "Eu diria que há alguma informação complementar aí", brinca Guilherme. "De certo, fazem algo como reciclar arestas da matéria-prima. Não é um programa completo", complementa Arthur. Realmente, a CNI revela que entre os que disseram fazer economia circular, 70% deles que não conheciam o conceito antes de serem interrogados pela pesquisa.

Saiba mais sobre economia circular no episódio 33 do Foco ESG:

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