Justiça

Incêndio no Ninho do Urubu, que matou 10 jovens, completa cinco anos sem condenações

Onze pessoas foram denunciadas, três foram absolvidas e oito ainda aguardam julgamento

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Raíza Chaves
08/02/2024, 12:03 • Atualizado em 08/02/2024, 13:22
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Incêndio no Ninho do Urubu, que matou 10 jovens, completa cinco anos sem condenações

Há cinco anos, no dia 8 de fevereiro, dez jovens atletas do Flamengo morreram em um incêndio no alojamento da base do time no Ninho do Urubu, no Rio de Janeiro. Outros 16 meninos sobreviveram. No total, 11 pessoas foram denunciadas pela tragédia, três foram absolvidas e oito ainda aguardam julgamento. Ou seja, ninguém foi condenado até agora.

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Relembre quem são as vítimas fatais

Os meninos mortos no incêndio tinham entre 14 e 16 anos:

Athila Paixão: 14 anos

Arthur Vinícius: 14 anos

Bernardo Pisetta: 14 anos

Christian Esmério: 15 anos

Gedson Santos: 14 anos

Jorge Eduardo Santos: 15 anos

Pablo Henrique Matos: 14 anos

Rykelmo de Souza: 16 anos

Samuel Thomas: 15 anos

Vitor Isaías: 15 anos.

Compensação às famílias

De todas as famílias envolvidas na tragédia, apenas uma ainda não chegou a um acordo indenizatório com o clube.

Em 2 de dezembro de 2021, a família do goleiro Christian Esmério, uma das vítimas fatais, entrou com processo contra o Flamengo, na 33ª Vara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) com pedido de indenização de R$ 8,4 milhões.

Na última segunda-feira (5), o Flamengo anexou novos documentos ao processo aberto pela família de Christian e aguarda o julgamento do caso, que tramita em segredo na 33ª Vara Cível do TJ-RJ.

A família de Christian pede que o valor seja pago aos pais e ao irmão, dividido em R$ 5,4 milhões por danos morais e R$ 3,9 milhões referentes a pensão. Além disso, eles requerem o pagamento do valor à vista, o que o clube não quer fazer.

Sobreviventes

Dos sobreviventes, apenas dois continuam atuando no time: o goleiro Francisco Dyogo e o volante Rayan Lucas.

Jhonata Ventura teve ferimentos graves e deixou a carreira de atleta por causa das sequelas do incêndio. Em setembro de 2023, virou funcionário do clube. Atualmente, faz parte da equipe de scout da base.

O que aconteceu?

Por volta das 5 da manhã do dia 8 de fevereiro de 2019, um incêndio tomou conta de parte do centro de treinamento do Flamengo, em Vargem Grande, na zona oeste do Rio.

A principal hipótese é de que um curto-circuito no ar condicionado do local tenha provocado o fogo no alojamento usado pelas categorias de base do clube. Seis contêineres interligados serviam de dormitórios.

Denunciados

Inicialmente onze pessoas foram denunciadas na Justiça. Três já tiveram o caso definido:

Marcus Vinicius Medeiros

Marcus Vinicius Medeiros, que trabalhava no Ninho do Urubu, foi absolvido na 37ª Vara Criminal em março de 2022. De acordo com o colegiado, era um trabalhador quee obedecia a ordens superiores.

Carlos Noval e Luiz Felipe Pondé

O diretor da base do Flamengo, na época, Carlos Noval, e o engenheiro Luiz Felipe Pondé foram excluídos do processo, no ano passado. No entendimento da Justiça, eles não são culpados do incêndio. O mesmo entendimento tinha tido o juiz Marcos Augusto Ramos Peixoto, da 36ª Vara Criminal (que substituía o juiz titular do caso), que rejeitou a denúncia do Ministério Público, em maio de 2021.

À época, o MP recorreu e conseguiu reverter a rejeição após análise da 3ª Câmara Criminal, por dois votos a um. As defesas, então, recorreram e os argumentos foram novamente analisados, desta vez, por um colegiado de cinco desembargadores da 5ª Câmara, que entenderam que as investigações não conseguiram provar que ambos tiveram responsabilidade na tragédia.

Os outros oito réus vão continuar a responder pelo crime de incêndio culposo qualificado, com casos de morte e lesão grave. Além do ex-presidente do clube Eduardo Bandeira de Mello, continuarão na condição de réus Márcio Garotti (ex-diretor financeiro do Flamengo); Marcelo Sá (engenheiro do clube); Claudia Pereira Rodrigues (NHJ) – empresa que forneceu os contêineres –; Weslley Gimenes (NHJ); Danilo da Silva Duarte (NHJ); Fabio Hilário da Silva (NHJ); e Edson Colman da Silva (técnico em refrigeração).

A reportagem tentou contato com a empresa NJH, responsável pelos contêineres, e com o Clube de Regatas do Flamengo, mas ainda não teve retorno.

Bandeira de Mello

O ex-presidente Bandeira de Mello divulgou uma nota sobre o caso nesta quinta-feira (8):

"No momento em que se atinge 5 anos da tragédia do incêndio do Ninho do Urubu, gostaria de destacar os pontos a seguir:

1- Trata-se do episódio mais triste da história do C R Flamengo e talvez do esporte brasileiro. Não existe nada mais doloroso do que a perda de um filho, principalmente nas condições em que se deu a morte dessas crianças.

2- Entendo que todas as informações relativas à tragédia devem ser aprofundadas e amplamente divulgadas para subsidiar a apuração dos fatos e para que não se deixe cair no esquecimento esse fato lamentável.

3- O processo que corre na justiça do Rio é público, traz muitas informações , pareceres e depoimentos e sua leitura (de preferência com um bom assessoramento jurídico) é a melhor forma de esclarecimento sobre os lamentáveis fatos do dia 08/02/2019. Inclusive sobre nossas repostas ao MP e sobre os relatórios que atestaram o progresso e a melhoria de qualidade constantes das instalações destinadas à base desde 2014,até a ocupação do módulo definitivo em 2018.

4- Já me pronunciei algumas vezes sobre a tragédia e seus desdobramentos.

Eu não era mais presidente do clube nem participava da sua gestão desde dezembro de 2018. Deixamos 2 centros de treinamento e alojamentos com nível de excelência internacional prontos, acabados e inaugurados com ampla cobertura da imprensa. Na minha gestão os meninos da base já estavam ocupando as novas instalações e sobre isso há farta documentação comprobatória.

5- As causas do incêndio nos módulos habitacionais que eram utilizados até novembro de 2018 e que voltaram a ser ocupados no dia da tragédia estão sendo apuradas no âmbito do processo criminal que, repito, é público.

6- Como cidadão, rubro-negro e ex-presidente , tenho a plena consciência de que o Flamengo deve explicações à sociedade sobre a tragédia. É fundamental que todas as informações que possam levar às causas e aos eventuais responsáveis pelo incêndio sejam disponibilizadas à opinião pública de maneira estruturada e totalmente transparente. Não pode haver dúvida sobre o que aconteceu ali e a responsabilidade tem que ser integralmente assumida pelo clube.

Esse compromisso não prescreve com o tempo. Enquanto dúvidas persistirem e enquanto houver reparações a serem feitas, o Flamengo estará falhando na sua missão de preservação da imagem do clube e na sua obrigação de servir de exemplo a mais de quarenta milhões de rubro-negros."

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